Glória

A Glória passou anos à janela, e para nós a Glória só existia à janela, uma figura imóvel no primeiro andar de um prédio de gaveto. A Glória via-nos passar pelas manhãs, no seu posto de vigia, com o roupão cor-de-rosa, às vezes com o gato ao ombro, e por vezes parecia que levantava a mão para acenar-nos, mas a mão voltava a descer sem chegar a ser aceno.

A idade da Glória era uma coisa indefinida, nenhum de nós a tinha visto de perto, mas contava-se que passava pouco dos quarenta. O merceeiro levava-lhe as compras a casa, um vizinho ia à farmácia, levantar a pensão dos pais aos correios, tudo o que fosse preciso para que a Glória pudesse viver a sua vida à janela.

Contava-se que a Glória tinha deixado de sair quando o pai ainda era vivo, mas ninguém sabia ao certo o que acontecera, falava-se de um dia em que chovia muito e alguém a viu correr para casa, com os pés enlameados, o cabelo solto e desgrenhado, e o rosto molhado de chuva e de lágrimas, e que ia tão sufocada que nem podia falar, e que não parou quando a chamaram na rua, atravessou a rua sem olhar, ela que era tão cuidadosa, correu, correu até alcançar a porta, bateu com toda a força até alguém a abrir, e desapareceu por longo tempo até voltar a ser vista à janela. Depois disso, ninguém se lembrava de tê-la visto cá fora.

Mas houve quem não desistisse da Glória, nem virasse as costas quando ela fingia não ouvir a campainha. Era gente que sabia muitas coisas sobre o medo, vivia com ele há muito tempo, e aprendera que o melhor era começar pelas pequeníssimas coisas: levantar bem a persiana, abrir a janela, pendurar o velho roupão cor-de-rosa no cabide, deixar que a rua entrasse em casa antes de ser capaz de ir ter com ela. E a Glória foi deixando.

Um dia chegou a notícia de que a Glória ia sair. Não somos nenhuns parvos para afugentá-la com o nosso entusiasmo, nem pensar. E se a todos apetecia ir para a porta dela e esperá-la sorridentes (houve até quem falasse de foguetes, deus nos livre), sabíamos que o melhor era espreitá-la sem alvoroço, cada um à sua janela, como ela sempre nos fez, e acenar-lhe desde aí, sem gato ao ombro nem roupão cor-de-rosa.

À hora marcada lá estávamos, mais nervosos do que ela. A porta abriu-se e a Glória apareceu, com umas calças de ganga que a faziam parecer uma miúda, o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Fez de conta que não nos viu, olhou para os dois lados e deu um passinho pequeno, que a deixou, milagrosamente, fora de casa. Toda a gente jura que o sol abriu nesse preciso momento, mas as pessoas exageram nestas coisas.

Foto: Carla Olas

Comments


  1. Belo texto.

  2. Rui Moringa says:

    Gostei muito do texto. No Porto Velho todos nós conhecemos “uma Glória”, mas não temos arte para escrever sobre ela.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.