Cacém-Barcarena-Mont’Abraão

Cacém - BarcarenaLinha de Sintra. A pé, ao longo dela, do Cacém a Vale Abraão, há flores na berma, campestres, de todas as cores e para todos os gostos. O variegado delas embriaga, paraíso de abelhas que não vemos, promessa de néctar, âmbar ou luz que nem sabemos.

Humildes, airosas, pisáveis, misturam-se a marginar o férreo caminho, iluminando a grande e metálica certeza de haver por onde ir e regressar às pobres moles. Estão desempregadas, coitadas, as flores na berma do caminho, sem prado, esquecidas, encharcadas de efémero e eternas porque as vemos. Dir-se-ia que é só por elas que ali há linha e a nossa azáfama, meu amigo!

Desilusão

adão cruz

 Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso.

Minha voz de gravador que outros ouvem só eu não tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino destino essencial quem subia ou descia afinal…era eu. [Read more…]

Orquídeas VI: zygopetalum de novo

Não resisto. Temos que voltar às Zygopetalum.

Zygopetalum

Zygopetalum (Manuel Lourenço, V.N.Gaia, Portugal)

A tua mão

adão cruz

Como simples aves damos as asas a caminho do sol para fugir às lágrimas que a terra espreme.

A luz incendeia a vontade de fugir mas a tua mão serena abre o coração à esperança onde a angústia cresce por entre músicas perdidas e restos de flores.

Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar e dos olhos que pararam de girar confundidos entre lágrimas e risos.

O longo caminho das sombras onde as plantas não falam nem as fontes nem os pássaros.

Mas a tua mão apertada mesmo que incrédula murmura baixinho que os prados se estendem a nossos pés.

E que as brandas ondas do mar deslizam suavemente sobre a areia cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo que à noite desperta por entre o labirinto dos meus sonhos.

Que palácios pretende o vento impaciente em teus cabelos de fogo vencida a idade em que o coração treme sem casa para morar?

Fibra óptica para as ilhas das Flores e do Corvo

Não me acusem por causa do artigo anterior de ser contra as ilhas. Muito pelo contrário, sou um grande amigo das Berlengas. E esta causa açoriana, da interioridade açoriana por assim dizer, merece todo o meu apoio. É a velha estória do choque tecnológico: têm o tecnológico, mas falta-lhes o choque.

Há mais de uma década que as populações das ilhas das Flores e do Corvo (Açores) vêm sendo ludibriadas com consecutivas promessas nunca cumpridas, quer pelos sucessivos Governos da República (PSD, CDS/PP e PS) como também pelo Governo Regional (PS), quanto à extensão do cabo de fibra óptica que já passa há bastantes anos pelas restantes ilhas do arquipélago dos Açores.

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Desilusão

(adao cruz)

 (Dedicado ao Joaquim Quicola, amigo que eu sei que me entende) 

Desilusão

Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso. Minha voz de gravador que outros ouvem, só eu não, tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor, invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino, destino essencial, quem subia ou descia, afinal…era eu.

Nos gestos por dentro, nos jardins de contraste da natureza fecunda, no penoso brio de um curriculum lavrado na areia, meti as mãos na areia e palpei o futuro.

Palpei a filosofia dos cadáveres, e em febril pulsação, espremi a vida dentro de uma mão cheia.

Enchi de virilidade a cidade, a cidade e o lixo, o lixo e o luxo, a luz e eu.

No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo, feito de tempo gasto e de nojo.

Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso, que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.

A verdade era uma mesa, a vida os dados, e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.

Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe, não há sim nem não entre passado e presente, e o futuro é o deserto que temos à frente.

Neste chão de lama, na ejaculação abortada, nos restos de orgia da orgia de restos, em ritmo de coração moribundo, sobra o tremor da carne adormecida.

A arte, o sonho, a verdade, o viço e a cor perderam o brilho, e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.

In limine

(desenho de Manel Cruz)

 Pelos caminhos de prantos e sorrisos, dentro de um tempo farto de horas sem minutos, a vida vai colhendo flores que murcham, por não serem simples flores ou flores simples, sem exigências de estufa ou jardim, flores de terra húmida, céu por cima e sol de permeio.

 Em tudo o que me é vida interfere a vergonha de ser adulto. Descortino as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só vejo muralhas. Nada de crianças. Os homens comeram as crianças, os homens comeram-se crianças, os homens pariram-se adultos.

