Almiro

Naquele transe, Almiro estava disposto a tudo. A arriscar a vida se necessário. Por isso, mergulhou da borda do barco e nadou para a praia. Havia vagas e correntes, mas Almiro cortou as águas sem medo nem hesitação. O folgo começava a faltar, a espuma açoitava-lhe a cara, cegava-o. Mas ele prosseguiu, intrépido. Não podia faltar àquele encontro que o destino, providencial, pusera no seu caminho. Nadou, pois. Muito, quase até ao esgotamento. Chegado à praia – melhor se diria, atirado à praia pelas ondas – ainda havia um longo caminho na areia mole e pesada. Correu. Faltava-lhe a respiração, sentia-se desfalecer. O suor corria-lhe pelo corpo misturando-se com a água do mar. Ofegante, continuou. Já faltava pouco, o seu objectivo estava à vista, já lhe vislumbrava o sorriso. o longínquo brilho dos olhos azuis que tanto emocionavam Almiro. Corre, Almiro, corre. Mais se arrastando que correndo Almiro estava a chegar. Trôpego, caiu de joelhos e levantou o braço para que o alvo da sua demanda o visse. Mas era tarde. E, para desespero Almiro, que ali ficou, rastejante, com o braço no ar num gesto de derradeira súplica, já nada havia a fazer. O objecto do seu vão esforço partira no seu luxuoso carro .

Por isso, para seu lancinante desespero, ainda não seria daquela vez que Almiro conseguiria a almejada selfie com o professor Marcelo.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Sim, pobre Almiro.
    Mas a culpa não é do sr. das selfies.
    O sr. presidente, residente, para já, nos areais algarvios, trabalha afanosamente, tirando selfies sobre selfies, distribui simpatia, da mesma forma que o pasteleiro distribui bolas de berlim pela praia e aproveita todo o momento livre para aprovar uns diplomazitos quando a populaça e a TV o deixam tranquilo.
    O pobre sr., manifestamente, não pode desfrutar dos prazeres marinhos e das férias, com tanto trabalho extra…
    Ainda bem que o Almiro não chegou a tempo senão lá se iam mais uns minutos de exposição, aos raios ultra-violetas e aos raios gama das selfies. Muitos raios para um homem só.

    Mas em paralelo, que vemos nós?
    Um grupo de portugueses que decide fazer uma greve onde as horas extras também vêm a jogo, mas que se não alinham pelo padrão de solidariedade do sr. das selfies…

    Assim vai o país. E o populismo, também…

  2. Rui Naldinho says:

    “Na minha santa ignorância, néscio, descubro então no último parágrafo deste texto, que Almiro não era um daqueles náufragos do Mediterrâneo que tenta sobreviver deixando a morte para trás, a Sul, mas é sim um dos muitos otários alienados, que vive obcecado por uma foto com aquele amigo da Cristina Ferreira que lhe telefona do Brasil, para o programa em directo, na SIC.”
    Almiro, se és homem de fé, vai a Fátima a pé!

  3. Julio Rolo Santos says:

    Com o Sr. Boliqueime a história não acabaria assim.

  4. miguel duarte says:

    convém aprender a escrever fôlego

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.