Chernobyl são mais de 10 000 km2 contaminados durante centenas de anos, 100 mil pessoas evacuadas, custos para lá dos 250 mil milhões de dólares, um sarcófago temporário (50 anos) para proteger o reator danificado que custou 2 mil milhões de euros (pago pela UE).
Fukushima foram 155 mil evacuados (atualmente 37 mil com estatuto de refugiados), 600 km2 contaminados durante décadas, 1,2 milhões de toneladas de água contaminada que serão largadas durante décadas para o oceano e onde os custos atuais de limpeza já ultrapassam os 200 mil milhões de dólares (2/3 do orçamento português).
Acidentes como o de Three Mile Island (EUA, 1979) necessitaram 2 décadas e mais 1,2 mil milhões de dólares para encerrar em concreto o combustível do reator 2 (em instalação provisória no Idaho). O acidente de Kyshtym (URSS, 1957) resultou em 10 mil pessoas deslocadas, 200 milhões de rublos (de 1957) de prejuízos imediatos e 4 décadas de limpeza. O acidente de Windscale (RU, 1957) já custou mais de 2 mil milhões de libras e o processo de limpeza está longe de estar concluído.
Efeitos da radiação de acidentes nucleares na população
Depois do bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki foi criado o centro de investigação conjunto nipo-americano Radiation Effects Research Foundation (RERF) que estudou durante décadas os efeitos na saúde humana das populações irradiadas na sequência da explosão das 2 bombas nucleares. O RERF produziu um trabalho extenso e robusto sobre os efeitos da radiação na população. Outros desastres ajudaram a validar e consolidar os resultados do RERF: o acidente da explosão de Castle Bravo no Pacífico (população irradiada em ilhas a diferentes distâncias onde as doses foram bem medidas) e ensaios nucleares militares a cargo de Los Álamos (soldados a distâncias precisas e doses bem medidas). Uma das consequências destes trabalhos foi o tratado internacional de interdição de ensaios nucleares na atmosfera assinado em 1963. Os cálculos mostraram que a precipitação radioativa resultante destes ensaios produziriam cerca de 170 mil cancros mortais na população mundial durante um período de 50 anos.

Em 2005 foi organizado o Forum de Chernobyl (IAEA, WHO, UNSCEAR, etc.) onde foi ratificado que até essa data se estimavam em pelos menos 4 mil o número de mortes resultantes do acidente de Chernobyl (irradiação direta+precipitação). Desde então trabalhos científicos mais atualizados, entre os quais de destacam os de Charpak (Nobel da Física) & Garwin ou da UCS, estimavam o número de mortes acima das 24 mil. Um dos trabalhos mais atuais, publicado no site da IAEA (Imanaka, 2016), estima entre 50 mil a 90 mil mortes. O número de cancros, de vidas destruídas pela doença, de empregos perdidos, são os números referidos a multiplicar por 20 a 50. Em todos estes trabalhos foi utilizada a metodologia consolidada da RERF, dos casos de Los Álamos e de Castle Bravo. Muito recentemente, o artigo “Cancer mortality after low dose exposure to ionising radiation in workers in France, the UK and the USA” deu uma consistência de betão a estas estimativas, ao abordar uma amostra de 300 mil trabalhadores do setor nuclear expostos a baixas doses.
O que diz a propaganda de alguma indústria nuclear sobre Chernobyl e sobre a segurança das centrais nucleares?
Diz que o nuclear é a a tecnologia de produção de energia mais segura porque morreu menos gente por kWh (ignora pessoas deslocadas, áreas contaminadas durante décadas, vidas destruídas pelo desemprego e por cancros não letais). Diz que em Chernobyl só morreram 433 pessoas (valor introduzido no gráfico acima do Our World of Data para produzir um resultado simpático: “here I assume a death toll of 433 from Chernobyl“). Dizem que em Fukushima morreram zero pessoas (método RERF estima >1000). Dizem que a radiação a baixas doses não faz mal (“there is a lower limit to the level at which radiation exposure has negative health impacts“) em contramão com o que nos diz a ciência (ver artigo citado acima “Cancer Mortality after…“). Qual a fonte destas alegações? Vem de uma leitura parcial de um relatório da UNSCEAR (que ratificou as > 4 mil mortes no Fórum de Chernobyl). Parcial porque escolhe o número de mortes de síndrome aguda da radiação e ignora a precipitação contabilizada nos restantes trabalhos citados no mesmo relatório da UNSCEAR referentes à conclusão do Fórum de Chernobyl (> 4 mil mortes). Quando voltarem a abrir a página sobre energia nuclear do Our World of Data, esqueçam. O que lá está errado e é anti-científico. Esta secção do Our World of Data é greenwashing financiado por Bill Gates/Terra Power. E o que é espantoso é que o autor desta secção do Our World of Data, em vez de avançar um número de um trabalho científico, diz explicitamente que o número de 433 é estimado pelo próprio (“I assume”) como uma espécie de média entre 300 e 500. Leiam, vale a pena ler, é um mimo de seriedade científica.






Quanta gente já morreu pelo rebentamento de barragens, incêndios em pipelines e bombas de gasolina?
É um número conhecido e contabilizado corretamente no gráfico acima. O da energia nuclear está aldrabado no mesmo gráfico e é bem mais elevado do que o das renováveis. Esses acidentes citados não contaminam solos durante décadas ou centenas de anos, não produzem desemprego permanente, não produzem cancros na população durante 40 a 50 anos (mesmo que não morram) e não obrigam a operações de limpeza caríssimas durante dezenas de anos.
Depende; a gente inclui animais, e conta o rebentamento de quem nunca tem culpa de nada?
Pois.
E fora os que morreram de susto.
E de morte macaca! Será que acabaram com os macacos? Nada disso!
Alguns, pelo Menos, até escrevem comentários e tudo!
Por exemplo, este: “Quanta gente já morreu pelo rebentamento de barragens, incêndios em pipelines e bombas de gasolina?”.
A dúvida é sempre como produzir electricidade para a malta toda.
Não ao petróleo, não ao gás, não ao nuclear.
Deve haver um método barato e tecnologicamente disponível, não existe é algum “entrepeneur” inteligente para o aproveitar.
Uma hipótese é esta:
https://cleantechnica.com/2022/09/06/switching-the-world-to-renewable-energy-will-cost-62-trillion-but-the-payback-would-take-just-6-years/
A realista é esta:
https://degrowth.info/
Claro, a solução está longe de ser exclusivamente tecnológica. E há a componente da poupança e eficiência, modo de vida. etc.