Mata-Cães ou o criador e a criatura (Poesia & etc.)

Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, muitas vezes sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.

Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começa-se a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta.

Por isso, quando me apareceu um original de um escritor de que nunca ouvira falar, um tal Fernando Correia da Silva, li as primeiras páginas com a má vontade aliada ao espírito de sacrifício com que sempre começava a ler um novo texto. A certa altura percebi que o Mata-Cães, assim se chamava o romance, não se enquadrava na tipologia habitual. Voltei ao princípio e, surpreendi-me a dar gargalhadas com as saídas da personagem do Chico, por alcunha o Mata-Cães e com as alhadas em que ele se ia metendo, criando um ambiente caoticamente ordenado.

A respeito deste romance, disse depois António José Saraiva que Correia da Silva revelava ao leitor desprevenido «um mundo caótico», através de uma «escrita viril e desabrida». Leitor desprevenido, eu, pude verificar que o livro era muito pouco literário no sentido que o termo costuma assumir. O autor não parecia minimamente preocupado em seguir as regras do jogo em moda – malabarismos formais, viagens de circum-navegação em torno da palavra.

Perguntava o grande historiador da Literatura: «Que é isto? Um poema? Um conto picaresco? Uma recordação onírica? Um testemunho realista? Uma reflexão sobre a história recente? “O livro há-de ser”, como dizia o Bernardim – “do que vai escrito nele”. Só abrindo se poderá julgar o “Mata-Cães”, que não é decerto um tranquilizante». Ainda em 1986, a propósito do mesmo romance, António José Saraiva declarou ao Diário Popular: «Parece-me um livro importante e autêntico. Não é nada de postiço, de congeminação literária sobre a nossa situação. Os portugueses têm o vício da literatice e o livro de Correia da Silva não é um livro literato.

Talvez por isso os nossos críticos estejam distraídos a respeito dele. Os nossos críticos são como aqueles que olham para o balão: – Ó patego, olha o balão! E não vêem o que lhes passa diante do nariz. O nosso meio gosta muito de olhar para o balão.»

Fiz um relatório muito favorável e o livro foi publicado em 1986. Tive ocasião de conhecer o Correia da Silva e tornámo-nos amigos. O curioso é que a personalidade do Fernando se confunde com a do seu herói, o Chico «Mata-Cães», quando leio os romances é-me sempre fácil imaginar os protagonistas – identificam-se sempre com o autor. Lord Canibal, para aumentar a confusão, entre criador e criatura, é assinado por Francisco Mata-Cães, criando não um processo pessoano de heteronímia, mas o contrário desse desdobramento de personalidade – uma concentração semelhante à que existiu entre Alfred Jarry e o seu Ubu-Roi.

Fernando Correia da Silva, um nome que devia ser mais conhecido. Enchemos a cabeça com nomes de gente medíocre – políticos, futebolistas, actores de telenovela, o povo do jet set e das revistas «do coração» e, naturalmente, depois falta-nos espaço de memória para, por exemplo. sabermos quem é, o que escreve e como escreve o Fernando Correia da Silva. Eis uma breve resenha biográfica:

Fernando Correia da Silva, nasceu em Lisboa, em 1931. Estreou-se nas lides políticas durante a campanha eleitoral do general Norton de Matos para as presidenciais de 1949. Foi militante do MUD Juvenil e preso em Caxias. Frequentou o curso de Ciências Económicas e Financeiras. Amigo de Orlando da Costa (seu padrinho de casamento), de Mário Henrique Leiria, de António José Saraiva, Alexandre O’Neill, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral… Estreou-se em 1950 com Colheita, um livro de poemas. Em 1952 publicou a novela infantil, As Aventuras de Palhita, o Touro. Nesse ano, com Alexandre O’Neill, publicou A Pomba, jornal clandestino de poesia militante.

Em 1954, perseguido pela PIDE, abandonou Económicas e foi para o Brasil como exilado político. Colaborou na Folha de São Paulo e coordenou a edição de diversos livros Em S. Paulo, foi um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros tais como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, fundou em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil.

Em 1964 após o golpe militar no Brasil empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Durante dois anos, viveu o Nordeste, onde a ostentação e a miséria viviam paredes meias. Voltou para S. Paulo. Regressou a Portugal em 1974.

Depois de Mata-Cães (1986), Fernando Correia da Silva publicou em 1989, Lord Canibal, outro romance, novas aventuras do Mata-Cães. Em 1996, foi a vez do romance Querença, o qual foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Em 1998 publicou Maresia, novo romance. E em 2000 lançou o romance Lianor.

Desde 1998, coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já vai quase nos 20 milhões de visitas.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É o sósia do Presidente Eanes? Li todo o artigo convencido que tinha que te lembrar que Eanes é um dos poucos políticos sérios deste país, e só no fim é que percebi que não é ele…

  2. Carlos Loures says:

    Não, nem são parecidos – é da fotografia. O Eanes melhorou desde que deixou a presidência. Mas diz-se que está ligado ao Opus Dei.
    O Fernando é uma maravilha de pessoa (não desfazendo, claro). E um excelente escritor. Hei-de emprestar-te o «Mata-Cães».

  3. carla romualdo says:

    Não conhecia, fiquei curiosa.

  4. Carlos Loures says:

    Posso fazer circular o livro. Ou talvez a FNAC ainda o consiga arranjar. A editora, a Salamandra continua a funcionar. Se leres o «Mata-Cães» percebes por que é que eu gostei e também por que não consigo ler os livros do Mário Cláudio. Não significa que concordes, bem entendido.

  5. carla romualdo says:

    A fnac nunca arranja nada, vou tentar na Leitura.
    Quanto ao Mário Cláudio, a verdade é que também depende muito de que livros dele é que estamos a falar. Gosto muito da Quinta das Virtudes, por exemplo, ou do Gémeos, que ficciona os últimos anos da vida de Goya.

  6. Carlos Loures says:

    Pois, comecei por não gostar do Amadeo e depois fui por aí fora e não gostei de nenhum. Estive a ver os livros dele e até tenho um que nunca abri – «O Eixo da Bússola». O tal amigo comum bem insiste comigo. Vou fazer um esforço – afinal fui capaz, em criança, de tomar óleo de fígado de bacalhau, uma coisa horrorosa e pestilenta. Mas, com essa idade, era mais corajoso.

  7. carla romualdo says:

    realmente, os gostos não se discutem. Ou melhor, discutem-se sem necessidade de chegar à unanimidade, não é? Para mim é um prazer ler vários dos livros do Mário Cláudio, acho-os de uma grande beleza, e, retomando o tema das cidades, são dele algumas das passagens de maior fulgor sobre a minha cidade. Tenho também uma grande estima pessoal por ele, foi meu professor e sempre me tratou muito bem.
    Toma lá o remédio, amigo Carlos, e pode ser que te surpreendas com o sabor.

  8. Carlos Loures says:

    Sem querer tirar o mérito ao Mário Cláudio, o Porto é uma cidade sobre a qual é fácil fazer literatura. Mas enfim, vou experimentar de novo. Tenho um outro livro dele que também não li – uma edição em italiano, «La tela del sogno», é sobre o Porto e tem prefácio do meu amigo, o Manuel Simões do qual já aqui falei. Vamos lá ver.

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