lembranças de antropólogo em trabalho de campo

O Angelus,pintura ao óleo de Jean François Millet,1859,museu Orsay, Paris

Em lembrança da minha mama Esperanza…

É-me impossível não lembrar a família Medela Dobarro do Lugar de Lodeirón, Paroquia de Vilatuxe, Província de Pontevedra Alta, sem lembrar a sua gentileza, a sua doçura, o seu acolhimento, o seu bom trato. O pai da casa é Hermínio Medela Taín, hoje com 82 anos, viúvo recentemente da sua querida mulher Esperanza Dobarro. Ele pertencia a família dos ricos y proprietários, do Lugar de Gondoriz Pequeno. O conheci em 1974, éramos novos. Tinha 47 anos certos, como digo num livro em que falo da sua vida, eu, 33. Era o ano de 1974. Tinha sido enviado pelo meu director de estudos e trabalhos, Sir Jack Goody, Catedrático de Antropologia da Universidade de Cambridge, o meu sítio de trabalho, para entender o pensamento das crianças dessa parte do Estado Espanhol, denominado Galiza. Para o meu espanto, havia duas: a de Polónia, da qual eu nada sabia, e a do Estado mencionado. Sem pensar mais, escolhi a Galiza Lusa, ao Noroeste da Península Ibérica. O problema era encontrar casa onde habitar, Vilatuxe, com a colaboração do Pároco, Luís Vázquez Lamela, ofereceu-me uma casa fria, cozinha de lenha, imensos quartos, no Lugar da Carreteira que unia Vilatuxe com Compostela, cidade, y Lalín, Concelho. Assunto tratado. A seguir, seduzir aos vizinhos para saber deles e escrever um livro. [Read more…]

Foi-se embora em boa hora


Para D. Regina Dias

Muito falamos, pouco de nós. Empresto a minha vida e mãe, para homenagem a si.

Não importa a idade. Fazem falta. Lembramo-las. Rezamos por elas porque já não estão connosco, embora sintamos a sua presença. Como é público, eu não sou crente, mas a minha mãe era imensa na sua beatitude, por isso, em sua honra, no denominado dia da Mãe, mandamos rezar uma Missa pela sua alma. E sentimos, em silêncio, com respeito que ela nos acompanha. [Read more…]

Monsieur le Professeur Claude Lévi-Strauss

Um ser humano não é eterno. Um dia pára de viver, o seu coração pára, a respiração já não está. Um ser humano não é eterno. Pode viver ao longo de muitos anos. Pode sentir-se que a vida é uma eternidade por ser pesada para a pessoa. Um ser humano pode pensar que há seres humanos eternos: um dia estão connosco e habituamo-nos à sua presença, no outro dia podem não estar mais. Vivem no símbolo, esse sinal que representa, nas nossas mentes as suas formas de viver a vida, o transcorrer da cronologia da vida material na história, ou a representada na imagem virtual que criámos dessa pessoa. Porque não é eterno, cria uma eternidade, fabrica uma longevidade que fica fora deste mundo e alimenta os que nele já não estão, com comida que passa a ser oferta aos deuses que tomam conta dessa  inexistência de vida material. Vida material que representa  o que é, tem sido e será. A vida material, que vivemos em interacção enquanto não existe morte social e estamos com os outros. Há morte social por nos afastarmos dos outros, ou porque os outros nos afastam por respeito, desapreço, desdém, ou desprezo, por não sermos capazes de atingir a grande obra que ele fez ou, ainda, por louvor a esse saber que dá medo.

