
Entristece-me a leveza com que tantos celebram o uso excessivo do cassetete contra manifestantes inofensivos que tentam chamar a atenção para o grande problema deste tempo.
Como se lutar por um tecto a preço justo fosse um crime de lesa-pátria.
Se isto fosse a Rússia, estas pessoas estariam a aplaudir a repressão de Putin contra qualquer protesto pró-democracia.
Se fosse a China, estariam do lado do tanque de Tiananmen.
Para muitas destas pessoas, o problema não está na manifestação ou sequer no seu motivo. Até porque uma grande parte vive precisamente o mesmo drama.
O problema está na percepção que construíram sobre as pessoas que estão ali.
Após décadas a serem roubadas por pessoas de fato e gravata, o problema são os miúdos de cabelo pintado e piercing no nariz. São tão básicos, tão pequeninos, que continuam agarrados ao aspecto físico dos outros. Especuladores e capatazes não poderiam desejar idiotas tão úteis. Mas eles aí estão.
Contudo, e ao contrário daqueles que arriscaram estar ali, sabendo as possíveis consequências da sua decisão, como se veio a verificar, essas pessoas são cobardes que preferem ficar no sofá a criticar os manifestantes, sem um pio que seja para os especuladores.
Para Montenegro, esse desastre de primeiro-ministro coberto de telhados de vidro, inclusive imobiliários, os manifestantes são egoístas. Já para os fundos abutres e os oligarcas que compram vistos Gold e açambarcam casas para especular, fazendo o preço subir artificialmente, só palavras de elogio e apreço.
Mas onde estava o elogio da violência policial e a retórica do egoísmo quando a JSD montou um acampamento à porta do ministério do Ensino Superior, em 2020, para protestar contra a falta de camas para universitários?
Não estava. Era um acampamento do bem. E como se a narrativa infantil e idiotizante do egoísmo não fosse, por si só, insulto suficiente à inteligência dos portugueses, esta dualidade de critérios diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre o carácter de Luís Montenegro. Para quem ainda não sabia.
Na madrugada de Quarta para Quinta, ordenou o cacetete. Ontem, juntou-se um mar de gente na Praça D. João I, e foi o povo quem mais ordenou. Um protesto simbólico de algumas dezenas transformou-se numa manifestação de milhares. Pode ser que continue a crescer. Pode ser que a maioria perceba que o problema da habitação é, na verdade, muito simples do que nos fazem crer: uma minoria de parasitas viciou o sistema em prejuízo da maioria. E esse sistema tem que acabar. Não é o pequeno proprietário que tem duas casas. São os abutres que têm 200. É importante sublinhar isto porque uma das estratégias da minoria parasita é dividir a maioria e pôr pequenos senhorios contra quem não consegue pagar a renda. Isso é precisamente o que a minoria parasita quer: a maioria dividida e em permanente conflito. Na habitação, na política, na educação, na liberdade. Porque enquanto nos perdemos em guerras e guerrinhas, o problema cresce e os parasitas continuam a sugar a sociedade, implacáveis. É preciso dar-lhes luta.







As manifestações são legítimas quando se realizam dentro das leis que nos regem em democracia. Quando essas regras não sao cumpridas as autoridades são obrigadas a intervir para reporem a legalidade. Dito isso e, do que se sabe, a polícia deu ordens para que fossem levantadas as tendas, o que não aconteceu e ainda ao fim de duas horas ainda ali se mantinham em manifesto desafio á polícia. Perante essa situação, a polícia atuou de imediato, para evitar males maiores. Não queremos ver replicar em Portugal o que está a acontecer noutras países.
A sério? Acha que a cacete é que não se replica. Mas as dificuldades com as casas já está replicada.