A Banalização da História

A História não é estática. Engane-se quem pensa que sim. A História é, antes de tudo, História. Contudo, o passado não nos pode amarrar nem, em sentido contrário, nos desprender. A História há-de ser sempre uma lição, um alerta e, sobretudo, um facto. Questionar a História faz-nos bem, desperta-nos e ensina-nos.

Há hoje uma tendência para a desvalorização histórica. O que não pode acontecer, não é aceitável e, em contra-senso, demonstra-nos uma falta de noção histórica de quem envereda pelo caminho da desvalorização e da falta de noção histórica.
Certas franjas à direita insistem hoje num discurso que envergonha a noção histórica.

Tenho ouvido, por mais do que uma vez, a comparação entre o tempo da Outra Senhora e os tempos que vivemos. Seja porque estamos hoje limitados na nossa liberdade de associação (por conta da pandemia), seja porque certa direita não aceita o Governo de esquerda que se encontra no poder. Desvalorizar os acontecimentos passados, comparando-os aos acontecimentos do presente é, antes de ser demagogia pura e dura, um “cuspir” na História e naqueles que a viveram. Antes de podermos entrar pela demagogia adentro e compararmos a democracia em que vivemos a uma ditadura passada, teremos de aprofundar as nossas noções históricas, quer sejamos de esquerda ou de direita.

A luta pelo regime democrático não pode escolher lados, mesmo que a ditadura que se instalou em Portugal durante mais de quarenta anos tenha sido de direita. A luta pelo regime democrático deve tocar-nos a todos: socialistas e todos no seu espectro, liberais e todos no seu espectro. Contra todo o tipo de extremismos: de direita ou de esquerda.

Quando se tenta encobrir e desdenhar tempos em que a PIDE ostracizava, perseguia, torturava e matava é desonesto, mas, acima de tudo, é uma atitude ignóbil e ignorante de quem não respeita nem estudou História. Compará-la aos tempos modernos é boçalidade. Repito: o combate aos nacionalismos, aos fascismos e aos atropelos contra a Humanidade, deve pertencer a todos os que acreditam na República e na Democracia.

Assumo-me de esquerda. Defendo o socialismo democrático. Num passado recente governou em Portugal um Governo de direita, encabeçado por Pedro Passos Coelho e apoiado em democratas-cristãos. Por muito que esse Governo tenha atropelado certos direitos e tido tiques de autoritarismo com cheiro a velho, nunca, mas nunca, o poderei equiparar a um Governo fascista, liderado por António de Oliveira Salazar, Governo esse que se regia pela opressão e repressão dos seus cidadãos, que se escudava numa polícia política impiedosa, injusta e assassina, e que reforçava o seu poder através das suas colónias.

A banalização da História é tema para os ignóbeis. O combate contra qualquer extremismo, seja de direita ou de esquerda, repito de novo, cabe a todos os democratas, sejam estes de direita ou de esquerda. O resto fica com a ignorância histórica. O resto, nunca mais.

Nos tempos modernos: fascismo nunca mais.
25 de Abril, sempre!

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Banalização da História é desvalorizarmos os sinais dados por certas pessoas, que a pretendem reescrever senão mesmo contrariar, como por exemplo, André Ventura.
    Não por acaso, emergiu do PSD. Coincidências!
    Eu não consideraria o Dr. Passos Coelho um discípulo do Dr. Oliveira Salazar, na verdadeira acepção da palavra. Até porque os tempos hoje são outros, e a política não se move da mesma maneira. Mesmo depois de um fotojornalista, Luís Carregã, do ‘Diário As Beiras’, após uma visita de Passos Coelho, ao Museu Machado de Castro, em Coimbra, ter captado uma foto com a obra ‘A Diplomacia de Salazar’, de Bernardo Futscher Pereira, a qual retrata o período desde a ascensão de Salazar ao poder, em 1932, até 1949, pousado no banco traseiro do automóvel que transportava o ex Primeiro Ministro. Coincidências!
    O facto das Forças Armadas Portuguesas terem sido sempre independentes do poder político, depois do 25 de Abril, limita a ação de qualquer pretensão política civil com fins antidemocráticos. Isso é muito bom. Mais até do que o TC.
    Em Portugal, e falo apenas no nosso caso, para a direita democracia é apenas uma certa dose de tolerância para com os assalariados e reformados. Mas com muitas limitações à sua ação. Tudo o que possa pôr em causa os seus privilégios, jamais poderá ser tolerado. Sindicalismo para eles é sinal de comunismo.
    Rêver a actual Constituição da República, depois desta já ter sido revista duas vezes, está nos seus horizontes.
    Salazar começou por rever a Constituição vigente há época, em 1932, após o Golpe de 28 de Maio de 1926.
    Vamos ver o que o futuro nos reserva.

