O insustentável

Vila Nova de Gaia, Ponte do Infante. 28 de Agosto de 2018. Clique para ampliar.

Parece que Vila Nova de Gaia vai proximamente organizar (mais) um ”fórum internacional” sobre “desenvolvimento inteligente e sustentável”, chamado “Gaia, todo um mundo”. A imagem acima, a qual retrata uma das principais vias de acesso à cidade, a Ponte do Infante, tal como se encontrava a 28 de Agosto de 2018, representa tudo menos desenvolvimento, inteligência ou sustentabilidade. É, precisamente, o contrário disso tudo e o contrário do mundo em que, certamente, queremos viver. É desejável que o município tenha tempo para limpar a zona, antes de receber os seus ilustres convidados.

Os plásticos

Talvez alguns de vós se recordem de uma iniciativa do Governo, por volta do ano 2000 (Guterres era Primeiro-Ministro), na qual se aprovou legislação para proibir o uso de garrafas de água de plástico nos restaurantes. Por outro lado, continuava-se a permitir água em garrafas de plástico, desde que fosse para consumo fora dos restaurantes. O argumento para justificar a prerrogativa foi que, de outra forma, haveria grave prejuízo para alguns sectores económicos. Como se constata ao pedir uma água em 99.9% dos restaurantes portugueses (sim, há uma ou outra excepção), a lei em causa serviu para nada. [Read more…]

Stander

A Standard & Poor’s não deixou de ser aquilo que é – um lixo – só porque agora favorece o governo do partido em que votei.

Plastificados

As notícias são assim:

– Oceanos transformados em lixeiras: tapetes de lixo do tamanho da Europa Central flutuam à deriva na superfície marinha. 70 por cento do lixo que flutua nos oceanos é de plástico. Além de horríveis, estes tapetes de lixo são armadilhas mortais para os animais e perigosos para as pessoas.

– A nível mundial, anualmente um milhão de pássaros e 100.000 mamíferos marinhos sucumbem devido ao plástico nos oceanos. Os animais ficam enredados em restos de plástico, confundem os plásticos com alimentos e acabam por morrer à fome com o estômago cheio de lixo indigerível ou miseravelmente asfixiados.

– A continuarmos assim, em 2050 haverá no mar mais plásticos do que peixes.

– Andamos a temperar a comida com sal que contém microplásticos. Um estudo analisou 17 amostras de sal de mesa vendido em oito países (incluindo Portugal) e confirmou contaminação com microplásticos. Uma das três amostras portuguesas testadas atingiu o máximo observado com dez microplásticos por quilo de sal.  [Read more…]

Da Fitch, com amor

lixo

Mercenários norte-americanos mantêm rating da dívida portuguesa, naquele nível “lixo” a que já estávamos habituados no tempo do Passos. Nem nisto a Caranguejola conseguiu ser melhor que a Geringonça. É preciso ter azar!

Não é lixo, é a porcaria imediatamente antes

O regime lá arranjou uma agência que tirou o rating do balde e nos informou que sem bloco central não existe estabilidade. No mundo real, o rating – da dívida e do governo – mantêm-se no lixo.

Rating eleitoral: lixo

Passos

A organização terrorista financeira Fitch anunciou ontem a manutenção da classificação da dívida pública da portuguesa em BB+ (“lixo”), reiterando assim as avaliações de Abril e Outubro passadas. A agência norte-americana aponta baterias ao Tribunal Constitucional, ao desaceleramento da consolidação orçamental e ao incumprimento das metas do défice a que o governo se propôs. Por muito que insista no milagre económico português, invisível para o português comum que continua a emigrar, a não encontrar emprego e a suportar uma carga fiscal brutal, o governo não consegue obter a benção das instituições que tanto venera e estima, apesar da clara articulação com as mesmas.

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Funcionários Públicos

Uns são honestos, outros nem tanto

Só por milagre

Convenhamos que a escola é muita: engravidar uma virgem e fazer um carpinteiro assumir a paternidade, patrocinar um Salvador e assim lançar uma religião mundial, não é obra para qualquer um.

