Mata-Cães ou o criador e a criatura (Poesia & etc.)

Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, muitas vezes sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.

Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começa-se a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta. [Read more…]

"Aos vindouros, se os houver"

Vós, que trabalhais só duas horas

a ver trabalhar a cibernética,

que não deixais o átomo a desoras

na gandaia, pois tendes uma ética;

 

que do amor sabeis o ponto e a vírgula

e vos engalfinhais livres de medo,

sem preçários, calendários, Pílula,

jaculatórias fora, tarde ou cedo;

 

computai, computai a nossa falha

sem perfurar demais vossa memória,

que nós fomos pràqui uma gentalha

a fazer passamanes com a história;

 

que nós fomos (fatal necessidade!)

quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O’Neill, Poemas com Endereço