A melhor escola do país

A melhor escola do país é aquela em que os alunos não são seleccionados à entrada (por imperativos legais que, por coincidência, também são éticos), em que os alunos não são convidados a sair porque as notas baixaram (mais uma vez, por razões legais e éticas, extraordinária coincidência), em que os alunos são mantidos dentro da escola e das aulas, à custa do esforço e do risco de funcionários e de professores que falam, exigem, discutem, abraçam, debatem, convencem, vencem, sentindo-se frequentemente derrotados.

A melhor escola do país é aquela em que se consegue que um aluno assista a mais uma aula, que pegue finalmente num caderno mesmo que se recuse a escrever, que se esqueça, por instantes, de que tem o pai na prisão, a mãe a drogar-se em casa e os irmãos sozinhos, entre uma galáxia de problemas que afectam qualquer ser humano que é obrigado a perder inocência demasiado cedo ou que não tem a mínima possibilidade de estar isolado no luxo de um quarto individual.

É a escola em que se consegue que um aluno assista, pela primeira vez, maravilhado, a uma peça de teatro, ou que o leve, pela primeira vez, a visitar uma cidade (que pode ser aquela em que vive e não conhece) ou que o leve a entrar, pela primeira vez, num palácio tão espectacular que chega a parecer estrangeiro, o que faz sentido porque, em tantas vidas de tantos alunos, a beleza, a cultura ou o conhecimento são bens estrangeiros sujeitos a taxas alfandegárias proibitivas.

É a escola em que os professores e os funcionários conseguem ultrapassar o natural ódio que suscita uma criança malcriada, desafiadora, desagradável, dando-lhe tudo aquilo que ela não quer ou acredita que não quer, o que acaba por ser o mesmo. Sim, é possível odiar crianças e não, não é aceitável (mesmo que seja provável) que isso possa afectar a dedicação de quem trabalha com ela.

Na melhor escola do país, os que lá trabalham sabem que os pobres não nascem menos inteligentes, mas sabem que a inteligência ou as inteligências pode(m) sofrer atrofias várias com tanta coisa que a falta de dinheiro pode implicar. Nessa escola, saber isso funciona como explicação para muitos insucessos, embora muitos procurem que nunca sirva de desculpa para se fazer menos.

A melhor escola do país é aquela em que os resultados dos exames são tão fracos que a classificação nos rankings pode causar problemas de consciência a quem fez tanto ou mais do que nas escolas que ficaram nos primeiros lugares. Os que trabalham nestas escolas ouvem e lêem as declarações dos pedagogos de sofá que explicam tudo sem nunca ter dado aulas, ouvem e lêem os directores das escolas de topo (públicas ou não) afirmar que os resultados se devem a uma cultura de exigência e uma dedicação extraordinária do corpo docente, como se isso constituísse uma exclusividade tão rara como uma ilha de um metro quadrado no meio do Pacífico.

Na melhor escola do país, os problemas de consciência duram os poucos segundos que o intervalo da frustração provoca na necessidade de voltar ao trabalho, porque, na melhor escola do país, trabalha-se para os alunos e não para os rankings.

As outras escolas, em que os alunos querem aprender e/ou tiram belíssimas notas nos exames, também são boas, mas não conseguem chegar a ser a melhor escola do país.

Comments

  1. João Mendes says:

    Obrigado, Nabais.

    • Lucia says:

      Parabéns a quem dá aulas na “pior escola do país” (que faz das tripas coração… e, “omeletes sem ovos”” em que os rackings são tão baixos em escrita, mas os olhos brilham de felicidade de certeza, por que têm pessoal à altura que lutam por eles.
      Parabéns e muito sucesso, por que o bem estar, o ser feliz, enquanto lá está, não é medido em valores de prova no papel…
      Amor não é de palavra, é de ação!!!

      É um prazer dar aulas nas piores escolas em ranking sabendo que o papel fica vazio de respostas “sábias”, mas a barriguita e o coração vão cheios de boas recordações, e com a certeza de que cada um sente-se valioso/ especial!!!

  2. JgMenos says:

    Essa melhor escola é aquela em que qualquer família equilibrada quer que os seus filhos não conheçam, para não terem ideia do que é o produto de uma sociedade relaxada, despida de valores e em que tolerância e licença são tomadas por sinónimos.

    Esse é o ideal da esquerdalhada: pôr tudo à mistura para forjar a mediocridade que os seus ideais acolhem, gerar a chafurdice de algo moralmente indefinido em que a igualdade é valor dominante para propósito que ninguém conhece por ausência de valores que o definam

    • António Fernando Nabais says:

      O professor que te consiga ensinar a ler e a pensar será merecedor de um Nobel.

      • JgMenos says:

        O corretês esquerdalho é a tua praia, quanto mais estúpido mais empolgante.

        • António Fernando Nabais says:

          É fascinante observar a tua espécie – uma pessoa fica com a certeza de que há hominídeos que ainda não não chegaram à humanidade. Os teus filhos já têm polegar oponível ou são como tu?

    • POIS! says:

      Que fazer, pois?

      É difícil dar uma resposta, mas experimente colocar este anúncio:

      “Senhor salazaresco, com casa posta, produto de família equilibrada, pretende conhecer sociedade que não seja relaxada nem “stripper” de valores, para convívio e futuro compromisso.Assunto sério. Não se toleram licenciosisses. Resposta ao número 70, ou Menos”.

    • Paulo Marques says:

      Mediocridade é não elevar a gente de boas famílias acima dos outros.

  3. Maria António Gonçalves says:

    Tem toda a razão. Ser professor de uma escola dita”comum” é o maior desafio que podem encontrar.

    • JgMenos says:

      E a mais difícil escola para professores é a melhor escola para alunos, fazendo dela a melhor escola?
      Tudo porque falar em escola para grunhos é proibido!

      • POIS! says:

        Ora pois! Fica aqui o, pelo Menos, veemente protesto de Vosselência!

        Qual a razão da proibição de se falar em escola para Vosselência? Francamente!

      • Paulo Marques says:

        Não, bronco, porque não se aceita que a sociedade desista das pessoas, nem à nascença, nem na infância, nem, um dia, na idade adulta.

  4. Ana Moreno says:

    O que tão bem escreves devia ser óbvio, Nabais, só não é porque esta trampa de sistema está envenenado de neoliberalismo. Só por estupidez e servilismo essa ideologia consegue ser difundida como tinta em água.
    Vergonhoso, que seja a maioria. Assim se esfuma qualquer crença na humanidade e qualquer esperança de um mundo melhor.

    • JgMenos says:

      O ranking pelo desempenho dos aluno irrita os professores que gostariam de ver um ranking pela acção de professores, obviamente definido pelo padrão esquerdalho da produção da massa medíocre resultante do princípio geral da tolerância à mediocridade.

      • António Fernando Nabais says:

        Ainda bem que toleramos a mediocridade. Se assim não fosse, não poderias comentar aqui, meu jerico,

      • Paulo Marques says:

        O Menos preferia um ranking pelo quanto as pessoas de bem aprendem a roubar, perdão, acumular de quem produz valor. Percebe-se.

    • Alberto says:

      A melhor escola é aquela onde os país querem por os filhos.

  5. João L Maio says:

    Excelente. Obrigado por isto.

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