Abstenção

É tema recorrente nesta época. Seja por causa da desactualização dos cadernos eleitorais, com eleitores falecidos a aumentarem a abstenção na proporção directa dos apoios autárquicos contados em cabeças, seja devido à governação que apenas ouve os cidadãos durante as semanas que antecedem as eleições, o número de eleitores que acha que o seu voto nada conta vem aumentado de eleição em eleição, com o consequente corolário de estes não irem votar.

Os cidadãos contam, de facto, pouco na tomada de decisão. Depois da eleição, o processo de decisão política é muito pouco condicionado pela esmagadora maioria dos cidadãos, seja ao nível dos governos, seja da parte das autarquias. Os processos nascem da vontade de fulano ou sicrano e seguem, a partir daí, um rumo inexorável.

Veja-se, por exemplo, o caso do aeroporto em Alcochete, onde é óbvio para todos que a escolha está feita, sendo as questões ambientais uma nota de rodapé. É certo que houve uma mudança drástica quando as agulhas se desviaram da Ota. Mas esta deveu-se à chicana política entre dois partidos e não à vontade dos portugueses, os quais não foram sondados sobre o assunto.

Para além da participação política vedada, na prática, ao comum cidadão, os casos que este governo deu à nação são, certamente, uma causa bem mais forte para a abstenção. Veja-se o que passa com o caso de Tancos. É notório o envolvimento de altos dirigentes, há mentiras que se descobrem por SMS e assistimos ao assobiar para o ar, tal como fazem os socialistas, com Tiago Barbosa Ribeiro à cabeça e com António Costa a fazer de maestro. Escondem-se por trás de frases como “à justiça o que é da justiça” como se não fosse o julgamento político que está em causa. A justiça virá quando, se, vier. Agora é a responsabilidade política que é chamada à frente e não será possível outro tribunal que não o do povo a julgar a política.

Foram muitos os casos com gravidade política mas sem consequência neste governo. Os incêndios, o nepotismo, Tancos, as golas e os serviços máximos das greves são apenas alguns exemplos que cavaram ainda mais o fosso entre políticos e eleitores. São, portanto, cínicas as palavras dos políticos envolvidos neste lodo quando trazem a abstenção para tema do dia.

Ao contrário do que esses políticos nos querem fazer acreditar, reduzir a abstenção não passa por eles próprios fazerem mais isto ou aquilo, mas sim por os trocar por outros que respeitem os eleitores. E isso faz-se indo votar. Tão simples quanto isto.

Comments


  1. Bom, em primeiro lugar a questão da abstenção é como a célebre frase do autor italiano Dino Segre, que como gostava muito de colocar os pontos nos is, usava o pseudónimo de Pitigrilli:

    “Estatística: a ciência que diz que se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um.”

    Ora isto foi o que nos deram a comer nas Europeias. Uiii que a abstenção aumentou!!! mas afinal houve mais pessoas a votar!!

    Sim, tudo se deveu aos 99% de abstenção na emigração. Emigração essa que eu defendo que não tem qualquer direito a votar, mas foi um estratagema que PS e PSD arranjaram para ter mais um ou dois deputados sem qualquer esforço.
    Se um estrangeiro vive, trabalha e faz descontos em Portugal, sim, pode e deve decidir os destinos da nação onde vive; um cidadão autóctone que decide abandonar o seu país para ir para outro destino qualquer, e que já não sabe do que é viver no seu, nem muito menos sabe como está sendo feita a governação nem a pode avaliar nem ouviu as novas propostas da oposição, não, não deve ter o direito de votar. É a minha opinião.

    Sobre a questão dos cadernos eleitorais e dos mortos, também estou em crer que é outra mentira antiga que se continua a vender por alturas das eleições por forma a tentar justificar o injustificável. Já aquando da morte do meu avô, há uns cinco anos talvez, dirigi-me logo à junta de freguesia, pensando eu que deveria informar para retirarem o seu nome dos cadernos eleitorais. O que me foi dito foi que isso há muito que não é preciso, que há cruzamento de dados, e esses nomes saem automaticamente dos cadernos eleitorais.