Vem isto a propósito da “novela BES”, onde fico a pensar se não deveria ser legal, pegar numa qualquer empresa (uma carpintaria, por exemplo) que foi levada à ruína por gestão danosa, abrir uma outra empresa, passar para esta máquinas, trabalhadores, créditos cobráveis, inventário, património, saldos bancários, encomendas e demais activos, e deixar na empresa falida tudo quanto é dívida vencida, crédito de difícil cobrança, prejuízos, negócios de risco e outros sacos do lixo?

Depois, reflectindo melhor, concluo que não, pois teríamos sempre de estar perante a obra e graça do Espírito Santo, ou seja só por milagre.

Incluirá o lixo onde a S&P nos colocou?

Negócios do lixo: uma
privatização que se
transformou numa guerra

A cor da rosa

Não sei que diga. Agora temos mais uma novela para encher páginas de jornal e minutos de televisão: Bárbara & Carrilho.

Por estes dias nem quem não queira se livra. Já o escrevi no passado sobre um político cujas fotografias em família vi espalhadas por uma revista. Quem convida para dentro de casa certo jornalismo, acaba na cama com ele. Bárbara & Carrilho, Carrilho & Bárbara foram disso um bom exemplo.

São disso um bom exemplo.

 

Croniquetas de Maputo: o lixo e a chuva

Uma das primeiras coisas que nos assalta os sentidos, em Maputo, é o lixo. A visão do lixo, o cheiro do lixo, o cuidado com o lugar onde se põe o pé. A cidade não está preparada para lidar com o lixo que produz, a política de recolha e transformação é quase inexistente, os raros contentores parecem ter sobrevivido em mau estado a campanhas sucessivas no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, nos campos de treino de uma escola para bombistas, amolgados, retorcidos, a tombar para os lados. Servem como mera indicação de uma zona geográfica em volta da qual se acumulam quantidades enormes de lixo. Não é raro, de dia ou de noite, encontrar lixo a arder, contentores em chamas, fumo negro toldando pequenas zonas da cidade. Outras vezes sentimo-lo à distância pelo cheiro de mil e uma coisas diferentes em combustão simultânea.

Em alguns locais, em algumas ruas, o lixo vai-se acumulando sobre o lixo, pessoas e automóveis pisam-no e compactam-no, nivelam-no, entupindo escoadores e valetas, tapando buracos aqui e ali. Os pobres dos pouquíssimos trabalhadores dos serviços de recolha, desprovidos de meios, acompanham camiões de lixo que há muito deixaram de ser basculantes, colocam um lençol de plástico no chão e vão empilhando lixo sobre ele, depois levantam-no, balançam-no uma, duas, três vezes e upa,  [Read more…]

“A Dinastia do Poder em Braga”

Finda a monarquia em 1910, eis que se alevanta em Braga uma nova legião do Senatus Populsque Romanus.
Em Braga é assim. Até a Polícia Municipal cumpre as leis que interessa cumprir…

Dúvida neoliberal

Ao ler o título do texto do nosso JJC, uma dúvida assaltou o meu espírito: se o povo afirma que “quem dá aos pobres empresta a Deus”, não seria melhor suspender a caridade para não se correr o risco de um dia mais tarde as agências de notação finaceira classificarem as contas de Nosso Senhor como lixo?

…e quem cria o lixo?

Moody’s, amor com amor se paga

Obrigado Moody’s

LixoTenho ouvido cobras e lagartos por causa da Moody´s ter classificado a dívida portuguesa como lixo mas acho que estão todos errados e não vislumbram o bem que empresa fez à nação. Em primeiro lugar, o lixo deita-se fora ou recicla-se, levando a que algo incomodo deixe de chatear, ou até seja transformado em algo útil. Temos assim legitimidade para fazer desaparecer o buraco das nossas contas, algo que os governos anteriores procuraram fazer com os habituais truques de contabilidade mas sem que lhes fosse reconhecida legitimidade para tal. Agora, se um estrangeiro nos diz que podemos chapar fora este lixo, então é porque tal se pode de facto fazer.

