Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]

Zelig

A história de Leonard Zelig, o homem-camaleão que consegue transformar a sua aparência na das pessoas à sua volta, é Woody Allen no seu melhor.

Ficha IMDB. Legendado em português.

Para o porto, para tudo?

Claro que não. Felizmente, o AO90 não está em vigor.

manif

A propósito, graças a João Roque Dias, soube desta notícia *eletrizante (trata-se de fenómeno que, infelizmente, já conhecemos).

General Eletric

Na passada terça-feira, como andava por aquelas bandas, ainda fui a tempo de passar pela Lexington, a caminho das Nações Unidas, para verificar se tudo estava como dantes.

Lexington

Sim, estava.

No dia seguinte, apanhei um comboio para o Connecticut (sim, com <nn> e -ct-, claro). A que propósito veio agora à baila o Connecticut? Obviamente, devido à sequência -ct- e, menos obviamente, por causa de um postal que comprei na tabacaria da estação de New Haven e sobre o qual escreverei umas linhas, na próxima oportunidade.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

Diálogo de Woody Allen com os seus dois clientes portugueses a propósito de um filme sobre um sítio

(com palavras roubadas à obra do próprio Woody e, para nossa desgraça, às declarações do político português)

ou LUSITANA LOUCURA ou O ARTISTA E OS BIMBOS

“Nunca!” – gritou Luís Filipe Meneses, ao saber que Paulo Portas queria encomendar a Woody Allenn um filme sobre Lisboa. “Isso é uma manifestação intolerável de centralismo! O filme deve ser sobre o Porto e, digo mais, sobre o Douro, Braga e Guimarães e talvez outras cidades médias do Norte.”

Visto isto, o candidato à Câmara do Porto avisou o mundo sobre a sua intenção de se dirigir a Nova Iorque e tentar dissuadir o cineasta de aceitar a oferta do vice-primeiro português aprovando, em seu lugar, a sua. Informado, Woody Allenn lembrou que “a vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema” e, ao saber quem o procuraria, resolveu esconder-se desabafando: “a única coisa que lamento na vida é não ser outra pessoa”.

Localizado pelo telefone e ouvindo os planos do portuense, desencadeou uma crise de hipocondria e, rindo histericamente, lá foi respondendo “se quiseres fazer Deus rir, conta-lhe os teus planos” e, desligando o telefone, sentenciou: “mas que mundo este. Poderia ser maravilhoso se não fossem certas pessoas”. Mas Allenn subestimou o empenho dos dois candidatos a mecenas. Assim, foi surpreendido por ambos – sim, por ambos – à saída de um dos seus concertos noturnos de clarinete, num bar da sua cidade.

Esbugalhando os olhos, descobriu ali que “a vida divide-se entre o horrível e o miserável!”. Mas não podia fugir. Ouviu, pois, em estado pré-cataléptico, os dois visitantes, que se atropelavam nos seus lamentáveis argumentos. Com a ajuda de músicos amigos, lá conseguiu ir-se afastando, murmurando garantias de que ia pensar no assunto.

Chegado à segurança morna do lar, encostou a cabeça no regaço da companheira e, entre nervosos soluços, lá foi explicando: “apesar de tudo, há coisas piores que a morte. Se alguma vez passaste a noite com dois políticos de direita portugueses (vendedores de seguros, no original), então sabes do que estou a falar (…) quero voltar para o útero; qualquer útero (…) porque não fala Deus comigo? Se, ao menos, ele tossisse!”.

woodyallen

Cassino Royale (1967)

Um James Bond muito especial baseado no primeiro livro de Ian Fleming, e que dedico  à espionagem portuguesa para que aprenda esta preciosa lição: “de agora em diante, todos os agentes serão chamados de James Bond, incluindo as miúdas.

Realizado por Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath, Robert Parrish e Richard Talmadge, com Peter Sellers, Ursula Andress, David Niven, Orson Welles, Woody Allen, Deborah Kerr, Jean-Paul Belmondo e Richard Burton.