    Sobre o porquê de termos uma abstenção tão elevada, a meu ver nem tem que ver com a forma corrupta como os nossos representantes nos vão governando, mas sim porque as pessoas estão-se simplesmente a borrifar. Reclamam na internet, nunca estão satisfeitas, mas não querem saber do assunto. Os outros que decidam que está tudo bem obrigado e o povo é sereno.

    O que importa verdadeiramente é a acompanhar o clã Aveiro, e a triste vidinha perfeita de cada um nas redes sociais.

    • Paulo Marques says:

      Mas as pessoas também se estão a borrifar porque ninguém lhes dá uma razão. A grande visão dos partidos para o futuro são as contas certas, para ver se nos deixam cortar menos e se deixamos de ficar mais precários todos os anos (uma teoria cada vez mais parva num modelo económico que já não tem por onde se lhe pegue). Concorde-se ou discorde-se, foi assim que os populistas e os verdes levaram gente às urnas em Maio.

  2. Rui Naldinho says:

    Eu tenho uma opinião muito particular sobre o acto de votar.
    Votar é antes de tudo, estabelecer um cordão sanitário, para que aqueles que decididamente achamos que nos querem fazer mal, não tenham oportunidade de vingarem os seus intentos.
    Tudo o resto é fantasia.

    A nossa História, com honrosas excepções, e no qual incluo, por exemplo, Ramalho Eanes, Maria de Lourdes Pintasilgo, Salgado Zenha, António Arnaut, Mota Amaral, entre muitos outros que não me ocorrem agora, cada um deles é há sua maneira, tentaram servir Portugal.
    Como república, Portugal está recheado de personalidades que abraçaram política com o intuito de alcançarem acima de tudo protagonismo. Estavam já num patamar social elevado, mas não gostavam do anonimato. Sentiam-se mal na sombra. Viviam do conflito ideológico e da defesa da sua própria agenda pessoal. Mário Soares e Sá Carneiro são um bom exemplo disso. Como tribunos tiveram uma legião de seguidores.
    Com a globalização da política e do espaço público, apareceram no inicio deste século uma nova casta de políticos, cuja única apetência ou interesse na política é safarem-se no plano pessoal e económico. Uma espécie de “novo riquismo e Chico espertismo”, na política. Grande parte deles vêm das classes médias baixas. Desprotegidos financeiramente e sem grande percurso académico, desejam com avidez um instrumento que os faça ter poder económico. Ter status social. Outros até poderão ter um percurso académico interessante, mas como Portugal cada vez é mais pequeno para tanto canudo, atiram-se para a política como a última alternativa para sair daquela “pobreza endémica” que a globalização criou nas classes mais baixas.
    Dito isto, quando voto, não o faço por absoluta convicção no programa partidário A, B ou C, e ainda menos pela percepção de que o líder partidário que eu escolhi, é uma personalidade “inatacável no plano político”. Faço-o porque intuo, e só por isso, que este partido ou este líder, está em melhores condições de barrar o caminho daqueles que eu detesto, sabendo eu que se não me predispuser a isso, votando neles, os outros, os detestáveis, sairão vencedores.

    • Paulo Marques says:

      Sem falar numa carreira europeia, ou vá, pelo menos a gerir fundos (na realidade, subornos) europeus.

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    A bancarrota em que caiu esta política e a classe que a representa, só é possível porque há um elemento que não cumpre minimamente as suas funções. Refiro-me ao presidente da República cuja principal atribuição é:

    Garantir a unidade e o regular funcionamento das instituições democráticas defendendo cumprindo e fazendo cumprir a Constituição da República Portuguesa.
    A seu lado, funciona o Conselho de Estado que tem um poder consultivo, ao pronunciar-se sobre as actividades do Governo e ainda sobre decisões de fundo, como o modo como funciona a Assembleia da República podendo formular críticas ou mesmo, dissolvê-la, em caso de erros graves.

    Esta é a teia constituída por um presidente e um grupo de elementos que são lídimos representantes da actual classe política. No conselho de Estado, aparecem muitos nomes ligados a grandes interesses privados (no tempo de Salazar eram as famosas 12 famílias) e outros que, tal como o actual presidente, são comentadores nos tempos livres.
    Assistimos ainda a presidentes da República que usam as suas atribuições para procederem a condecorações cirúrgicas envolvendo personagens sobre os quais, actualmente, pendem acusações de crimes, nomeadamente financeiros.

