Rosebud

G.K. Chesterton (Lafayette Ltd)

Foram precisos muitos dias, semanas, meses para que a pessoa que eu era aos 6 anos visse, enfim, ser-lhe dada razão. 

Aos 6 anos, com efeito, iniciei uma colecção de bicos de lápis de cor, aqueles que se partiam por serem empurradocom demasiada força contra o papel, e que eu era incapaz de deitar fora pois pareciam-me objectos de evidente valor. Forrei de algodão a velha caixa de um relógio e aí fui dispondo os bicos, certa de que o contraste entre os azuis, verdes, vermelhose o branco do algodão constituíam uma peça de invulgar beleza e que seriam a decoração perfeita para o Natal que se aproximava. Quando chegou, porém, o momento de apresentar o meu projecto decorativo aos adultos, estes não foram da mesma opinião e a minha colecção de bicos de lápis foi considerada, ainda que por outras palavras, uma estupidez 

Claro está que não fiquei nada convencida do acerto dessa decisão. Reconhecia que os bicos de lápis não eram tão bonitos quanto o lápis-mãe (ou lápis-pai?) de onde tinham saído, que talvez parecessem insignificantes no mar de algodão em que eu os lançara, mas havia uma verdade naquela colecção  que me parecia notória e uma ética em não desprezar o que fora capaz de colorir que era para mim inquestionável. Porque valeria mais um candelabro, uma coroa natalícia, uma jarra, do que os meus bicos de lápis? Infelizmente, a maioria detentora do poder estava contra mim, situação, aliás, que sumariza muitas infâncias, e os bicos acabaram no lixo.   [Read more…]

Rosebud (Memória descritiva)

O edifício do Cinema Rex, na hoje degradada zona lisboeta do Intendente, foi sede da Federação Espírita Portuguesa, fundada em 1925. Ficava ao lado do Real Coliseu onde depois abriu a garagem Auto Lis, junto ao belo chafariz do Desterro. Quando a Ditadura Nacional se transformou, por obra e graça do referendo de 1933, em Estado Novo, a Federação seria perseguida pelo regime e, em 1939, a sede passou a ser um cinema – o Rex. A propriedade do edifício continuou a ser da Federação Espírita, mas a exploração foi atribuída a um particular, o senhor Eduardo Ferreira, um «industrial», como o classificam os documentos, que procedeu às obras de adaptação e construiu um belo cinema com capacidade para 478 espectadores.

Por cima da sala de cinema, equipada com um palco que podia funcionar para espectáculos teatrais, havia um grande salão onde se celebravam carnavais e réveillons. O cinema encerrou em 1967, reabrindo em Dezembro do ano seguinte com o nome de Teatro Laura Alves. Actualmente, implantado na zona mais degradada do centro de Lisboa, está transformado numa feia superfície comercial. [Read more…]