Putinwashing na lavandaria Trump

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Em Agosto de 2025, Donald Trump impôs tarifas adicionais às importações da Índia, como “castigo” pelas suas compras de petróleo russo.

Subiram de 25% para 50%.

A Casa Branca argumentou que cada barril que Nova Deli comprava a Moscovo ajudava o esforço de guerra contra a Ucrânia.

Peter Navarro, à altura conselheiro presidencial para o comércio, acusou a Índia de ser uma lavandaria do Kremlin e referiu-se à Guerra da Ucrânia como “Modi’s War”.

Curiosamente, na mesma altura, os EUA ainda importavam (e continuam a importar) fertilizantes e alguns minerais raros da Federação Russa.

Mas o que é que isso interessa, não é mesmo?

Adiante.

Trump acabou por levantar a tarifa adicional, meses depois, alegando que a Índia teria acordado acabar com as compras de petróleo russo, algo que nunca foi assumido publicamente por Narendra Modi.

Nem aconteceu.

Um dos muitos delírios servidos ao universo paralelo da Trumpiocracy, o culto senil deste Nero moderno, cujos membros acreditam piamente na compatibilidade dos valores cristãos com a liderança de um devasso corrupto que decidiu invadir o Irão porque sim, criando uma crise económica que aprofundou a pobreza, a desigualdade e a conflitualidade global, e que até achou boa ideia transmitir uma pena de morte por fuzilamento em directo.

Tal como Jesus ensinou.

Mas voltemos ao petróleo russo.

Pouco após o início da Guerra do Irão, em Março, a administração Trump decidiu levantar as sanções a petróleo russo que se encontrava em trânsito no mar. Os constrangimentos causados pela turbulência em Ormuz já se faziam sentir. A Índia aproveitou a oportunidade de encheu novamente os tanques de petróleo russo.

Meio ano depois, a 18 de Setembro de 2026 (há pouco mais de um mês), Trump assinou uma ordem executiva para impor tarifas de 100% a todos os compradores de petróleo russo.

Repito: tarifas de 100% para qualquer país que importasse uma gota de petróleo russo.

Muitos aplaudiram.

Os falsos anti-Putin, com hipócritas bandeirinhas da Ucrânia na foto de perfil, inspiraram-se na decisão para tecer belíssimas odes ao seu herói, que fez peito, ainda que flácido, ao ditador russo.

Por quanto tempo?

Três semanas.

3.

Foi o tempo que passou entre a ordem executiva com novas tarifas e o mais ou menos surpreendente Diesel Deal.

A 9 de Outubro, Trump anunciou o acordo com Putin para a importação de gasóleo russo para os EUA. E fê-lo com convicção. E ainda puniu a Ucrânia por atacar refinarias russas, conspirando com o amigo Musk para desligar o Starlink.

Regressemos às palavras de Peter Navarro. Se aplicarmos o mesmo critério, os EUA foram convertidos em lavandaria russa (outra vez, como amigo do Epstein bem sabe), e a Guerra da Ucrânia passou a “Trump’s War”.

Mais uma para o Nobel.

E pronto, temos Trump a comprar energia russa, e a agir como se nada fosse, perante o silêncio amedrontado e obediente dos seus outrora bravos guerreiros anti-sistema do teclado, que odiavam Putin, usavam bandeira azul e amarelo, tatuavam “slava ukraini” no fundo das costas.

Nem. Um. Pio.

Acabará por acontecer, mais cedo ou mais tarde, um processo de “putinwashing”. Trump fará parte dele, partidos como a AfD, Fidesz ou o RN também, e milhares de pistoleiros solitários das caixas de comentário vão retirar a bandeira da Ucrânia da foto de perfil e partilhar com o mundo a epifania que tiveram durante uma celebração neotrumpcostal, que lhes fez ver o agora patriota russo com outros olhos. Descobriram que, afinal, Putin também cá está para defender a família, a vida, os valores cristãos e, naturalmente, a herança intelectual do Ocidente.

Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força. Putin é amigo.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Na projecto de suicídio colectivo Ukrano-Europeu, a UE encontra 10% do seu gás natural na Rússia, compra 48% do LNG Russo. O petróleo será menos, misturado e lavado a bem do faz de conta.

    Quanto à “herança intelectual do Ocidente” que suporta os genocídios na Palestina ocupada e Líbano no caminho para a destruição do direito internacional,, era preciso que os Russos continuassem a identificar-se como Europeus depois de mais uma guerra para destruir o seu país, e sem dinheiro, estabilidade interna, ou soberania. Haja supremacismo.

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