
Estou convencido, se calhar erradamente, que de todas as liberdades que podemos ambicionar, não há liberdade mais essencial, mais importante e mais básica que a de expressão. Se pudermos falar livremente, tudo o resto pode ser alcançado. Todos os autoritarismos começam a desmoronar-se quando as populações têm liberdade para se expressar.
E para quem como eu que cresci, tantas vezes, sob o “chiu” e o “não podes dizer essas coisas”, a faculdade de poder dizer o que me vai na alma, é fundamental. Quem viveu numa sociedade onde a censura era fácil e recorrente, motivada muito mais por uma sociedade radicalmente religiosa e conservadora que propriamente por imposição do antigo regime, a luta pelo “free speech” é algo de transcendente e de inquestionável.
E não foi fácil. Não foi nada fácil chegar onde já estivemos. Foram necessárias muitas batalhas, muito sofrimento, muita determinação para conseguir o que se conseguiu, para que as pessoas pudessem falar sem medo, sem recearem ser penalizadas por dizerem o que desejassem.
E então, numa espécie de “karma” cósmico que nos pretende ensinar, a mal, que nenhuma liberdade pode ser tida como eternamente garantida, surge uma geração que se está a marimbar no absoluto privilégio e na primazia da liberdade de expressão e no total desprezo pelo sofrimento de quem antes tanto lutou para a alcançar, decide estraçalhar o discurso livre.
Voltamos ao “chiu” e ao “não podes dizer essas coisas”. Voltamos à censura decadente. À censura quase religiosa. Sim, porque as semelhanças deste pensamento geracional com aquele do radicalismo religioso são muitas e definidoras. Só que agora os deuses e os falsos ídolos são o ambiente, a raça, o género e o “diabo que os carregue”.
Mesmo o humor é censurado. E quando o humor é censurado… Na repristinação da vetusta patetice “poucas graças com Deus, muitas graças a Deus”.
E porquê? Porque uma geração que, diga-se em abono da verdade, ainda nada provou, ainda nada construiu, ainda nada demonstrou, mas que muito reclama e reivindica como se tivesse direito a tudo sem nada ter feito para o merecer, pensa que as palavras são a razão de todo o mal.
Que imbecilidade tão simplória. As palavras são sempre consequência do pensamento. Se algo está mal, não é o efeito, mas a causa. Se silenciarmos as pessoas, não vamos conseguir que mudem a maneira de pensar. Mesmo que não falem, vão continuar a pensar da mesma forma. Só que caladas. E pelo caminho, matamos aquilo que mais luz podia trazer: a discussão livre.
Nem no tempo do antigo regime, me senti tão constrangido na minha liberdade de falar ou de escrever. As mais simples constatações de factos e evidências podem levar ao opróbrio e à ostracização (cancelamento no novel linguajar). Na enorme e repugnante confusão do que realmente é racismo, machismo, homofobia, etc. Na enorme e repugnante confusão entre ser e parecer. Na enorme e repugnante confusão entre não ser igual e ser prejudicado por isso.
Estou disposto a discutir tudo. Estou disposto a aceitar que até posso não ter razão se tal me for demonstrado. Estou disposto a ouvir. Mas também quero ser ouvido. E para isso, não estou nem estarei nunca disposto a perder a minha liberdade de falar e dizer.






O autor deste post escreve-o em termos generacionais, o que não me parece adequado. Em todas as gerações há pessoas que têm comportamentos indesejáveis. A moda do cancelamento não é exclusiva de uma qualquer geração.
Geracionais, Lavoura. Generacionais? Credo! Como comenta de forma tão acintosa os meus posts sobre o coiso, julguei (na minha ignorância) que nunca escrevesse generacionais. Volte sempre.
Tem razão. Obrigado por corrigir.
Claro que o humor é censurado, com a Nossa Senhora não se brinca. O conceito de Nossa Senhora é que vai variando.
(pior será a novilíngua digna de um Oruélio, tipo ser gordo significar ser saudável)
Ah, uma pessoa a pensar que ia haver uma palavrinha sobre os bilionários que compram média para calar as críticas, mas parece que não, ficamos pela comiseração de que, como diz a conclusão, é uma chatice que gente de tão boas famílias, educação, e, acima de tudo, amizades, não tenham a liberdade de obrigar os outros a aturá-los.
Um flagelo da época moderna!
Não devia ter deixado à preguiça, mas, realmente, não se fique por aí. Não se esqueça do cancelamento de jornalistas inconvenientes, com Assange e Abu Aqla à cabeça, do cancelamento dos protestos por essa europa fora que nem tempo de antena têm, ou de quem relata o que fazem os nossos amigos aliados na Síria, Líbia, Iémen, Israel ou a leste do que era Ucraniano, ou sequer questiona como é que alguém se bombardeia a si próprio.
O que vale é que se resgatam os Nuno Melos desta vida para continuar a dar voz a quem não tem votos, mas tem dinheiro, boa família, e fé. E que ainda ninguém cancelou a igreja, só mesmo o papa é que anda lá perto.
Eu, definitivamente, é que não tão paciência para, sendo generoso, tanto leão marinho. O problema é que provavelmente são só idiotas úteis a pensar que o umbigo continua a escapar.
foda-se nem uma palavra para cuba, venezuela, bolívia, colombia, etc?
