Primeira página de "A Bola": lamentável

Já ouvi pessoas cultas e razoáveis defenderem as ideias mais estapafúrdias em nome dos respectivos clubes e já ouvi as mesmas pessoas defenderem a ideia que a paixão clubística permite que se defendam as ideias mais estapafúrdias. Aliás, Portugal, nos mais variados campos, incluindo a política, funciona com base na paixão clubística: os nossos são bons, os outros são maus.

Não há ninguém que, verdadeiramente, saiba perder, porque ninguém quer saber fazer tal coisa. No entanto, não aceito que tenha de me portar como um troglodita só porque perco. Mais: acredito que, após milhares de anos de evolução, tenho a obrigação de tentar ser tanto mais humano quanto mais vontade tenha de ser um animal, como sucede no momento das derrotas. Após milhares de anos de evolução, devo ser o menos pitecantropo e o mais pedagógico possível.

Assim, considero sempre ridícula qualquer desvalorização de uma vitória futebolística, sobretudo quando se trata de competições de regularidade, como é o caso de um campeonato. Na época passada, o título de campeão ficaria muito bem entregue ao Braga, como ficou ao Benfica. Este ano, vai ganhar a equipa mais regular, o Futebol Clube do Porto.

Em Braga, o Javi foi bem expulso, o Roberto foi mal batido, o Benfica perdeu bem. Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira ficam mal na fotografia, como é, infelizmente, costume nos treinadores e dirigentes que não estão em primeiro lugar, sempre prontos a atribuir derrotas a árbitros, a túneis ou a cabazes de fruta.

De treinadores e dirigentes espero, sinceramente, pouca elevação. De um jornal como A Bola, uma instituição do jornalismo, talvez ainda esperasse alguma pedagogia. Infelizmente, a primeira página de ontem é absolutamente lamentável de tão incendiária e tendenciosa que é.