Desinformação no Expresso sobre energia nuclear

Este artigo de Henrique Raposo publicado no Expresso não segue minimamente a literatura científica consolidada sobre a energia nuclear, cita dados maioritariamente não revistos pelos pares e artigos sem significância estatística e sem abrangência. Sobretudo segue uma cadeia de desinformação iniciada pelos lobistas nucleares que engana até alguns dos mais atentos. Tenho trabalhado nestes assuntos com os meus alunos e é verdade que não é fácil fazer uma triagem correta da informação disponível.

Vejamos 4 exemplos da sua coluna de opinião que são muito ilustrativos:

1- “morreram 28 pessoas nos dois grandes acidentes nucleares até agora”. É completamente falso. Em artigo disponível no site da Agência Internacional de Energia Atómica, estima-se entre 50 mil a 90 mil mortes em Chernobyl. Números consistentes com o trabalho de 80 anos de investigação da cooperação Americano-nipónica Radiation Effects Research Foundation (RERF) desde a bomba atómica de Hiroshima, com o trabalho de décadas do Los Alamos National Laboratory ou com os cálculos de G. Charpak, Nobel da Física, por exemplo. Henrique Raposo é mais um da cadeia de desinformação dos que cita erradamente um relatório da UNSCEAR, pois cita apenas o número de trabalhadores que morreram de exposição direta e aguda na central no dia do acidente, que foram 28 e não as pessoas que morreram da contaminação de Cs137 que abrange uma área de amplitude continental. Aliás, no próprio relatório a UNSCEAR diz que não pretende fazer essa estimativa do número total de mortos na secção 3 da pag. 64. Mais, a mesma UNSCEAR ratificou, aquando do Fórum de Chernobyl em 2003, um número de mortes superior a 4000. [Read more…]

A energia nuclear é segura? (parte I)

Chernobyl são mais de 10 000 km2 contaminados durante centenas de anos, 100 mil pessoas evacuadas, custos para lá dos 250 mil milhões de dólares, um sarcófago temporário (50 anos) para proteger o reator danificado que custou 2 mil milhões de euros (pago pela UE).

Fukushima foram 155 mil evacuados (atualmente 37 mil com estatuto de refugiados), 600 km2 contaminados durante décadas, 1,2 milhões de toneladas de água contaminada que serão largadas durante décadas para o oceano e onde os custos atuais de limpeza já ultrapassam os 200 mil milhões de dólares (2/3 do orçamento português).

Acidentes como o de Three Mile Island (EUA, 1979) necessitaram 2 décadas e mais 1,2 mil milhões de dólares para encerrar em concreto o combustível do reator 2 (em instalação provisória no Idaho). O acidente de Kyshtym (URSS, 1957) resultou em 10 mil pessoas deslocadas, 200 milhões de rublos (de 1957) de prejuízos imediatos e 4 décadas de limpeza. O acidente de Windscale (RU, 1957) já custou mais de 2 mil milhões de libras e o processo de limpeza está longe de estar concluído.

Efeitos da radiação de acidentes nucleares na população

Depois do bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki foi criado o centro de investigação conjunto nipo-americano Radiation Effects Research Foundation (RERF) que estudou durante décadas os efeitos na saúde humana das populações irradiadas na sequência da explosão das 2 bombas nucleares. O RERF produziu um trabalho extenso e robusto sobre os efeitos da radiação na população. Outros desastres ajudaram a validar e consolidar os resultados do RERF: o acidente da explosão de Castle Bravo no Pacífico (população irradiada em ilhas a diferentes distâncias onde as doses foram bem medidas) e ensaios nucleares militares a cargo de Los Álamos (soldados a distâncias precisas e doses bem medidas). Uma das consequências destes trabalhos foi o tratado internacional de interdição de ensaios nucleares na atmosfera assinado em 1963. Os cálculos mostraram que a precipitação radioativa resultante destes ensaios produziriam cerca de 170 mil cancros mortais na população mundial durante um período de 50 anos.

Em 2005 foi organizado o Forum de Chernobyl [Read more…]