A Venezuela já é nossa amiga outra vez, juntando-se aos assassinos do bem Sauditas, Filipinos, Emirados, Catarenses (?), e por aí fora, só continuamos a cancelar-lhes o dinheiro que é deles, a Bolívia é vergonha do golpe de estado fascista, mas sim, Cuba continua cancelada, mesmo que esteja no caminho madurense ainda mais acelerado de deitar tudo fora a bem de ser mais uma república das bananas.
A Colômbia, de tão relevante, não faço ideia.
É verdade que há uma geração respaldada na comodidade familiar que continua a não perceber que mais importante do que o novo telemóvel última geração ou o carro que os pais lhe vão oferecer como prenda de curso, casamento ou coisa do género, é a possibilidade construída ao longo de décadas por quem nunca teve nada dessas coisas nos seus tempos áureos de juventude, para podermos pensar e dizer aquilo que nos vai na alma. Enfim, exercer os nossos direitos cívicos em liberdade.
Mas também continua a existir uma velha comunidade que não desarma, uma espécie de inquisidores da velha moral judaico cristã, sempre bem acautelada no Poder, disposta a decidir sobre as nossas vidas. E para isso não lhe faltam meios. É jornais, rádios e televisões.
Eu dou como exemplo a recente Lei que regula a prática da Eutanásia, que depois de largos anos a debate, de várias passagens pela AR, PR e TC, continua a ser vítima de uma autêntica cultura de cancelamento. Ora, a opção pela prática da eutanásia, não está ao alcance de qualquer um. Já a do suicídio, sim.
A primeira é a nossa, já pelos 40, e que lhes deixa isto. A actual é a primeira sem dúvidas de que os filhos viverão pior, fazendo do nihilismo e do protesto performativo coisas perfeitamente naturais. Mas não só, à medida que deixam literalmente de ter algo a perder.
«Ainda nada provou» mas está convencida que é heróica derrubadora de tudo o que a precedeu e definidora de tudo o que lhe venha a suceder – por outras palavras, impantes cretinos!
Portanto, o resultado, neste momento, é…
Geração Salazaresca 1 – Geração D’agora 0
Aguarda-se agora a segunda mão, e possível prolongamento e “penalties”. Não é claro que os salazarescos se consigam aguentar. Vêm aí vários Derrubadores de Tudo contratados no mercado de janeiro.
Estimado Salazarento Menor
Como diria um padre que conheço
Ha 5 anos que sou leitor do Aventar e 3 que digo missa ,( escrevo aqui), mas foi a única coisa acertada que li, escrita por vossa senhoria
Parabens, mais vale tarde do que nunca
Tendo em conta o que lhes deixamos, fazer melhor nem é difícil. Deixar cair o putrefacto em fase auto-destructiva é trivial, basta continuar a não aparecer para satisfazer as necessidades e os luxos decadentes de quem veio antes.
Destructiva? Foscasse… de fato, o Camões até se rebola.
Realmente, a pior geração de sempre, esta. Nunca o mundo esteve pior. Então no Ocidente… é partir tudo e refazer.
Quando se trivializam ataques físicos às instituições públicas, das casas dos representantes (sem maiúsculas) às clínicas e hospitais, inshallah aos ACABs, qual é a dúvida que se parte a si própria?
Lá pelas décadas de 30 e 40 é que era. Ou justiça social dos 1800.
Felizmente os cursos de ciências sociais têm no forno uma geração esclarecida prontinha (ou será pronctinha) para a salvação.
Sim, pá, o Adolfo, o Benito, e o Estaline (para simplificar) surgiram de um mundo virgem e puro de um momento para o outro sem nada que o contextualize, tem toda a razão. Até os próximos acabarem com as eleições, tá tudo porreiro. Felizmente, a geração vendida continua a deixar estas coisas para a gente séria atrás de portas fechadas.
Todo o ignorante se sente confortável em socorrer-se do passado para justificar o presente.
Dispensa-se de conhecer os meios e as circunstâncias do tempo passado e julgam-lhe as acções à luz dos meios e circunstâncias do presente, assim se confortando com a mediocridade deste tempo.
Essa ignorância cultivam-na em extremo, pois no percurso que nos trouxe da escassez à abundância suspeitam a existência de valores e processos que hoje querem fazer ignorar.
Para os oportunistas cada dia é tempo novo.
Pois! E nota-se perfeitamente que…
Para o Grande Poeta Menos, cada madrugada é madrugada nova. Cada manhã, manhã nova. Cada tarde, tarde nova. Cada dia, tempo novo.
Sente-se na sua poesia prosada uma felicidade desgraçada!
Olha, rimei!
Ora muito bem, a defender Castro, Lenine, e Cunhal. Vai sempre a tempo!
Eis os teus criadores da abundância!
Seguramente o foram para os lambe-cús mais dedicados a essa tarefa.
Pois cá está a prova que todos ansiavam.
O termo “seguramente” não deixa quaisquer dúvidas. Trata-se de um saber lambo-traseiral de experiência feito!
Mais uma saída do armário de JgMenos, devidamente acompanhado por musculados fuzileiros, numa evidente homenagem às nossa Forças Armadas.
A culpa de seres constantemente inconsistente é puramente tua.