Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”.

Consegui, porém, sobreviver até ao consultório e o médico nem riu quando eu contei tudo, e soube tratar do assunto com um misto de sensibilidade e sentido prático, despreocupando-me sem me fazer sentir envergonhada, coisa que se traduziu em vários conselhos sensatos e em recomendar-me um fármacozito de venda livre. O equivalente a dizer: és uma parva, mas eu compreendo-te.

Lamentavelmente, há sempre quem faça pouco dos hipocondríacos, e abata cada sintoma com uma risadinha trocista, até ao dia em que a gente os cale com a nossa indesmentível morte, ou – muito melhor – os veja a eles aflitos com a borbulha suspeita ou a pontada teimosa.

Sei de cor o nome de várias doenças, conheço os sintomas de umas quantas, prevejo enfartes em braços doridos, adivinho doenças degenerativas em dedos trémulos por excesso de café, pressagio tromboses venosas em pernas cansadas. E suspeito, admito que muitas vezes suspeito, do rigor que o médico que me descarta os piores cenários está a pôr no diagnóstico. Ele diz que não é nada, mas quantos erros médicos acabaram com uma lápide por cima? E se a doença, essa sonsa a conspirar em surdina, ficou ali caladinha e quieta à passagem do ecógrafo, e o médico, pobre ingénuo, passou-lhe ao lado sem suspeitar do que ali estava, como nos filmes em que o mau se colava à sombra do portal ou ficava a respirar baixinho no breu da cave, à espera que o detective pateta fosse embora? Quem me garante que a minha hipotética doença não é esperta e mal-intencionada? Certo, certo, é que num minuto estamos na bicha para o pão, a tomar café na esplanada, a pôr a máquina da roupa a lavar, a rir à gargalhada, e no seguinte estão a decidir por nós se seremos enterrados ou cremados.

Tenho as minhas contradições, é certo, como a de apenas fazer exercício físico se não o identificar como tal (por exemplo, ando a pé mas sempre de forma desorganizada e recusando-me a chamar-lhe “caminhada” ou coisa que o valha), e a de alimentar vícios nefastos, dos quais não pretendo abdicar nos próximos tempos. E há sempre quem nos aponte essas contradições – “Mas se tens medo de morrer porque não deixas de fumar?” – gente que anda pela vida agarrada à lógica como a um guarda-chuva em dia de vendaval, e que acabará só com as varetas. Porque se nos agarrarmos à lógica, companheiros, embatemos sempre no mesmo ponto: vamos todos morrer. Obviamente que quem disser isso deixará de ser convidado para as festas. O meu exemplo preferido é o de Thomas Bernhard que em certa tarde gloriosa, frente à fina flor vienense, ministro da Cultura incluído, em plena cerimónia pomposa para celebrar a entrega do Prémio Estatal Austríaco, acabou a irritar a assistência porque começou o seu discurso dizendo que tudo é absurdo quando se pensa na morte (bem, não foi essa a única razão, e vale a pena ler a descrição da cerimónia e o texto do discurso, está tudo sublimemente contado em “Os Meus Prémios”).

Atarantam-nos com informação contraditória, num dia os antioxidantes são o nosso bilhete para a longevidade, no dia seguinte são um logro, fazem-nos desconfiar até das vacinas (ai!), e todos os dias são o dia internacional de uma doença qualquer, mais uma para juntar à longa lista de ameaças.

Agosto é um mês propício à hipocondria e eu apascento a minha à sombra, com repelente de mosquito e margaritas, que isto a vida, já sabem, e lembro-me muitas vezes do Mickey Sachs, o mais perfeito retrato do hipocondríaco, que só conseguiu deixar de preocupar-se quando concluiu que era melhor desfrutar da vida do que compreendê-la.

Comments


  1. Apreciei sobremaneira o seu artigo.
    Na realidade, independentemente de se ser ou não hipocondríaco, todos nós temos os nossos receios no que diz respeito à saúde…que acrescem consideravelmente se existir um motivo, como um fundo genético propício ou um estilo de vida não muito saudável. Todavia, acredite, o suporte emocional e psicológico proporcionado por um enfermeiro, poderá ajudar, e de que maneira (!), a superar tais angustias que, a bem dizer, atormentam o “estado da alma”, pois estes profissionais, pela sua formação e também vocação, estão mais despertos para a vertente Humana, comparativamente à classe médica. 🙂

  2. Sarah Adamopoulos says:

    Sobre Thomas Bernhard (meu herói literário) e tudo ser absurdo quando se pensa na morte: o Luiz Pacheco, a propósito do facto de um tal escritor estar cheio de dinheiro (de prémios e vendas estupendas) disse: «E então? Um dia destes morre!»

    Mas há uma coisa que está a acontecer: a hipocondria aumentou e muito, com o mal-estar provocado pelo empobrecimento da generalidade da população, minando de medo e de uma ideia de insegurança total os dias das pessoas que, por excesso de sofrimento, olham para a morte com desejo dela.
    A diferença é que tu, Carla, consegues ver-te a ser um bocado doida, o que muda tudo e contém em si esse germe da alegria e do espanto gozão de estar vivo.

  3. fatima says:

    Também há os que fazem tudo para morrer saudáveis, ginástica, comida vegetariana, exames médicos de toda a maneira e feitio, etc. Esquecem-se, porém, que a morte é a coisa mais certa que têm de enfrentar na vida!!
    Contudo, a saúde é um assunto sério, por isso há que estar atento.

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