Está tudo bem

Por vezes, penso que os consultórios médicos deveriam contar também com técnicos hipocondríacos. Chegaríamos com uma pontada no lado direito do abdómen, e ainda antes de o doutor Costa nos abrir a porta do consultório com um sorriso paciente e jamais trocista, passaríamos pela sala do senhor Oliveira, que nos ouviria de olhos esbugalhados e testa toda franzida e perceberia logo que ui, essa zona quando dói é sinal que a coisa já está bastante mal, isso não me cheira nada bem, aí tanto pode ser o fígado, que é um problema, até porque um transplante pode demorar cinco ou seis anos, e sabe que fígados não caem do céu, como também pode ser do pâncreas, que anda a matar muita gente, olhe ainda há pouco foi aquele actor, o homem-elefante, aquilo quando se dá por ela já a pessoa está condenada, como também pode ser um tumor na vesícula, que até é raro mas tem uma taxa de mortalidade brutal, é que é mesmo brutal.

E tão revitalizados ficaríamos que, quando fossemos chamados para o consultório do médico, já só desejaríamos fugir, enfim curados, restabelecidos de todas as maleitas. Porque aquilo que deveras atormenta um hipocondríaco é que lhe digam que está tudo bem e lhe neguem o esconjuro de narrar os seus possíveis males, tal como as crianças recontam os monstros que podem estar debaixo da cama. Nunca está tudo bem.

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