Há a possibilidade de ser tudo ao contrário do que pensamos

Depois de vários anos em que o Estado tem sido visto como um recurso ou como um trampolim e nunca como uma responsabilidade, chegou, finalmente, ao poder um grupo de pessoas que assumiu, de modo quase indisfarçado, a função de comissão liquidatária de um país. Para que as contas tivessem chegado ao ponto a que chegaram, foi necessário o contributo, por acção e por omissão, de muitos, ao longo de cerca de trinta anos, ao ponto de não ser difícil imaginar uma conspiração em que muitos privados poderosos terão conseguido, pacientemente, conduzir os negócios públicos, de modo a que possam, agora, apropriar-se deles sem sequer ser necessário gastar muito dinheiro, como se pode ver no caso BPN ou como se pode confirmar nas palavras de um primeiro-ministro que, em plena televisão, afirma que há empresas públicas que terão de ser vendidas nem que seja por um euro, o que configura uma posição negocial fortíssima.

Com um povo desinformado, intoxicado por uma comunicação social que serve para propagar o pensamento único da troika, já preexistente e agora transformado em religião, a tarefa da comissão liquidatária está facilitada. Basta ver como, nas entrevistas de rua e nos inúmeros programas que permitem a todos dar opiniões, todos reproduzem, sem pensar, frases como “gastámos acima das nossas possibilidades” e “a austeridade é necessária”, como se a austeridade alguma vez tivesse sido desnecessária. [Read more…]

E haverá interesse nacional?

Passos diz que “há muito interesse francês no processo” das privatizações

D. João II, o Príncipe Perfeito, terá declarado, acerca do reinado de seu pai, Afonso V, que este o deixou dono das estradas de Portugal, tais foram os favores com teria cumulado a aristocracia. D. Afonso V terá sido, portanto, um cultor do Estado mínimo, avant la lettre. Para corrigir aquilo que considerou erros macroeconomicopolíticos do pai, D. João chegou ao ponto de esfaquear um cunhado, entre outras medidas pouco simpáticas.

Os afonsos que nos governam já venderam as estradas e andam pelo mundo a oferecer o resto. Quando acabarem, o Estado será uma coisa tão mínima que acabará por fazer as delícias de todos os que sonham em viver num protectorado. Cá estaremos todos, à espera que os alemães ou os franceses façam o pedido que comunicaremos, pressurosos, às cozinhas. Que, ao menos, a gorjeta valha a pena.