Ode à alegoria

Faço parte de um grupo de amigos que se senta há vários anos na mesma mesa. Os nossos objectivos são nobres: beber uns copos, dizer umas larachas e resolver os problemas do mundo e da humanidade no meio de debates e discussões que, por vezes, fazem com que nos zanguemos e em que, muitas vezes, dizemos coisas surpreendentemente profundas, tendo em conta a nossa reduzida ambição.

No café que frequentamos, há outros clientes que acabam por ouvir o que dizemos, porque, confesso, falamos um bocado alto. De outras mesas chegam-nos, com relativa frequência, vozes simpáticas e, de vez em quando, há um ou outro provocador que passamos a ignorar, porque, já se sabe, pode acontecer que, num estabelecimento como este, haja sempre quem tenha mau vinho ou maus fígados.

Não pertenço a este grupo desde o princípio. Trouxe-me um amigo. Aqui encontrei outros amigos e, desde então, rio-me, zango-me, discuto, provoco, sou provocado e aprendo muito. Sinto-me bem aqui. Foi, aliás, nesta mesma mesa, que atingi vários momentos de realização pessoal, o que diz muito do poder de uma mesa de café ou de um grupo de amigos. [Read more…]

Glória

A Glória passou anos à janela, e para nós a Glória só existia à janela, uma figura imóvel no primeiro andar de um prédio de gaveto. A Glória via-nos passar pelas manhãs, no seu posto de vigia, com o roupão cor-de-rosa, às vezes com o gato ao ombro, e por vezes parecia que levantava a mão para acenar-nos, mas a mão voltava a descer sem chegar a ser aceno.

A idade da Glória era uma coisa indefinida, nenhum de nós a tinha visto de perto, mas contava-se que passava pouco dos quarenta. O merceeiro levava-lhe as compras a casa, um vizinho ia à farmácia, levantar a pensão dos pais aos correios, tudo o que fosse preciso para que a Glória pudesse viver a sua vida à janela.

Contava-se que a Glória tinha deixado de sair quando o pai ainda era vivo, mas ninguém sabia ao certo o que acontecera, falava-se de um dia em que chovia muito e alguém a viu correr para casa, com os pés enlameados, o cabelo solto e desgrenhado, e o rosto molhado de chuva e de lágrimas, e que ia tão sufocada que nem podia falar, e que não parou quando a chamaram na rua, atravessou a rua sem olhar, ela que era tão cuidadosa, correu, correu até alcançar a porta, bateu com toda a força até alguém a abrir, e desapareceu por longo tempo até voltar a ser vista à janela. Depois disso, ninguém se lembrava de tê-la visto cá fora. [Read more…]

Serralheiros de Pamplona

Luis Azanza (El Pais)

Iker de Carlos (Foto de Luis Azanza, El Pais)

Para o cumprimento da lei, até da lei injusta, são necessários burocratas, executores, carrascos, serralheiros. Destes homens e mulheres pode dizer-se que, mais do que cumprir a lei, executam o serviço para o qual foram contratados, e não têm que concordar com os ditames da legislação, podem até discordar da sentença que executam, porque não lhes cabe a autoria do acto. São meros executores, e como tal não recai sobre eles a responsabilidade da injustiça que concretizam.

Quando alguém perde a casa que não podia continuar a pagar ao banco, a lei manda que o banco recupere a sua propriedade e o inquilino, que teve a ilusão de que era proprietário, seja expulso. E para que essa ordem seja cumprida, para que se execute a transição de propriedade desse imóvel, é necessária a substituição da fechadura, acto simbólico que sela a mudança de propriedade. Há casos em que o inquilino, julgando-se ainda detentor de direitos de proprietário, recusa-se a sair e o cumprimento da lei dita que a porta seja arrombada e que o infractor seja expulso da casa que não lhe pertence. [Read more…]

Quem paga(ou) a casa da formiga é(foi) a cigarra

Miguel Macedo, recebe todos os meses cerca de 1400 euros por subsídio de alojamento apesar de ter um apartamento seu na área de Lisboa.

(Renunciou depois de sair nos jornais)

Entregaste a casa ao banco?


autoria desconhecida

Meu filho

Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

Ana Pérez Cañamares, roubado ao Trapézio sem rede

A casa secreta de Duarte Lima ou de como eles escondem rendimentos

Uma offshore chamada Birdwells Ltd tem registada em seu nome uma casa avaliada em 5,8 milhões, na Quinta do Lago. O Expresso afirma que a casa pertence na realidade a Domingos Duarte Lima. Não consta das declarações de rendimentos que entregou quando foi deputado.

Como nem todos os ex-deputados ou ex-ministros são acusados de homicídio nunca saberemos quantos mais casos como este foram possíveis, num mundo onde esconder dinheiro ou propriedades é profissão legal: foi utilizada como testa de ferro uma empresa especializada, a Chettleburgh’s Limited, sedeada em Londres e que se apresenta assim: [Read more…]

Ainda a casa de Cavaco: honestidade?