Legendado, Ficha IMDB

Excelentíssimos professores doutores

Lembram-se de “Annie Hall”? Da cena da fila no cinema? Um tipo está a debitar uma série de opiniões despectivas sobre Fellini, Beckett, Marshall Mcluhan, etc, para grande desespero do Woody Allen, que se indigna com o que vai ouvindo.

Quando já não aguenta mais, Woody interpela-nos, a nós, espectadores, sobre o que fazer numa situação destas. O tipo ouve-o, vem pedir-lhe explicações, e acaba a gabar-se de leccionar a cadeira de “TV, Media e Cultura” na Universidade de Columbia para justificar as suas opiniões sobre McLuhan.

Perante isto, Woody vai buscar o próprio McLuhan, que, pasme-se, estava ali mesmo, para que ele diga, na cara do opinador, que ele não entendeu nada sobre o seu pensamento e que não percebe como é possível que tal pessoa possa leccionar essa matéria. Desabafa Woody para a câmara: “Se a vida real fosse assim…”. Vale a pena rever esse excerto, embora infelizmente sem legendagem em português:

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Tudo deu quase certo no novo filme de Woody Allen

É Larry David que vemos quando vemos “Tudo pode dar certo” (título que não faz jus ao original ‘Whatever works’). É o autor e actor de Curb your Enthusiasm e argumentista de Seinfeld que nos surge, ao fim de uns minutos, a olhar para nós e a conversar, de forma unidireccional, connosco. Em concreto não é uma conversa. É ele que nos interpela, incluindo àqueles que comem pipocas de boca aberta. É a voz dele. Mas, na verdade, quem ali está é Woody Allen. É o realizador e argumentista do filme que é o nosso verdadeiro interlocutor.

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É Larry David que surge mas é Allen que fala connosco. O estilo, os tiques, a postura, os gestos são de David. O discurso, as palavras e as histórias da película são do realizador de “Manhattan”. E ainda bem que Allen preferiu não protagonizar a fita, deixando ao comediante radical a tarefa de desempenhar um homem complexado, paranóico e com tendências suicidas. Um homem que “quase ganhou o Nobel da Física” e que ganha a vida a ensinar crianças a jogar xadrez mas a quem trata mal. Muito mal. Um homem sarcástico, que canta os parabéns a você enquanto lava as mãos e sofre de pesadelos.

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O youtube do humor

Nunca tivemos à mão tantos e tão eficazes antídotos para os dias cinzentos. Para cada estado de espírito de tendência depressiva, o seu particular remédio.

A pílula nonsense:

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Para acabar de vez com o Natal

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Há uns anos atrás, Woody Allen escrevia um divertido “Para acabar de vez com a cultura” (tradução muito livre de “Getting Even”). Tivesse eu artes de escrita ao nível do cineasta, e idêntica capacidade cómica, e avançava já com um belo libelo: “Para acabar de vez com o Natal!”.

Há quem advogue que esta é mais linda, animada, ternurenta, espiritual e solidária época do ano, repleta de paz e amor. Por mim, sempre a considero a mais hipócrita, irresponsável, favorecedora do instinto consumista e stressante. São menos estas definições negativas do sentimento natalício que as positivas, é certo, mas são mais que suficientes para caracterizar uma época em que uma parte da população age de modo particularmente imbecil.

Por exemplo. A ideia de ajudar os mais pobres nesta temporada, ‘porque é Natal’, soa, em absoluto, ridícula. Os pobres e desfavorecidos não precisam de apoio ou ajuda no resto do ano? Para a maior parte, pelos vistos, não. Durante 360 dias, vá lá, que se safem como podem, esses malandros que não querem trabalhar mas viver de subsídios às nossas custas e uma parte gasta tudo em vinho. Nos restantes cinco dias, temos de ser solidários e ajuda-los, coitados, a vida está dura para todos e eles não têm tido sorte. E um copo de vez em quando não faz mal.

Mais coisas? Ora continue a ler.

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