 Os pongídeos chegaram a homens. Quinze milhões de anos para o homem ser bicho. Bicho erecto. Rastejo de púrpura.

 Eu nasci na erva e dormi no feno, e acordei com a voz dos melros e rouxinóis e saltitei com os pardais. Vesti-me de sol e despi-me de luar. Estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios. Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus. Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro, ao pensar que eram de amor as mãos que a mataram.

 Passei a vida a correr tropeçando nas sombras. Arrumei ao canto da luz mil horas vazias, sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens. Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.

 Vestido de ausências fui renascendo de amor pela vida fora, nos infinitos da fantasia que outros foram lentamente matando com fruído prazer.

A Natureza – Morta na Gulbenkian

Belíssima exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, reunindo um singular conjunto de obras de primeira qualidade, algumas das quais raramente expostas e a maioria nunca vistas em Portugal. É o caso, entre outras,de uma rara natureza-morta de Rembrandt, de uma das melhores obras de Chardin, pouco conhecida, e de um trabalho de Francisco Goya, a que se juntam produções fundamentais de Fede Galiza, de Juan Fernandez, El Labrador, de Paolo Porpora e de Juan Sánchez Cotán.

Mais de sete dezenas de obras expostas, vindas de 34 instituições públicas e 11 colecções particulares, ilustram a evolução deste género desde as suas primeiras manifestações, dando conta das múltiplas expressões que foi assumindo ao longo dos séculos.

Representações de frutos, caça, mesas de cozinha e de banquete, pintura de flores, vanitas e trompe-l’oeil, embora durante séculos o desafio tenha sido imitar a natureza, esta exposição revela uma multiplicidade de respostas diferentes.

Embora a natureza-morta tenha sido considerada em muitos aspectos um género marginal, estão em Lisboa obras importantes de pintores europeus mais conhecidos da época e trata-se de uma ocasião única para ver algumas obras verdadeiramente notáveis!

“Ainda estou atónito com o facto de termos nesta exposição uma das raras naturezas-mortas de Rembrandt,uma das melhores obras de Chardin e até um Goya!” diz um entusiasmado comissário da exposição Peter Cherry do Trinity College de Dublin.

Quatro netos

               (adao cruz)

(adao cruz)

Aos quatro netos

Assim nascidos de uma virada

Do alto da minha escada os contemplo.

No fundo de mim mesmo

Lá no fundo da cratera

Onde ergui a minha escada

Ouço apenas a voz do medo

Entre o sonho e a quimera.

No cimo da cratera

Onde ainda chega o sol

E a noite amanhece

Nascem flores pequeninas

No seio da erva rasteira

e os degraus de nova escada

Para continuar a primeira.

Andam a vender os meus jarros

A maioria das árvores que embelezam a minha rua, não estariam grandes e viçosas se não fosse o meu trabalho, incompreendido, diga-se de passagem, noite dentro em pleno verão, a chegar-lhe água.

 

Entre a minha casa e a garagem do prédio há um pequeno jardim, que cresceu graças à minha força de trabalho e a algumas situações rídiculas, porque as pessoas nunca acreditam que alguem faça alguma coisa por altruísmo,  ou porque pura e simplemente gostam de jardinar.

 

Não senhor, passei a ser o encarregado da câmara que trata dos jardins e vá de mandar bitaites, o senhor não quer varrer ali aquelas folhas, está tão feiínho, ou aquela árvore  precisa de poda e eu a ver se não me desmancho, assim talvez tenham alguma consideração pelo encarregado e não estraguem.

 

Bem, um dia (há sempre um dia) cheguei à rua e tinham-me roubado os jarros lindos que cresciam numa mancha de branco, que davam nas vistas, mas isto é como um pai que tem uma filha linda, sabe que um dia lha vão roubar, é a lei da vida e ainda bem que é assim, não se pode esconder.

 

Pior que estragado, torno a colocar a tabuleta " este jardim é seu, proteja-o" e vou até à Guerra Junqueira ver as "teens" enquanto almoço, e ler uma horinha ali debaixo do frondoso arvoredo quando, entre o barulho de conversas, ouço um tipo a gritar " um molho de jarros, um euro" e, aparece-me o facínora com os meus jarros a querer vender-me os meus jarros!

 

Não perdi a cabeça porque o preço, enfim, fazia juz à beleza dos jarros e além disso, não me ofereceu desconto…