Rosebud

G.K. Chesterton (Lafayette Ltd)

Foram precisos muitos dias, semanas, meses para que a pessoa que eu era aos 6 anos visse, enfim, ser-lhe dada razão. 

Aos 6 anos, com efeito, iniciei uma colecção de bicos de lápis de cor, aqueles que se partiam por serem empurradocom demasiada força contra o papel, e que eu era incapaz de deitar fora pois pareciam-me objectos de evidente valor. Forrei de algodão a velha caixa de um relógio e aí fui dispondo os bicos, certa de que o contraste entre os azuis, verdes, vermelhose o branco do algodão constituíam uma peça de invulgar beleza e que seriam a decoração perfeita para o Natal que se aproximava. Quando chegou, porém, o momento de apresentar o meu projecto decorativo aos adultos, estes não foram da mesma opinião e a minha colecção de bicos de lápis foi considerada, ainda que por outras palavras, uma estupidez 

Claro está que não fiquei nada convencida do acerto dessa decisão. Reconhecia que os bicos de lápis não eram tão bonitos quanto o lápis-mãe (ou lápis-pai?) de onde tinham saído, que talvez parecessem insignificantes no mar de algodão em que eu os lançara, mas havia uma verdade naquela colecção  que me parecia notória e uma ética em não desprezar o que fora capaz de colorir que era para mim inquestionável. Porque valeria mais um candelabro, uma coroa natalícia, uma jarra, do que os meus bicos de lápis? Infelizmente, a maioria detentora do poder estava contra mim, situação, aliás, que sumariza muitas infâncias, e os bicos acabaram no lixo.  

Foi preciso chegar o Natal de 2017, para que eu, aplicada em dedicar todo o tempo possível a nutrir o corpo e o espírito (com vantagem para o corpo, tenho de reconhecer), descobrisse um texto do sempre recompensador G.K. Chesterton que começa assim:

“Já me ocorreu muitas vezes a ideia de um indivíduo que se propusesse a cole[c]cionar com laborioso cuidado artigos em que nenhuma outra pessoa achasse qualquer valor, e a entregar-se a uma classificação exaustiva de obje[c]tos que toda a gente considerasse insignificantes e inanes.” (in Ficar na Cama e Outros Ensaios, tradução de Frederico Pedreira).

Relampejou à minha frente a imagem quase esquecida dos pobres bicos afogados em algodão. “Insignificantes e inanes”, sem dúvida. Mas o que torna, afinal, de valor uns objectos em detrimento de outros? Não é o facto de serem raros, já que, como bem diz Chesterton, “existe um grande número de coisas muito mais raras do que o ouro e a prata.” Ao meu lado, enquanto escrevo, está uma tulipa de cartão, pintalgada por uma acidental caneta de feltro preta, com a ponta da pétala da direita quebrada, e um minúsculo “C” desenhado no caule, que um amigo chamado Luís me trouxe da Holanda. Eu diria que a soma de todas estas características torna este objecto bastante raro, mas nem por isso valioso para as outras pessoas.

Tampouco são a utilidade ou a beleza a ditar o valor dos objectos, caso contrário uma cadeira e uma magnólia branca seriam muitíssimo mais valiosas do que uma pepita de ouro.

“A verdade”, sentencia Chesterton, “é que a humanidade elegeu determinados obje[c]tos sem significado à condição de obje[c]tos de valor, ainda que sem um discernimento intrínseco ou comparativo”.

As crianças entendem a aleatoriedade dessa eleição e são capazes de compreender a “poesia das substâncias”, como lhe chama Chesterton, na qual não influi o valor pecuniário que se convencionou atribuir-lhes. Um diamante pode ser belo, sem dúvida, mas não necessariamente mais belo do que um berlinde abafador.

Porventura o objecto mais importante da cinematografia ocidental é um trenó com a inscrição “Rosebud” que acaba na fornalha por ser velho e sem préstimo, e que era a mais valiosa possessão de um magnata.

Foram precisos muitos dias, semanas, meses para que os bicos dos lápis de cor enfeitassem o meu Natal, mas resgatei-os todos e lá estiveram, ainda que ninguém os tenha visto. Não eram raros nem belos nem úteis. Obviamente, eram de grande valor.