A casa de férias de Cavaco Silva continua a dar que falar. Cada investigação jornalística, cada minhoca. Segundo o Público:

Cavaco Silva fez obras durante um ano na sua actual residência de Verão com a licença caducada e em desrespeito do processo inicialmente aprovado.

Isto depois de se ter sabido que a tal permuta de terrenos foi feita deforma a não pagar impostos, e trocando terrenos quando a casa já estava em construção.

O conhecimento destes factos deve assegurar a vitória de Cavaco Silva à primeira volta: os portugueses querem que os deixem construir à vontade, impostos é fugir de os pagar,  e só não ganha uns cobres num cambalacho com um amigo que nos deve favores ou seja quem é parvo.

É complicado demitir este povo e eleger outro, mas às vezes apetece.

(corrigido)

Mudar de casa, de casa, de casa

Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Há pessoas que nunca mudaram de casa. Outras, como eu, quase perderam a conta às casas que habitaram. Mudo agora para uma casa a pouco mais de quinhentos metros da anterior, onde vivi doze anos, um recorde absoluto para mim.

São doze anos de objectos acumulados, de coisas com maior ou menor valor, de lixo, de inutilidades guardadas, de pequenas preciosidades, de memórias, de artefactos que pensamos duas ou três vezes se levamos, ou não, para a casa nova. São dezenas de hesitações, bugigangas que deitamos para o caixote do lixo e, passados minutos, regressamos para recuperar e que, pouco depois, rejeitamos de novo.

Doze anos sem mudar de casa são, no meu caso particular, doze anos de papeis acumulados, fragmentos de poemas, frases com sentidos desconexos, pensamentos incompletos, rabiscos, desenhos em guardanapos, apontamentos, números de telefone sem a indicação do nome a quem pertencem, cartões de visita com apelidos e ruas que não recordo, os primeiros (e os segundos e terceiros) bonecos desenhados pelos filhos, as primeiras palavras caligrafadas, trabalhos do dia do pai, postais do dia da mãe, infantilidades do dia da flor. Novas hesitações porque aquelas representações não nos pertencem, somos apenas depositários delas em nome deles, algumas têm de ficar para trás, não podemos levar tudo, há que fechar os olhos e deitá-las fora, ou rasgá-las imediatamente para que o arrependimento não nos vença.

Mudar de casa é fazer contas à vida, sopesar o tempo, despertar memórias, confrontar-se com o apego e o desapego, triar o útil e o inútil, maldizer o consumo excessivo, sujar as mãos no passado, respirar o pó do que já fomos. [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – Na Páscoa, o Compasso Já Não Vem a Minha Casa

Ao contrário de muitos que fazem questão de dizer que são tudo menos católicos, e que, em todas as manifestações religiosas, cá nos vêm informar da sua não religiosidade, como se isso fosse de algum interesse, não tenho por hábito falar das minhas convicções.

Desta vez, no entanto, resolvi vir falar da minha tristeza por já não ter o Compasso em minha casa, e da minha saudade dos tempos em que, em casa de meu avô paterno, toda a família se reunia para o receber.

O dia amanhecia muito cedo para toda a gente, excepto para nós, crianças. Éramos nove primos, e seis de nós dormíamos naquela casa. Era como se fosse Natal, mas não havia prendas. Quando nos levantávamos, ao som de fundo dos foguetes, já nossas mães e tias se atarefavam nas lides de tudo deixar a postos para «receber o Senhor», e a senhora Margarida e uma ajudante labutavam na cozinha para que o almoço fosse como sempre, sublime.

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E lá em casa, fazem a mesma coisa?

Afinal podemos ficar descansados. Os computadores são pessoais, podem parti-los à vontade.

Faltam 428 dias para o Fim do Mundo

Sobre a horrenda tragédia do Chile deixo para o aventador Prof. Raul Iturra, ninguém melhor do que ele para falar no tema. Tudo no dia em que a nossa Protecção Civil alternou entre o amarelo, laranja e vermelho. Como sou um cidadão cumpridor, estou enfiado em casa. Não sei se aproveite para exercitar os músculos (banhas) na Wii ou se espere novas da bola.

No fundo, ficar em casa sempre significa colocar a leitura em dia e ver como andam as modas laranja (e não estou a falar do temporal de hoje mas de outro que se avizinha).

Petição para salvar a casa de Salgueiro Maia

 

O Aventar lançou uma petição para salvar a casa onde nasceu o capitão Salgueiro Maia em Castelo de Vide. Uma casa que se encontra em estado de degradação evidente e em perigo de ruína. Para assinar a petição, que será enviada à Assembleia da República, basta colocar nesta caixa de comentário o nome e respectivo Bilhete de Identidade. Já temos centenas de assinaturas e, enquanto a respectiva página na barra lateral não está disponível, terá de ser este o método utilizado (coisas da mudança do wordpress para os blogs do Sapo. Salvar a memória de Salgueiro Maia é salvar a nossa memória comum. Façamos alguma coisa por todos nós. Um agradecimento final à Maria Monteiro, a autora da foto e a primeira a alertar para o estado de destruição da casa.