Problemas de memória com o Muro de má-memória: 4 notas de Rui Bebiano

Esta manhã publiquei um parágrafo retirado de um texto que Rui Bebiano escreveu e publicou no seu A Terceira Noite. Reedito agora este post e, com a autorização do autor, publico o texto na íntegra, para que o contexto em que esse parágrafo se insere não se perca. Em favor, também, de um debate urgentíssimo para as esquerdas, que o texto de Rui Bebiano, que não é um homem de direita, suscita. [S.A., 14:00]

Quatro notas sobre a queda do Muro

Rui Bebiano

1. Vinte e cinco anos após a derrocada do Muro de Berlim, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam a meros golpes de vontade e picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército Vermelho. Era possível tocar o betão que lhe dava solidez, sobre ele podiam pintar-se palavras de ordem, escalando até uma posição confortável conseguia observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado oriental, o Muro era cinzento e deprimente, eriçado de arame farpado, ladeado por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer leste-alemão que tentasse uma mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando-se na certeza de que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro representava a metáfora suprema da simetria que a Guerra Fria impunha. [Read more…]

Dias de Novembro

No século XX há duas datas que marcam o caminho da humanidade por uma outra sociedade que derrube o capitalismo, chamem-lhe comunismo, socialismo, arroz com ervilhas ou o que quer que seja.

 A 7 de Novembro de 1917 na Rússia a primeira revolução triunfante criou a União Soviética, trazendo uma lufada de esperança aos explorados de todo o mundo.

 

Comite central do partido comunista russo em 1917

A 9 de Novembro de 1989, o derrube pelos berlinenses do muro que simbolizava a vergonha em que se transformou a URSS, onde o pior dos capitalismos, aquele onde domina uma clique de burgueses burocraticamente cooptados governando com mão de ferro um povo condenado a uma enorme desigualdade social e submetido por uma máquina repressiva incontrolável.

Faz hoje 20 anos que, simbolicamente, a URSS deixou de ser um aparelho de propaganda do capitalismo, regressando ao capitalismo tradicional, em breve seguida pela China. A URSS, o país onde provavelmente se  assassinaram mais comunistas que em qualquer outro. Um dia que honra a memória dos homens assinalados a vermelho na imagem, membros do comité central do partdo bolchevique em 1917.

Duas grandes datas, das maiores de um século, onde por duas vezes alguns dias mudaram o mundo.

Quando a vida nos é destruída mesmo antes de nascermos

 

Adil Zhilyaev tem dois anos. É cego e sofre de paralisia cerebral e de hidrocefalia. Doenças que herdou da mãe, que esteve exposta, há uns anos, às radiações emitidas pelos testes de armas nucleares pela extinta União Soviética (URSS) no tempo da guerra fria.

Os pais abandonaram Adil, aqui ao colo da enfermeira Larissa Soboleva, no orfanato de Semey, no Cazaquistão, numa imagem de 24 de Novembro de 2008.

 

Enquanto se assinala hoje o 20º aniversário do Muro de Berlim, uma outra data ficou por registar. Há 60 anos, a URSS fez explodir a sua primeira bomba nuclear, apelidada de “Primeiro relâmpago”, num campo de testes do norte do Cazaquistão. O local, com o nome de Semipalatinsk Polygon, foi cenário de 456 detonações atómicas nos seus 40 anos de existência.

 

Os habitantes das redondezas foram expostos de forma deliberada, por vezes, de forma imprevista, de outras, aos efeitos da radiação. Foram também sujeitos de testes. Acabaram afectados por doenças como cancro, deformidades, envelhecimento precoce, doenças da tiróide e do coração. Ainda hoje a esperança média de vida é de 17 anos a menos que a média nacional do Cazaquistão.

 

A radiação afectou três gerações de residentes. Mais de um milhão de pessoas foram afectadas. Umas mais outras menos. Já se vê que Adil foi dos mais atingidos, como muitos outras protagonistas de uma reportagem fotográfica de Ed Ou para a Getty Images, que o Big Picture hoje mostra.

 

 

Angela Merkel diz: o Dia da Felicidade

Berlim, 1 de Setembro de 1986

 

Hoje, 9 de de Novembro de 2009,  Jerónimo de Sousa denuncia um mundo "mais injusto, com mais desigualdades e mais perigoso". Como se este mundo, não fosse incomparavelmente mais democrático, justo e seguro que aquele de há vinte anos! As desigualdades entre alemães de leste e do antigo ocidente, devem-se antes de tudo, à ocupação e despotismo soviéticos, exercidos através do regime dos gauleiters W. Stoph e Erich Honnecker. 6.000.000 de cidadãos catalogados na sede da Stasi, medo generalizado, prepotência e depotismo levados ao limite por uma STASI doze vezes mais vasta que a Gestapo de Adolf Hitler. Um protectorado russo – ao mesmo nível do Reichsproktetorat da Boémia-Morávia de 1939-45 -, a RDA era patrocinadora de todo o tipo de terrorismo e os seus líderes participavam lucrativamente no tráfico internacional de armas e de estupefacientes. Uma população que auferia de cerca de 30%  do nível de vida dos seus concidadãos ocidentais e que hoje atinge – ainda insatisfatoriamente – 70% da média da antiga República Federal da Alemanha. As cidades hoje limpas, reconstruídas e com o arruinado património arquitectónico em quase completa fase de recuperação.Gente que pode circular, ler, escrever e pensar, sem medo de delação por parte de um amigo, vizinho ou familiar. Muito falta por fazer, dizem os alemães. Decerto.

 

Visitei Berlim-leste em 1986. Uma cidade plena de ruínas da II Guerra Mundial, triste, cinzenta e onde era impossível estabelecer qualquer tipo de diálogo com habitantes que nos olhavam  à distância com uma mescla de medo e curiosidade. Uma cidade policiada a cada esquina, com poucas lojas cheias de prateleiras vazias. Jamais esquecerei a experiência à saída daquele "supermercado" reservado a quem possuía numerário ocidental – os poucos turistas e a gente do Partido SED-, quando tendo comprado alguns chocolates, batatas fritas e alguns outros snacksprovenientes do Ocidente, deparei com três miúdos que olhavam fixamente o meu prometedor saco de plástico. Ofereci-lhes tudo quanto comprara e não me arrependi, tendo há muito a certeza de que pouco tempo faltaria para que eles próprios pudessem ter uma vida normal, sensivelmente idêntica à dos seus irmãos da Alemanha Ocidental.

 

Mas que diferença esta Alemanha oriental, daquela outra que visitei em Setembro de 1986 e que era um pardieiro de lixeiras a céu aberto, rios e terrenos poluídos, policias em cada esquina, soldados de ocupação, uniformes por todo o lado, passos de ganso, gente triste, cabisbaixa, mal vestida e proibida de falar com os estrangeiros! Que diferença, sr. Jerónimo de de Sousa, que diferença!

 

O fim de Honnecker foi rápido, lapidar e soube procurar um tranquilo refúgio para os seus últimos dias de vida neste mundo: o Chile do general Pinochet.