Está tudo bem

Por vezes, penso que os consultórios médicos deveriam contar também com técnicos hipocondríacos. Chegaríamos com uma pontada no lado direito do abdómen, e ainda antes de o doutor Costa nos abrir a porta do consultório com um sorriso paciente e jamais trocista, passaríamos pela sala do senhor Oliveira, que nos ouviria de olhos esbugalhados e testa toda franzida e perceberia logo que ui, essa zona quando dói é sinal que a coisa já está bastante mal, isso não me cheira nada bem, aí tanto pode ser o fígado, que é um problema, até porque um transplante pode demorar cinco ou seis anos, e sabe que fígados não caem do céu, como também pode ser do pâncreas, que anda a matar muita gente, olhe ainda há pouco foi aquele actor, o homem-elefante, aquilo quando se dá por ela já a pessoa está condenada, como também pode ser um tumor na vesícula, que até é raro mas tem uma taxa de mortalidade brutal, é que é mesmo brutal. [Read more…]

Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]