O hábito de não me habituar

Parafraseando Thomas Mann, tenho o ‘hábito de não me habituar’. Uma teimosia por contágio, talvez.

Quando Cavaco fala ao País, é impossível furtar-me à ideia de que aquilo que ouço e vejo não é disparate, pronunciado por alguém que consegue ter o porte empoleirado na petulância, recheada de balofo e tecnocrático pensamento. Não consigo acreditar nos discursos, nas propostas políticas e na arrogância de quem se julga monopolista da verdade. Mais uma vez, no famigerado ‘projecto de salvação nacional’ acabou de comprovar-se a razão do meu ‘hábito de não me habituar’. Daqui a umas horas, na comunicação ao País, haverá nova prova, estou certo.

Se ouço o Coelho – sem querer até eu e uma multidão entrámos na reunião da Comissão Nacional do PSD, na última semana – não consigo dissocia-lo do Monty Phyton em ‘Como Irritar uma Pessoa’. Quem se habitua a admirar Coelho? Por aqui também não consigo eliminar o ‘hábito de não me habituar’.

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Da competência política dos decisores (proposta do PS)

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«(…) A equipa técnica da Troica que nos visita não tem competência política para tomar decisões. A renegociação, e o redireccionamento, do nosso programa de ajustamento precisam de um envolvimento dos responsáveis políticos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI.» Mais aqui.

A ronda negocial democrática (?) de Cavaco e dos partidos do ‘arco do poder’

À excepção dos privilegiados, apenas o promotor e protagonistas do PSD, PS e CDS, embora sejam uma minoria ultraminoritária, sabem em rigor o conteúdo do que se tem debatido, acordado ou discordado, em resultado dessa proposta cintilante de Belém, o ‘Compromisso de Salvação Nacional’.

Dizem-nos que a iniciativa, entretanto terminada, é da máxima relevância para o futuro dos portugueses, sem especificar o que se trata, que objectivos se perseguem e o que podem os portugueses esperar no futuro, se consumado o acordo desta ‘troika nacional’.

Chamam a isto democracia, i.e., decidir em nome do povo matéria por este ignorada e não sufragada, naturalmente com influência para milhares de famílias portuguesas, cuja vida já é duríssima. O que nos deve preocupar é o conteúdo e resultado das negociações, até aqui sonegados – os negociadores ‘rosas’, ‘laranjas’ ou ‘azuis-amarelos’ pouco ou nada interessam, porque são parte do largo enxame de moscas da mesma merda, diria Brito Camacho.

Para tornar uma longa história mais curta, reproduzo o que Fareed Zakaria, ensaísta e editor da Newsweek International em ‘O Futuro da Liberdade’, editado pela Gradiva, escreveu na página 162 do livro em causa:

A noção de assembleia representativa ilustra bem estas ideias de democracia indirecta. Os americanos escolhem quem exerce o poder legislativo e delibera por eles. Não o fazem por si próprios. Foi precisamente esta a razão por que James Madison, autor da Constituição americana, não considerava a América como uma democracia.

Acrescento: o que é dito a propósito dos americanos também é verdadeiro, na actualidade, para um conjunto alargado de outros povos. Em especial, na EU e no subconjunto da Zona Euro, onde a nossa soberania se esvaiu.

(Adenda: É óbvio que o texto dste ‘post’ não seria escrito nos mesmo termos, se, a tempo, tivesse tido conhecimento da desacordo do PS, transmitida por António José António Seguro. Mantenho, no entanto, que a agenda das reuniões deveria ser divulgada como imperativo democrático – Cavaco Silva perdeu e o país estará sujeito a uma crise de proporções ainda imprevisíveis).