Bacalhau

Um dos eixos principais da estratégia política do Presidente da República consiste na tentativa de contenção, no nosso país, daquilo a que se chama agora “nacionalismo populista”. Parece um paradoxo, mas não é. O Presidente da República fá-lo ocupando o espaço semiótico com acções coordenadas que não têm uma natureza estritamente política, mas psicopolítica, daí derivando o epíteto de “Presidente dos afectos”. Esses “afectos”, que se traduzem simultaneamente numa grande excentricidade do exercício das suas funções e numa proximidade simbólica ao “homem comum” exacerbada, pretendem captar e prender pela emoção primária, também ela populista, todos aqueles que, de outro modo, se poderiam mostrar receptivos à mensagem que varre com força uma boa parte do ocidente e que normalmente se identifica na radical oposição ao modelo de “democracia global” até agora vigente. A originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa é o seu Populismo Católico, instrumento com que tenta travar a chegada, a este lado da península ibérica, dos exércitos de Bannon. Nada garante que Bannon não chegue cá, mas se não fosse Marcelo, talvez já cá estivesse.

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Desilusão

(adao cruz)

 (Dedicado ao Joaquim Quicola, amigo que eu sei que me entende) 

Desilusão

Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso. Minha voz de gravador que outros ouvem, só eu não, tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor, invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino, destino essencial, quem subia ou descia, afinal…era eu.

Nos gestos por dentro, nos jardins de contraste da natureza fecunda, no penoso brio de um curriculum lavrado na areia, meti as mãos na areia e palpei o futuro.

Palpei a filosofia dos cadáveres, e em febril pulsação, espremi a vida dentro de uma mão cheia.

Enchi de virilidade a cidade, a cidade e o lixo, o lixo e o luxo, a luz e eu.

No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo, feito de tempo gasto e de nojo.

Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso, que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.

A verdade era uma mesa, a vida os dados, e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.

Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe, não há sim nem não entre passado e presente, e o futuro é o deserto que temos à frente.

Neste chão de lama, na ejaculação abortada, nos restos de orgia da orgia de restos, em ritmo de coração moribundo, sobra o tremor da carne adormecida.

A arte, o sonho, a verdade, o viço e a cor perderam o brilho, e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.