  2. Tal & Qual says:

    porque certa direita não aceita o Governo de esquerda que se encontra no poder.

    Claro que não aceita !
    Vem aí muito dinheiro e eles querem meter a mão no pote…

  3. Filipe Bastos says:

    O João Maio diz que a História é “lição, alerta e facto”; e depois que “questioná-la” faz bem. Questionar, João, significa também duvidar, disputar, pôr em causa. A História, que é sempre escrita pelos vencedores, pode e deve ser questionada de todas as formas.

    Ora, não parece que v. tenha vontade de pôr em causa nada do sacrossanto 25 Abril, essa revolta corporativa de chulecos militares convertida em santa revolução para benefício de chulões pulhíticos.

    Tem o bom senso de não comparar Passos – “Dr. Passos”, como lhe chama o reverente Naldinho – a Salazar; mas apenas porque não desatou a fazer guerras e a prender comunas. Na verdade, há um mundo de diferença entre eles. Salazar foi um estadista do seu tempo; Passos é um medíocre fantoche de mamões.

    Quanto a autoritarismo faria melhor em olhar para António Bosta ou para o Trafulha 44. Podem não ter a PIDE ou ser ditadores como Salazar, mas se quer falar de tiques autoritários encontra-os com fartura no Partido da Sucata. Isto é tudo deles.

    Nem só a direita ou o palhaço Ventura torcem a História como lhes convém: a esquerda é especialista. Passa a vida com o ‘fascismo’ na boca; e para branqueamento de atrocidades pode-se sempre contar com os comunas. Outra coisa: qual democracia?

    • João L. Maio says:

      Questionar um facto não o torna menos factual, nem põe em causa a verdade. Mantenho o que disse. Tenho pena que não tenha a capacidade cognitiva para chegar lá.

      Quanto ao resto, o Filipe gostava era do sacrossanto fascismo, está visto. É verme, portanto. Ponha vaselina e, como lhe disse antes, olhe o seu coração.

      Bem-haja!

    • Filipe Bastos says:

      Tem piada, João, falar de ‘capacidade cognitiva’ enquanto desata a chamar-me facho, verme e a falar em vaselina.

      Mas essa veemência é boa; é melhor que moderação pífia. Só falta canalizá-la para a escumalha que nos desgoverna.

  4. JgMenos says:

    ’25 de Abril sempre’ é exactamente o contrário de qualquer noção da História que ultrapasse o slogan.

    A ditadura sempre teve um papel na História, e nada assegura que não volte a tê-lo, ainda que lhe chamem ‘estado de emergência’ ou algo equivalente.

    Enchem a boca com a Democracia esquecendo que tanto pode significar um equilibrado contrato social como uma bandalheira promovida por corruptos e treteiros.

    Invocam a História, para melhor a ignorarem e manipularem.

    • JgMenos says:

      Tudo isso é o modo esquerdalho no seu registo de sempre.

    • João L. Maio says:

      Ó Menos, menos…

      O Menos, de cada vez que ataca o teclado, mostra o lado neandertal. Saia da caverna, está na hora.

    • Paulo Marques says:

      Claro que tem, não estivesse a China a manter a aceleração com o beneplácito dos Menos a dizerem que não há dinheiro para ser de outra forma. Congratule-se, ganhou, não estranhe é cada vez menos pessoas quererem mais dessas vitórias.

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