    Nos termos da Constituição cabe ao Presidente pronunciar-se sobre as emergências graves para a vida da República.
    Dou dois exemplos: o regabofe bancário e mais actualmente, o caso de Tancos.
    No primeiro caso tivemos um presidente que, sendo Prof. Doc e com certeza com outras atribuições, veio, uns dias antes do maior hecatombe bancária falar da potencialidade de um banco corrupto e falido, claramente a enganar os portugueses. E fê-lo, crendo na sua competência, de uma forma dolosa … Esta pessoa é conselheira de Estado, por exemplo …

    E qual o resultado disto tudo?
    O novo presidente, não mexe em nada daquilo que foi feito, o que revela o seu acordo.
    Não interfere minimamente nos casos de ruptura que se vêm verificando, nomeadamente na justiça, embora seja o garante pelo bom funcionamento das instituições democráticas, onde a justiça é um pilar mestre.
    Apareceu, de facto, quando alguém lhe chamou “papagaio mor do reino” a justificar, não percebi o quê. E teve logo o apoio dos srs políticos dizendo que ele está acima de qualquer suspeita!!!
    Ora essa!!! Porquê?

    Esta é a teia que vemos todos os dias a funcionar.
    Pessoalmente, não vou na onda dos que pretendem explicar a abstenção pela qualidade dos abstencionistas.
    A abstenção é uma figura eleitoral que entra no campo da democracia. É um direito prescrito nas votações.
    O que esta cartel político deveria fazer era levantar os motivos para perceber as razões que levam os portugueses a votar no maior partido nacional: a Abstenção. Mas isso, não lhes dá jeito nenhum e preferem assim fazer apelos e assobiar para o lado.
    A classe política sabe e está farta de saber que se a abstenção é o maior partido, as razões assentam na corrupção que vigora, na inacção de quem deveria ser o motor da democracia e na paupérrima qualidade dos nossos políticos.
    Não mandem pedras a quem se abstém, porque, a maior parte está farto deste regabofe e destas figuras ridículas onde não faltam, de facto, papagaios.

  4. Ana Moreno says:

    A propósito de abstenção, enviaram-me isto:
    https://youtu.be/Ened6_yy0Xk

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Cara Ana:
      Merda e não frita, é o que nos têm servido os que vão votar. E não é porque há absentistas que se come a merda escrutinada. É porque há falta de coragem e/ou ignorância de quem vota.
      Um povo que maioritariamente vota naqueles que o prejudicam sistematicamente, não é fiável. Pois que comam a merda, frita ou não, porque eu até sou vegetariano.

  5. Ana Moreno says:

    Caro Ernesto, o problema é que depois comemos todos a dita. Nunca deixou de haver um governo por via da abstenção, isso não está previsto. Resta pois votar no menos mau. A meu ver, até há nestas eleições alternativas e principalmente muita necessidade de contrariar maiorias absolutas e receitas de austeridade para os menos previlegiados e de mãos livres para os mais poderosos. Com a sua abstenção não atinge nada, é só desperdício.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Cara Ana.
      Não queira ler o que eu não escrevi.
      Eu nunca escrevi que nunca deixou de haver um governo por via da abstenção. O que escrevi é que temos de obrigar o cartel político a analisar os números da abstenção em vez de assobiarem para o lado.
      Nem em lado nenhum eu escrevo que me abstenho. Faço parte daqueles que lêem a abstenção e se preocupam com ela. Ora faça-me o favor de ler o que venho escrevendo sobre a abstenção e diga-me se alguma vez lhe chamei um remédio ou que a pratico. Não, apenas a compreendo, ao contrário desta corja de políticos, que a desconsideram, metendo tudo no mesmo saco, tratando todos os abstencionistas como um bando de inúteis, preguiçosos e inconscientes, para justificar a sua eleição.
      Da última vez que Cavaco foi eleito, foi-o apenas com 25% dos votos expressos. E tivemos que gramar toda essa merda (frita ou não) durante mais quatro anos. E ainda hoje os “democratas” palitam os dentes, chupando-o, agora, como conselheiro de Estado.
      Partilho a sua preocupação: o importante é evitar que esta “xuxalhada” de Carlos César, Costa, Santos Silva e quejandos fique de mãos livres para fazerem como Santos Silva diz com todo o despudor …”alianças convenientes”.