Em segundo lugar, todos nós sabemos que quanto mais alto se está, maior será a queda. Ora bem, em Fevereiro (sim, há cinco meses apenas) o nosso governo fartou-se de gabar o excelente estado das contas públicas, que até tinham um excedente orçamental, e foi o que se viu. Sempre a piorarmos, sempre em queda. Agora a Moody´s veio dizer que estamos no lixo, que batemos no fundo, pelo que, a partir daqui, será sempre a subir. Só boas notícias para animar esses medrosos dos mercados, da bolsa e dos investidores.

Vá, agradeçam a quem nos ajuda, vá lá.

A dívida pública e o lixo. Pensam o quê?

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pensam o quê?!…

Lixo? é o mercado, estúpidos!

A nossa dívida chegou a lixo. Custou mas foi.

Ora aqui está um belo dia para recordar aos eufóricos absolutistas do neo-liberalismo que tudo começou com os mercados, a liberdade dos mercados, a sacrossanta ditadura dos mercados.

Este artigo da wikipédia, incompleto e fraquinho, serve perfeitamente.

Não, não foi o “socialismo” (palavra que associada ao PS vale tanto como ligar PSD a social-democracia), nem o estado gastador, nem o raio que vos parta. Foi a especulação financeira, a ganância, a ditadura dos mercados sem qualquer controlo por parte dos governos que deveriam representar os povos.

Foram a Moody´s e restantes agências pagas por nós a preço de ouro, que não quiseram chamar lixo ao lixo, e agora inventam lixo onde nem o há com a única e obsessiva ideia de aumentar taxas de juro, logo os lucros do sistema financeiro, em particular dos bancos que tentam recuperar dos seus disparates de 2008-2009.

O resto é conversa, tal como o novo governo a fazer de coitadinho. Conversa de merda, que nem de treta merece o nome.

comida de lixo

caixote de lixo

A indignidade causada ao povo, pelos depositários da nossa Soberania.   

COMIDA DE LIXO

É um caixote de lixo. É o prato desses que nada têm para comer. É o sítio onde todo o povo que não tem dinheiro procura a sua alimentação, pessoas que, ainda que tivessem alimentos, não têm dispensas onde os guardar. É o caixote de lixo. O armário do desamparado. Comida podre que ajuda a manter a vida em solidariedade com os solitários sem trabalho, sem amparo, sem cunha para procurar alternativas de criar bens ou lugares para trabalhar e ganhar a sua vida. Lugares tão divididos entre a população, que ninguém tem oportunidade de uma vaga para laborar. [Read more…]

Freios, porcos e maus

( Pormenor - adao cruz)

(Estive fora e depois de regressar adoeci. Por isso, esta ausência do Aventar. Peço desculpa de preencher o vazio ( ou talvez não), com um texto que não é meu. Nestes tempos um tanto conturbados, dentro e fora do Aventar, em que vêm à tona, com muita facilidade, valores e desvalores, eu penso que este texto do Marcos Cruz pode ser interessante).

Freios, Porcos e Maus

Devia haver um Dia Mundial do Desenfreado (pela piada fonética, até merecia ser feriado), em que todos despejássemos indiscriminadamente o que trazemos dentro, o lixo orgânico e anímico no mesmo saco, no saco do Dia. Eu, cá por mim, vou fazer de conta que é hoje e, daqui para a frente, o que este texto contiver já terá de ser lido à luz dessa ausência de critério. Normalmente, o que me acontece é pegar numa ideia mínima e desenrolá-la, como se faz à massa de rissóis. Só que depois não vou lá com os copos, aliás, se lá fosse com os copos não escreveria nada de jeito, ou às tantas até era assim que arranjava maneira de o fazer, pois quem sabe se as minhas coisas são ou não de jeito é quem as lê, incluindo eu quando assumo esse papel. Nesta última frase, confesso já, quebrei as regras, porque onde escrevi “assumo esse papel” pensei antes escrever “o faço”, mas como tinha escrito, um pouco acima, “arranjava maneira de o fazer”, achei melhor não repetir o verbo. Mas continuemos: não vou lá com os copos, em vez disso junto a massa toda e chapo-a no blogue, menos bruta, concerteza, mais espalmada, mas para vocês fazerem dela o que quiserem. Porque é que me sai das mãos, ou do rolo, menos bruta do que a ele chegou, eis a questão. Em todo o caso, é uma questão que hoje, por ser, para mim, Dia Mundial do Desenfreado, não poderei explorar, ou melhor, poder explorar até posso, mas não poderei esclarecer, porque não garanto coerência ou consistência na abordagem, ou então não seria Dia Mundial do Desenfreado e sim Dia do Freio, a que levanto desde já o dedo do meio, porque esse é todos os dias. [Read more…]

