O regresso da *refleção

Give up. If something is very hard, it might be impossible, and that might be where the real insight is to be found. For example, Pater (1999) introduced a markedness constraint that is violated by clusters of a nasal + voiceless obstruent like [mp]. The effort to construct a formal explanation for this constraint went nowhere. Pater’s insight was that this constraint cannot be explained formally but it can be explained in terms of articulation and perception.
–McCarthy (2008: 164)

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A lógica, aparentemente, é simples: se o <c> de *reflecção, segundo a base IV do Acordo Ortográfico de 1990, não é pronunciado, não deve ser grafado. Logo, *refleção. Contudo (e convém ler este texto até ao fim e não ficar pelas gordas), a forma *reflecção deve ser preferida a *refleção, porque, já se sabe, a presença do <c> justifica-se pela função grafémica, pelo padrão grafémico estabelecido através da relação com formas afins constituídas por <x> com valor /ks/, como anorexia→anoréctico; caquexia→caquéctico; hipotaxe→hipotáctico; parataxe→paratáctico; profilaxia→profiláctico; metafilaxia→metafiláctico; clímax→climáctico; genuflexo→genuflectir; reflexo, reflexão→reflectir e por aí fora.

Como sabemos, *reflecção não se grafa com <cç>, mas sim com <x> (reflexão). No entanto, alguém que cometa um erro como o da imagem que se segue (retirada desta apresentação), apesar de tudo, tem presente que deveria haver um c antes do ç. Há um erro ortográfico, pois, mas acrescido de uma denúncia daquilo que está subjacente.
A grafia *reflecção seria um erro ortográfico, sim, mas, grafemicamente, nem por isso. Por seu turno, a grafia *refleção teria (nos casos em apreço, tem) dois erros de uma penada: ortográfico, porque reflexão não é com <cç> e sim com <x>, e grafémico, porque a grafia *reflecção reflecte um padrão grafofonémico, enquanto *refleção não reflecte absolutamente nada.
Lembrei-me disto hoje, por causa de um post de Manuela Matos Monteiro no Facebook (visto na página de Ana Cristina Leonardo) com esta imagem:

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O boneco das Caldas

Era eu tamanino, terá sido há uns 50 anos, estava de férias com os meus pais na Inatel da Foz do Arelho.
Certo dia, fomos dar uma volta pelas Caldas da Rainha. Visitámos os principais monumentos, da igreja de Nossa Senhora do Pópulo à estátua de D. Leonor, e passeámos pelo centro.
Numa das muitas lojas com montras cá fora, havia uma que apresentava dezenas de bonecos de cerâmica pintados com as cores dos clubes de futebol.
Como não podia deixar de ser, pedi logo ao meu pai um boneco com as cores do FC Porto. Queria mesmo aquele boneco. A reacção dele foi estranha, mostrou desconforto, disse que não e depois que, se quisesse, que comprasse com o meu dinheiro.
Estranho, o meu pai nunca me negava nada. Porque eu nunca pedia nada. Ainda por cima, ele adorava o FC Porto.
Mas comprei e levei para casa. Era tão bonito! Camisola azul e branca em pele rosada e, à frente dos calções, que imaginei azuis, um pano branco até aos pés com o emblema do FC Porto.
Já em casa, enquanto brincava com o boneco, reparei que tinha um fio junto aos pés. Então puxei o fio e o pano branco com o emblema do FC Porto levantou-se. Foi nessa altura que percebi a reacção do meu pai.
50 anos depois, relembro com um sorriso esse episódio.
Conservei o boneco apesar das dúvidas. Mas lamento muito não ter seguido a vontade do meu pai. Comprei-o esperançado em muitas alegrias, porque prometia muito, mas na verdade nunca serviu para grande coisa.
O boneco das Caldas é hoje uma sombra do que prometeu. Não tem cabeça. Partiram-se os pés de barro. Já caiu o pano branco com o emblema do FC Porto que lhe tapava os calções.
Olhei para ele hoje e reparei que lhe faltavam os tomates. Foi então que percebi que nunca os teve.
Fiquei triste com o estado a que chegou, as minhas filhas disseram-me para ir restaurá-lo. Disse que não, nos próximos anos não vale a pena, pior não fica. Insistiram, pode ficar pior, eu disse que não, não vale a pena gastar dinheiro naquilo e perguntei afinal qual é a pressa?

A vitória de Lula e a derrota de Mark Zuckerberg


A manif pela habitação já tinha terminado, na praça D. João I, quando se soube da vitória de Lula

Ao longo de toda a campanha eleitoral no Brasil, a Meta interferiu de forma activa a favor de Flávio Bolsonaro. Restringiu o alcance do perfil de Lula no Instagram, interrompeu a contagem de visualizações dos seus posts, retirou as suas páginas dos mecanismos de busca, a sua IA gerava a imagem “Vote Flávio 22” e recusava “Vote Lula 13” e, quando alguém pesquisava a expressão “exército de Lula”, sugeria em alternativa “tropa de Bolsonaro”.
Para além dos genocidas Bolsonaro, Trump e Netanyahu, a vitória de Lula foi também a derrota da Meta de Mark Zuckerberg.
Nada de novo nisto tudo. Ainda há dias, a Starlink de Elon Musk reduziu deliberadamente a sua potência na Ucrânia, de forma a tornar ineficazes os drones de defesa anti-aérea do país face aos ataques do invasor russo.
Ou a Google, que para além das interferências contínuas na política através do seu algoritmo (mesmo nestas presidenciais brasileiras), está sempre de pernas abertas para Donald Trump, sempre disposta a mudar a geografia do mundo ao sabor dos devaneios do amigo de Epstein.
Farto destes gigantescos grupos económicos maiores do que países e que se arrogam no direito de interferir na sua política interna.
Pela minha parte, faço o que posso. Nos últimos dias, tenho-me divertido a encerrar todas as contas que mantinha nessas empresas – Facebook, Instagram, Twitter, Google, Microsoft ou Tik Tok (cada vez mais nas mãos de judeus sionistas americanos) – e a substituí-los por pequenos projectos europeus.
É surpreendentemente fácil. Tão fácil que, embora não dê para fazer tudo de um dia para o outro – é a nossa vida de décadas que está no Windows, num endereço de email ou numa nuvem – até é possível substituir em minutos o Google por um motor de pesquisa alemão que usa 100% dos seus lucros para plantar árvores e lutar por outras causas ambientais.
É a minha pequena vitória contra as forças imperialistas americanas e os seus ataques neo-coloniais à soberania dos Estados.