      • Ana Moreno says:

        Olá Ernesto, pois de facto percebi no seu comentário anterior que considerava a abstenção preferível. Se não, tanto melhor.
        Não acredito é que algum dia consigamos “obrigar o cartel político a analisar os números da abstenção em vez de assobiarem para o lado.” Eles vão continuar a assobiar para o lado, seja ela qual for (as passadas eleições europeias foram um exemplo). Infelizmente, não há uma regra democrática que estabeleça um mínimo de participação nas eleições para que o resultado tenha validade. Portanto abster-se é mesmo só desperdício.
        “para fazerem como Santos Silva diz com todo o despudor …”alianças convenientes”. Esse senhor é intragável.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Boa noite Ana.
          Admito que quem se debruça sobre a abstenção do modo como eu o faço, possa conduzir a outras interpretações. Mas não, acredite que nunca me abstive. Compreendo, isso sim, o desencanto de muita gente que manda a corja política bugiar a partir de certa altura.
          A regra que aborda, integrando condições de validade de um acto eleitoral, nunca será feita por esta corja do Arco da Governação. Seria um perigo enorme para o seu poder. E daí ser melhor assobiar para o lado…
          Não sei o que pensam disso os partidos da esquerda, mas vou esperar para perceber.
          Fique bem.

        • Carlos Almeida says:

          “Esse senhor é intragável.”
          Esse senhor não é intragável, esse senhor é o senhor 3ª via, que quer fazer a quadratura do círculo, que como se sabe é impossível.
          Esse senhor é muito perigoso, na minha opinião claro

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Subscrevo.
            Tenho em minha posse alguns artigos que esse senhor escreveu sobre a industrialização e o operariado do século XIX.
            É inacreditável o modo como, em pleno século XXI ele e o seu partido, tratam o mesmo operariado.
            Este é o PS em toda a sua pujança: indefinido, contraditório, jogador, manipulador …

          • Ana Moreno says:

            Claro que tb. subscrevo; por isso mesmo lhe tenho alergia.

  6. Luis says:

    Uma elevada percentagem de abstencionistas está entre os portugueses mais esclarecidos que sabem que votar é dar suporte a partidos corruptos suportados por uma justiça corrupta e apoiado por uma comunicação social corrupta.
    Com estes indicadores percebe-se que o regime não muda com votos mas só mudará quando apodrecer.

    Aos que vão votar faço-lhes um pequeno teste: Compravam um “carro usado” a qualquer dos candidatos a deputados?
    Eu não … por isso não voto.

    • E o burro sou eu ? says:

      ” Compravam um “carro usado” a qualquer dos candidatos a deputados?
      Eu não … por isso não voto.”

      Argumento muito inteligente e esclarecedor

    • Paulo Marques says:

      E soluções? Comer e calar até aparecer alguém que tome conta disto, onde depois fica só com o calar?

      • Luis says:

        Soluções?
        Se for crente reze e se não for emigre como já fizeram metade dos nossos compatriotas.

    • j. manuel cordeiro says:

      O mais saudável seria tomarmos o poder de assalto.

      • Luis says:

        Não seja ingénuo, meu amigo, o poder em Portugal já foi tomado de assalto há muito tempo pelos DDT que nunca se candidataram às eleições.

        Os DDT apenas se dão ao trabalho de ter na folha de pagamentos os seus assalariados eleitos pelo povo, para estes lhes arranjarem uns empréstimos sem garantias, umas rendas nas parcerias e uns negócios jeitosos por ajuste directo.


  7. Meu Deus, isto é assustador.
    Os políticos são todos uns malandros e uns corruptos…
    Isto não é a conversa do “Zé Povinho”, i.e. merda ao natural?

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