 

Medo de não saber responder à acumulação de saber que aparece em frente de nós. Os nossos encontros eram no Laboratoire de Anthropologie Sociale, Rua Cardinal Lemoin Nº 3, ou na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales ou, em raras quintas-feiras, na sua casa. Tocava Bach e Mozart para os poucos convidados, sempre seleccionados pela sua terceira mulher, Monique Roman. Eu sentia um imenso apreço pelo seu trabalho, especialmente pelo, em minha opinião, melhor texto, Tristes Tropiques, Libraire Plon, 1955, escrito depois da viagem de lua-de-mel com a sua primeira mulher, Dina Dreyfus. Nessa época, Lévi-Strauss encontrava-se exilado por causa da guerra e da perseguição aos hebraicos etnia de que era membro. Uma narrativa etnográfica romanceada, com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras. Aparentemente, apenas um livro de viagem, mas, repleto de passagens onde o autor faz especulações filosóficas sobre o status da Antropologia; análise comparativa de religiões, entre o Novo e o Velho Mundo, as concepções de progresso e de civilização. Começo do questionamento da palavra selvagem para grupos sociais que tinham outro tipo de conhecimento, tão importante e válido como o da nossa cultura. Não é em vão que mais tarde, no seu texto La Poitiére Jalouse, Plon, Paris, 1985, publicado em português sob o título Oleira Ciumenta, Edições 70, 1985, diz, in passin: Que há de comum entre um pássaro insectívoro, a arte da olaria e o ciúme conjugal? Entre o pensamento especulativo dos índios e os dos psicanalistas? Entre uma tragédia de Sófocles e uma Comédia de Labiche? A sua obra de 1947,   defendida como tese e publicada em 1948 como livro, Les Structures Éleméntaies da la Parenté, Mouton & Ca, Paris, Der Hagen, defende o universo das regras parentais, especialmente exogamia e endogamia. Escreveu tanto, que é impossível analisar a sua obra num curto espaço de linhas. Menciono apenas a «guerra» intelectual com o meu Mestre de Cambridge, Jack Goody. Não havia livro que Jack publicasse sobre a escrita e a leitura ou sobre o pensamento, que M. Lévi-Strauss não refutasse com a sua principal criação: a Teoria Estruturalista ou Teoria Linguística, que considera a fala como um conjunto estruturado, onde as analogias definem os termos. Goody defendia que era a escrita a dar esta virtualidade. Leach, introdutor  de Lévi-Strauss na Antropologia Britânica, meu antigo professor, dividia, na linha de M. Le Professeur, os antropólogos entre substantivistas – como Goody e vários de nós, pelo delito de trabalho de campo – e racionalistas, os que retiram ideias do pensamento humano, como o próprio Lévi-Strauss. O parentesco, para ele, não eram relações consanguíneas, mas antes ideias para classificar relações, baseadas num totem e nas classificações dos tipos de matrimónio. No seu texto de 1952, Race et Histoire, escrito a pedido da UNESCO, Lévi-Strauss classifica os povos entre aqueles que têm a História como base da sua memória, e aqueles em que a cultura reiterada e não escrita é a base da orientação do comportamento social. Acrescento ainda que brincou com o seu professor Émile Durkheim, nomeadamente sobre o livro As estruturas elementares da vida religiosa, seu tutor em estudos de Antropologia (Lévi-Strauss tinha estudado Direito e Filosofia anteriormente) e de quem mais tarde tomaria conta, quando, por terror às SS alemãs, gerou uma psicopatia que o manteve vivo até os 90 anos. Lévi-Strauss publicou todos os livros da autoria de Durkheim

Pelos anos 70 do século XX aposentou-se, e começou a corrida para o suceder na Cátedra de Antropologia, a primeira criada na Europa e por causa dele. Mas M. le Professur não hesitou e entregou directamente o poder a Françoise Heritier. Muitos ficaram magoados, entre eles o meu grande amigo e colega Maurice Godelier, que actualmente e após ter sido duas vezes Ministro da Ciência e Director do CNRS com François Miterrand, luta ontra uma doença que mata, como me tem referido.

Este é o Lévi-Strauss que eu conheci: humilde e calmo. Costumava dizer que não gostava de louvores, nem de barulhos, nem de festejos. Eis porque o seu funeral será privado.

 

Assim era quem tanto ensinou aos meus discípulos ingleses e portugueses e a tantos de nós, que hoje choramos por ele. Fica o consolo de morar na eternidade feita por todos nós, e materialmente na sua obra.

 A sua ideia preferida era: O antropólogo é o astrónomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador.” Antropologia Estrutural, 1967.