A miséria aguça o empreendedorismo

Antes de mais, João, o verbo “chamar” não rege a preposição “de”, a não ser no Brasil (eu compreendo que a gramática seja grande e que, às vezes, lhe dê preguiça lê-la), mas ainda bem que gosta que lhe chame giro e arejado.

De resto, é evidente que as enfermeiras em causa revelam iniciativa, mas isso deriva de uma série de erros de governação que acentuam a miséria, o isolamento, o desemprego e que criaram uma sociedade em que os mais desfavorecidos têm cada vez mais dificuldades em ter cuidados de saúde. Numa sociedade civilizada e, portanto, solidária, o Estado existe para corrigir desequilíbrios e não para os acentuar. Uma sociedade equilibrada será aquela em que o Estado não intervenha onde não deve e não se abstenha de agir em áreas cruciais, áreas que não podem ficar à mercê da iniciativa privada, entidade endeusada por neoliberais deslumbrados e/ou acarinhada por partidos que tomam conta do país para servirem de comissão liquidatária, vendendo-o aos privados. Entretanto, quem quiser saúde e educação terá de as pagar; quem não puder pagar, pode morrer ou continuar ignorante. Haverá, afinal, maior empreendedorismo do que morrer ou não ir à escola?

É a economia estúpida

Segundo o que é possível apurar a partir da leitura desta notícia, a freguesia de Atenor, no planalto mirandês, é afectada pela desertificação e tem uma população envelhecida e, em muitos casos, solitária. Até há pouco tempo, havia várias valências nos centros de saúde da região que desapareceram, “em nome da contenção de custos.”

A mesma notícia permite-nos ficar a saber que todas essas valências são, afinal, necessárias, mas, na mentalidade contabilistóide dos últimos governos, os desfavorecidos não contam como seres humanos e são apenas parcelas a abater, pelo que ficam entregues à sua sorte. [Read more…]