Desilusão

(adao cruz)

 (Dedicado ao Joaquim Quicola, amigo que eu sei que me entende) 

Desilusão

Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso. Minha voz de gravador que outros ouvem, só eu não, tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor, invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino, destino essencial, quem subia ou descia, afinal…era eu.

Nos gestos por dentro, nos jardins de contraste da natureza fecunda, no penoso brio de um curriculum lavrado na areia, meti as mãos na areia e palpei o futuro.

Palpei a filosofia dos cadáveres, e em febril pulsação, espremi a vida dentro de uma mão cheia.

Enchi de virilidade a cidade, a cidade e o lixo, o lixo e o luxo, a luz e eu.

No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo, feito de tempo gasto e de nojo.

Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso, que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.

A verdade era uma mesa, a vida os dados, e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.

Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe, não há sim nem não entre passado e presente, e o futuro é o deserto que temos à frente.

Neste chão de lama, na ejaculação abortada, nos restos de orgia da orgia de restos, em ritmo de coração moribundo, sobra o tremor da carne adormecida.

A arte, o sonho, a verdade, o viço e a cor perderam o brilho, e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.

As Putas

(adao cruz)

(Texto de Marcos Cruz)

(Não deixem de ler. Eu próprio fiquei impressionado)

AS PUTAS

Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. [Read more…]

A parvoíce da esperteza saloia e o lixo

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No aproveitar é que está o ganho, reza uma daquelas velhas máximas herdeiras da sabedoria popular. Por este prisma, e porque estamos em Portugal, uma das pátrias do improviso, até nem espanta que uma empresa com licença de gestão ambiental tenha feito uma descarga de 10 toneladas de lixo, mesmo em vésperas da operação "Limpar Portugal".

O Público conta que a descarga de esponja, utilizada na criação de bancos para automóveis, aconteceu nas serras da Freita e de Mansores, no concelho de Arouca. Um crime ambiental, pois, que já levou a duas queixas no Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente da GNR.

A presidente da empresa admitiu a descarga das 10 toneladas de resíduos. Não sei se disse mas é claro que foi uma forma de aproveitar a acção "Limpar Portugal" para se desembaraçar de dez toneladas de lixo sem grande esforço. Nós sujamos, os outros parvos que limpem, terá pensado a nobel senhora, do alto da sua grandiosa parvoíce.

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A máquina do tempo: lixo televisivo e lixo político?

 

Definamos telelixo, palavra que tenho utilizado, mas que (ainda) não vem nos dicionários. Diria talvez assim:

 

«Telelixo, s. m. – Forma de fazer televisão que se caracteriza por explorar a morbidez, o escândalo, os crimes, os aspectos mais sórdidos da natureza humana, tais como o sensacionalismo e outras aberrações, utilizando-as como instrumentos do aumento de audiências. O telelixo caracteriza-se ainda pelos temas que aborda, pelas personagens que coloca em primeiro plano, pela visão distorcida a que recorre para tratar esses temas e personagens.»

 

Um recente caso ocorrido num canal privado de televisão traz, quanto a mim, ao primeiro plano da actualidade nacional a questão do telelixo, pois reúne tudo o que de nocivo existe naquele conceito tabloidizado de informação e, a ser verdade o que consta sobre a causa próxima subjacente, põe a nu a fragilidade moral das estruturas do poder no nosso País. Lixo televisivo, eventualmente misturado com lixo político. Uma mistura explosiva.

*

  Todos estão ao corrente – uma jornalista foi suspensa das suas funções, facto que provocou indignação e mobilizou a solidariedade de alguns colegas de profissão e de consideráveis sectores de opinião. Diz-se que essa suspensão teria sido motivada pelo facto de se preparar para denunciar ilegalidades cometidas por uma alta figura da política. Se foi esse o motivo é de facto intolerável em regime democrático, pois configura uma acção censória ao mais puro estilo salazarento.

