Confissões de uma cobaia

A descoberta confirmou-se no dia em que cumpri 15 anos. Os exames médicos, cada vez mais minuciosos, arrastavam-se há meses e, embora nenhuma explicação me fosse dada, não era difícil de prever que em breve chegariam à conclusão que perseguiam.

Nas semanas anteriores, a presença das silenciosas criaturas de bata branca tinha-se tornado habitual. Circulavam pela casa sem qualquer espécie de controlo, a ponto de se ter tornado perfeitamente banal que eu despertasse a meio da noite com uma dessas criaturas à cabeceira da minha cama, a aplicar-me eléctrodos na testa de forma a estudar-me os padrões de sono.

E assim, no dia em que cumpri 15 anos, os meus pais sentaram-se comigo na sala de jantar para anunciar-me que eu estava nas mãos de uma equipa de especialistas no estudo da resposta sensitiva à estimulação neuronal, e que havia sido escolhido, de entre um grupo alargado de adolescentes, como objecto central de estudo. Contaram-me com evidente orgulho que me aguardava uma existência notável. Seria uma celebridade e as gerações vindouras teriam a agradecer-me o contributo inestimável para os avanços científicos que transformariam a humanidade. [Read more…]