Há a possibilidade de ser tudo ao contrário do que pensamos

Depois de vários anos em que o Estado tem sido visto como um recurso ou como um trampolim e nunca como uma responsabilidade, chegou, finalmente, ao poder um grupo de pessoas que assumiu, de modo quase indisfarçado, a função de comissão liquidatária de um país. Para que as contas tivessem chegado ao ponto a que chegaram, foi necessário o contributo, por acção e por omissão, de muitos, ao longo de cerca de trinta anos, ao ponto de não ser difícil imaginar uma conspiração em que muitos privados poderosos terão conseguido, pacientemente, conduzir os negócios públicos, de modo a que possam, agora, apropriar-se deles sem sequer ser necessário gastar muito dinheiro, como se pode ver no caso BPN ou como se pode confirmar nas palavras de um primeiro-ministro que, em plena televisão, afirma que há empresas públicas que terão de ser vendidas nem que seja por um euro, o que configura uma posição negocial fortíssima.

Com um povo desinformado, intoxicado por uma comunicação social que serve para propagar o pensamento único da troika, já preexistente e agora transformado em religião, a tarefa da comissão liquidatária está facilitada. Basta ver como, nas entrevistas de rua e nos inúmeros programas que permitem a todos dar opiniões, todos reproduzem, sem pensar, frases como “gastámos acima das nossas possibilidades” e “a austeridade é necessária”, como se a austeridade alguma vez tivesse sido desnecessária.

No que respeita à Educação, este governo, tal como os anteriores, não se preocupa minimamente com a qualidade do serviço. O problema está sempre na quantidade e, na senda iniciada por José Sócrates, a comissão liquidatária prossegue o desinvestimento, que é outra maneira de o Estado se desresponsabilizar da Educação.

A Direita vive deslumbrada com tudo o que se faz nos Estados Unidos, alegadamente a pátria da valorização da liberdade individual, em que há uma quantidade infindável de gente obcecada com o perigo de o Estado intervir na vida das pessoas. É nos Estados Unidos que vive uma quantidade de idiotas que pensa que a Saúde é algo que só deve estar ao alcance dos ricos; é, também, nos Estados Unidos que a liberdade de ensinar chega ao ponto de haver escolas que se sentem no direito de ensinar aos jovens o Criacionismo, entre outras perversões.

Sentindo-se livre de peias, usando, de modo simplista, os erros da governação a que chamam socialista, para que se fique com a ideia de que os problemas nasceram pela aplicação de ideias esquerdistas, a comissão liquidatária do país está em vias de introduzir em Portugal a “liberdade de escolha”, criando uma ilusão só comparável à da omnipresença do Estado.

A Escola, na Democracia portuguesa, não chegou tão longe como devia, tendo permitido, apenas ou sobretudo, que houvesse mais jovens a ter acesso ao Ensino. As explicações para isso são sempre simplistas e, do ponto de vista do poder, têm encontrado nos professores o bode expiatório por excelência. A opinião pública não sabe e não quer saber se tem havido um excesso de experimentalismo, se tem havido uma avalanche de leis contraditórias ou se as escolas são controladas por uma série de burocratas incompetentes que se fecham em gabinetes e em conferências universitárias.

Num país em que fosse habitual debater e pensar, a ideia da “liberdade de escolha” poderia e deveria constituir um dado importante na discussão sobre um modelo de Educação. Em Portugal, pátria da corrupção legalizada e da preguiça de pensar, servirá para alimentar os privados, em cujas estruturas estão e estarão antigos governantes.

Diante de tudo isto, desta seita que faz de conta que acredita na livre iniciativa e na auto-regulação dos mercados, seria importante que, no mínimo, os cidadãos se inspirassem na frase de João Magueijo: “Há a possibilidade de ser tudo ao contrário do que pensamos.”