 

Porém, a tal senhora foi, ao longo da carreira, uma activa promotora de telelixo, realizando entrevistas sob o figurino de julgamento sumário, em que as perguntas continham já a resposta condenatória. O que se diz na definição do conceito de telelixo, acrescentando-lhe um desprezo absoluto pelo respeito devido às pessoas, pela veracidade e pela presunção de inocência, se aplica à dita senhora que, além da capa da «liberdade de expressão» se defende também com um falso conceito de «saudável agressividade».

 

Esta prática continuada de um jornalismo prostituído, ainda mais agrava a suspeitada intervenção política – fazendo há anos a senhora este tipo de jornalismo marginal a qualquer código deontológico, só foram tomadas medidas quando uma pessoa politicamente importante foi atingida. Enfim, repito, se foi despedida por lesar interesses obscuros de uma alta personalidade, isso é condenável. No entanto, deveria há muito ter sido despedida em nome do código deontológico da carreira jornalística. Em suma, estamos aqui perante três casos não miscíveis:

 

1 – Por um lado deveria averiguar-se se existiram pressões políticas sobre a administração da empresa para a despedir. Se as houve, deveria ir-se até às últimas consequências – a demissão do político em causa. Não podemos aceitar que, 35 anos depois de Abril, se silencie quem, com razão ou sem ela, incomoda o poder.

 

2 – Por outro, há muito que a senhora deveria ter sido sancionada, irradiada, pela sua organização de classe. É uma má jornalista, que envergonha os profissionais dignos desse nome.

 

3 – Finalmente, a estação em questão há muito também que deveria ter sido proibida pelo organismo competente, a ERC, de exibir conteúdos que configuram todas as formas possíveis de telelixo do mais tóxico. Por pressões factuais ou tentando evitá-las, tomou tardiamente e pelas piores razões uma medida que há muito se impunha. Umas coisas não desculpam as outras. A eventual pressão política, sendo extremamente condenável, não pode servir para branquear a recorrente desonestidade da jornalista e o tardio despedimento desta não iliba a administração da empresa das suas responsabilidades na contínua emissão de programas lesivos da saúde cultural e social do País.

 

Lixo cultural, lixo empresarial, lixo político – há aqui muita sujidade a limpar. Não continuemos a esconder este lixo sob o tapete do nosso comodismo e da abdicação dos nossos mais elementares direitos de cidadania.

 

*

 

Em Espanha onde, pelos vistos, as coisas não vão melhor, circula um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo. Assumindo-se como uma «Plataforma para uma televisão de qualidade», é apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, pela União Geral de Trabalhadores, pelas «Comisiones Obreras», pela Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, pela União dos Consumidores de Espanha e pela Confederação das Associações de Moradores de Espanha.

 

Muito do que aqui digo a seguir, não sendo uma tradução literal, foi inspirado naquele manifesto. E não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Enfim, teria de ser uma amplo movimento de opinião dirigido, sobretudo, aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.

 

*

O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa. Sob uma hipócrita aparência de preocupação e denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos.

 

O telelixo, conta também, com uma série de ingredientes básicos que o transformam num factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo para o desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.

 

O reducionismo, com explicações simplistas dos assuntos mais complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.

 

A demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros de verdadeiros debates, entrevistas e inquéritos, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo».

 

A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos dir
ei
tos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão». Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que na realidade provêm de «convidados profissionais».

 

E, claro, na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, cujas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista, são outro dos ingredientes deste molho infecto. O problema é ainda mais pungente quando este tipo de conteúdos são difundidos através do canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes. O telelixo nada inventou: a lisonja fácil ao espectador, o gosto pelo sensacionalismo, vêm muito de trás. Porém, na actualidade, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas, aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens.

 

O telelixo encontra-se num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.

 

*

Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País. Num próximo texto esboçarei um manifesto para cujo aperfeiçoamento solicito a ajuda de quantos estejam de acordo em que é preciso fazer alguma coisa para que a televisão, factor tão importante de informação, cultura, entretenimento, mude em Portugal.

 

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