Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]

Mania da perseguição

A verdade é que a história começara antes, mas, para não complicar, digamos que tudo começou no dia em que me cruzei com ele no Capa Negra. Quem não é de cá não saberá, mas a gente vai ao Capa Negra quando quer iludir-se com a ideia infundada de que vive numa cidade cosmopolita e que é possível ir jantar à hora que nos apetece.

A única mesa livre era junto aos aquários e eu sentei-me ao lado dos lavagantes, que espreitaram toda a refeição com os seus olhos redondos, que mais parecem botões aproveitados de um casaco velho, e fazendo vibrar as antenas finíssimas e curvas ao ritmo das nossas vozes. Sinto um frio no estômago de cada vez que vejo estas criaturas, e por isso me foi tão penoso aguentar toda a refeição sentindo-as ali ao lado, a flutuar no seu limbo silencioso. Nem me atrevia a olhá-las para não alvoroçar essa minha fobia que facilmente se poderia transformar em pânico. [Read more…]

Desabafos

Se há coisa que não suporto são snobes intelectuais. Não gosto de pessoas convencidas no geral, mas as pessoas convencidas que depois acham que são intelectuais é uma coisa que me chateia especialmente.

Nunca na vida me consideraria "intelectual", muito menos aos 16 anos. E sinceramente, não é algo que espere vir a considerar-me. Eu esforço-me por ler de tudo, ver de tudo, e ouvir quase tudo. Não tenho problemas nenhuns em ter na mesa de cabeceira Proust, Gore Vidal, Evelyn Waugh, ou Anthony Trollope, e ao mesmo tempo, ter o Harry Potter, Dan Brown e aquilo a que hoje em dia chamamos literatura light. É um facto que o meu livro preferido é um do Garcia Marquez e não o "Diabo veste prada", mas isso não quer dizer que eu não o tenha lido; nem que seja para dizer que não gostei.  E também é um facto que quando saíram os últimos três livros do Harry Potter eu estive na livraria à meia noite. Atenção: não estou a dizer que não suporto pessoas que não gostam de determinado tipo de livro, ou filme ou música. Se eu não gosto de rap não ouço, ou se não gosto de ficção cientifica não vou ler livros sobre isso. Mas rejeitar algo à partida porque não parece intelectual, ou inteligente ou erudito, é algo que me irrita. E irrita-me ainda mais a superioridade com que essas pessoas olham para os restantes. Já avisei quem de direito: se algum dia me tornar assim têm autorização para me dar um estalo.