
Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.
Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.
Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]






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