Quando a vida nos é destruída mesmo antes de nascermos

 

Adil Zhilyaev tem dois anos. É cego e sofre de paralisia cerebral e de hidrocefalia. Doenças que herdou da mãe, que esteve exposta, há uns anos, às radiações emitidas pelos testes de armas nucleares pela extinta União Soviética (URSS) no tempo da guerra fria.

Os pais abandonaram Adil, aqui ao colo da enfermeira Larissa Soboleva, no orfanato de Semey, no Cazaquistão, numa imagem de 24 de Novembro de 2008.

 

Enquanto se assinala hoje o 20º aniversário do Muro de Berlim, uma outra data ficou por registar. Há 60 anos, a URSS fez explodir a sua primeira bomba nuclear, apelidada de “Primeiro relâmpago”, num campo de testes do norte do Cazaquistão. O local, com o nome de Semipalatinsk Polygon, foi cenário de 456 detonações atómicas nos seus 40 anos de existência.

 

Os habitantes das redondezas foram expostos de forma deliberada, por vezes, de forma imprevista, de outras, aos efeitos da radiação. Foram também sujeitos de testes. Acabaram afectados por doenças como cancro, deformidades, envelhecimento precoce, doenças da tiróide e do coração. Ainda hoje a esperança média de vida é de 17 anos a menos que a média nacional do Cazaquistão.

 

A radiação afectou três gerações de residentes. Mais de um milhão de pessoas foram afectadas. Umas mais outras menos. Já se vê que Adil foi dos mais atingidos, como muitos outras protagonistas de uma reportagem fotográfica de Ed Ou para a Getty Images, que o Big Picture hoje mostra.