Fim de semana de calor

But there is no [i]skin.
Kiko Loureiro

Music has its written language, but it’s audio.
Steve Vai

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Durante toda a semana, esteve calor em Portugal. Foi semana de calor. E essa semana de calor terminou. Acabou-se o calor. Doravante, durante os próximos dias, provavelmente, estará frio em Portugal. Por isso, temos o título deste texto e, mais importante, deste oráculo:

Obviamente, dir-me-ão, trata-se do fim-de-semana. Não é uma semana de calor que termina, é um fim-de-semana com calor que começa ou se prevê. Então, se tão obviamente se trata de um fim-de-semana com hífenes, por que motivo lhos tiraram? Como já explicou António Emiliano, fim-de-semana não é o fim da semana e um bicho-de-sete-cabeças não é um bicho com sete cabeças.

É escusado perguntarmos o motivo de tal supressão a quem assinou de cruz o Acordo Ortográfico de 1990. Ainda nos respondiam com algo de semelhante a:

Fim-de-semana passa a fim de semana, porque agora facto é igual a fato (de roupa).

Continuação de um fim-de-semana com hífenes e votos de óptima saúde.

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As interacções, as interações, as iterações e as iteracoes

People like to say: “knowledge grows exponentially”. But they probably haven’t thought about what an exponent is.
John Searle

Septemberabend; traurig tönen die dunklen Rufe der Hirten
Durch das dämmernde Dorf; Feuer sprüht in der Schmiede.
Georg Trakl

I’ve experimented ad nauseam to find the right tone.
Steve Vai

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Há cerca de dez anos, enquanto escrevia este artigo (pp. 97-108), um caso muito concreto que bem lá no fundo me incomodava, no meio do pandemónio geral da aniquilação da letra ‘c’ nas palavras terminadas em -acção, era o processo sofrido pela palavra interacção, em interacçãointeracçãointeração. Porquê? Por causa da existência da palavra iteração. Por exemplo, a iteração do PPC ou a iteração de que vive a “poeticidade minimalista de Trakl“. Convém lembrar que entre os negociadores do AO90 se encontravam professores de Linguística e professores de Literatura (embora alguns com funções meramente administrativas, como a de “difundir o texto“). Ou seja, num caso e no outro, indivíduos cientes quer da existência quer do significado da palavra iteração.

Efectivamente, depois do AO90, temos duas palavras (interação e iteração) reduzidas à distância entre uma vogal oral e uma vogal nasal. Com efeito, sem AO90, a quantidade de distâncias entre iteração e interacção era maior: à da entre vogal oral e vogal nasal, acrescentava-se a da entre vogal oral central média baixa [ɐ] e vogal oral central baixa [a]. É sabido que interação mais não pode ser do que uma espécie de repetição ainda mais nasal, ou seja, uma iteração com monotongo inicial nasal (o ditongo nasal final, note-se, embora sem grande relevância para este ensaio, é comum a todas estas formas).

Há dias, recebi esta mensagem no telemóvel português: [Read more…]

Os fatos unidos jamais serão vencidos

Driver: Where to, sir? Où désirez-vous aller?
Prisoner: Take me to the nearest town.
Driver: Oh, we’re only the local service.
Prisoner: Take me as far as you can. Why did you speak to me in French?
Driver: French is international.
The Prisoner (1)

And you can find that. And you’ll know it. You’ll just know. Dah dah dah. If you’re connected with your inner ear. Otherwise you’re meandering nowhere.
Steve Vai

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Efectivamente, em vez de tergiversarmos, convém centrarmo-nos naquilo que é importante.

Apresentado o exemplo, resta-nos esperar que os proponentes resolvam rapidamente esta confusão.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Nótula: Agradeço o titulo ao leitor POIS!.

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