Glória

A Glória passou anos à janela, e para nós a Glória só existia à janela, uma figura imóvel no primeiro andar de um prédio de gaveto. A Glória via-nos passar pelas manhãs, no seu posto de vigia, com o roupão cor-de-rosa, às vezes com o gato ao ombro, e por vezes parecia que levantava a mão para acenar-nos, mas a mão voltava a descer sem chegar a ser aceno.

A idade da Glória era uma coisa indefinida, nenhum de nós a tinha visto de perto, mas contava-se que passava pouco dos quarenta. O merceeiro levava-lhe as compras a casa, um vizinho ia à farmácia, levantar a pensão dos pais aos correios, tudo o que fosse preciso para que a Glória pudesse viver a sua vida à janela.

Contava-se que a Glória tinha deixado de sair quando o pai ainda era vivo, mas ninguém sabia ao certo o que acontecera, falava-se de um dia em que chovia muito e alguém a viu correr para casa, com os pés enlameados, o cabelo solto e desgrenhado, e o rosto molhado de chuva e de lágrimas, e que ia tão sufocada que nem podia falar, e que não parou quando a chamaram na rua, atravessou a rua sem olhar, ela que era tão cuidadosa, correu, correu até alcançar a porta, bateu com toda a força até alguém a abrir, e desapareceu por longo tempo até voltar a ser vista à janela. Depois disso, ninguém se lembrava de tê-la visto cá fora. [Read more…]