Comments

  1. António Fernando Nabais says:

    Pqp, evidentemente!


  2. A propósito ou, quiçá, a despropósito.
    Tenho um sobrinho, filho único, agora já adulto, então muito mimado, que faz anos no dia 25 de Dezembro. Numa altura, em acabava de chegar à porta da sua casa – uma vivenda, apenas é importante para o que a seguir vou dizer – para festejar os seus anos e o Natal, ouvi um grande barulho, lá para as traseiras da vivenda – como algo a ser quebrado. Fui ver o que se passava e vi então esse meu sobrinho aos saltos dentro de um grande caixote cheio de brinquedos, com a finalidade, óbvia, de os destruir. Diga-se que, por serem tantos, a maior parte estava em muitas boas condições de uso – claro, agora já não tanto. Como naquele tempo uma palmada no rabo ainda era um remédio santo, foi isso que tomou. Em resposta a porque o fazia. A choramingar proferiu então esta jóia de resposta: “Como ia receber duas prendas de cada pessoa – pelo Natal e pelo seu aniversário – não precisava mais daqueles brinquedos, por serem velhos e agora ia ter novos”. Apesar de tudo, tornou-se – não por isto, certamente – um bom rapaz e uma boa pessoa.
    Voltando aos objectos, a sua importância para a pessoa provém da sua raridade (ou escassez), enquanto objectos e da sua posse; não necessariamente pelo valor intrínseco dos objectos, mas pelo momento e pela carga afectiva de que os mesmos são dotados. Razão pela qual, em dado momento, alguns de nós dão valor (ou dão mais valor) a alguns objectos, quando outros de nós não lhes dão valor nenhum. (Sim! Eu sei. Isto mantém-se pela vida fora: o objecto é que muda). Também é por isto que certos educadores defendem o corte drástico com aqueles momentos de criança ou de adolescência e alguns pais mandam para o lixo os brinquedos dos filhos.
    No meu caso, os objectos de estimação eram os brinquedos feitos em madeira: o homem da bicicleta, o pássaro que batia as asas, o carro de bois, etc. Gostos!


  3. Sim, a carga afectiva de certos objectos é igualmente para mim o seu real valor, absurdo e bizarro que seja .
    Por ex, … a “múmia” de um cogumelo rasteiro de uma espécie a que o povo apelidava de “peido de bruxa” : ) pq dele sai um pó escuro quando o apertamos ( tóxico, dizem…) e que fez parte de um imaginário infantil de fantasia e brincadeiras entre irmãos em tempos maravilha felizes em que os contos à lareira faziam real essa fantasia, pois eu conservo ainda em frasquinho rotulado um exemplar ressequido desses cogumelos, que guarda nesse pozinho escuro todo o sol de verões e momentos de uma alegria pura e simples vivida num contacto inteiro e simples com a natureza em férias grandes de crianças que éramos a crescer devagarinho sem pressa de ser adulto .
    : ) essa múmia vegetal é um dos objectos que têm para mim mais valor que um diamante.

    “…As crianças entendem a aleatoriedade dessa eleição e são capazes de compreender a “poesia das substâncias”, como lhe chama Chesterton, na qual não influi o valor pecuniário que se convencionou atribuir-lhes. Um diamante pode ser belo, sem dúvida, mas não necessariamente mais belo do que um berlinde abafador.”

    É isso, Carla, é só para alguns, para quem soube guardar dentro de si a criança que foi e é ainda, …. e é tão bom!

    Gostei da cumplicidade que encontrei no seu texto.

  4. José Galhoz says:

    Ainda hoje, passados 75 anos, me lembro de um dos meus brinquedos de lata. Este não esperou pela minha morte para desaparecer, como sucedeu com o “rosebud” do filme de Orson Wells mas a sua lembrança ainda invoca os meus cinco anos e a felicidade que sentia quando, mesmo sozinho, tinha a companhia desses brinquedos…


  5. Um fenómeno do Capitalismo. Só dá um valor desmesurado a um simples brinquedo de infância ou outro qual ícone aqueles que tem grandes riquezas monetárias.
    Em estado de pobreza o “Rosebud” teve a sua maior “utilidade” na fogueira.

    Rui Silva

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