Monsieur le Professeur Claude Lévi-Strauss

Um ser humano não é eterno. Um dia pára de viver, o seu coração pára, a respiração já não está. Um ser humano não é eterno. Pode viver ao longo de muitos anos. Pode sentir-se que a vida é uma eternidade por ser pesada para a pessoa. Um ser humano pode pensar que há seres humanos eternos: um dia estão connosco e habituamo-nos à sua presença, no outro dia podem não estar mais. Vivem no símbolo, esse sinal que representa, nas nossas mentes as suas formas de viver a vida, o transcorrer da cronologia da vida material na história, ou a representada na imagem virtual que criámos dessa pessoa. Porque não é eterno, cria uma eternidade, fabrica uma longevidade que fica fora deste mundo e alimenta os que nele já não estão, com comida que passa a ser oferta aos deuses que tomam conta dessa  inexistência de vida material. Vida material que representa  o que é, tem sido e será. A vida material, que vivemos em interacção enquanto não existe morte social e estamos com os outros. Há morte social por nos afastarmos dos outros, ou porque os outros nos afastam por respeito, desapreço, desdém, ou desprezo, por não sermos capazes de atingir a grande obra que ele fez ou, ainda, por louvor a esse saber que dá medo.

 

Medo de não saber responder à acumulação de saber que aparece em frente de nós. Os nossos encontros eram no Laboratoire de Anthropologie Sociale, Rua Cardinal Lemoin Nº 3, ou na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales ou, em raras quintas-feiras, na sua casa. Tocava Bach e Mozart para os poucos convidados, sempre seleccionados pela sua terceira mulher, Monique Roman. Eu sentia um imenso apreço pelo seu trabalho, especialmente pelo, em minha opinião, melhor texto, Tristes Tropiques, Libraire Plon, 1955, escrito depois da viagem de lua-de-mel com a sua primeira mulher, Dina Dreyfus. Nessa época, Lévi-Strauss encontrava-se exilado por causa da guerra e da perseguição aos hebraicos etnia de que era membro. Uma narrativa etnográfica romanceada, com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras. Aparentemente, apenas um livro de viagem, mas, repleto de passagens onde o autor faz especulações filosóficas sobre o status da Antropologia; análise comparativa de religiões, entre o Novo e o Velho Mundo, as concepções de progresso e de civilização. Começo do questionamento da palavra selvagem para grupos sociais que tinham outro tipo de conhecimento, tão importante e válido como o da nossa cultura. Não é em vão que mais tarde, no seu texto La Poitiére Jalouse, Plon, Paris, 1985, publicado em português sob o título Oleira Ciumenta, Edições 70, 1985, diz, in passin: Que há de comum entre um pássaro insectívoro, a arte da olaria e o ciúme conjugal? Entre o pensamento especulativo dos índios e os dos psicanalistas? Entre uma tragédia de Sófocles e uma Comédia de Labiche? A sua obra de 1947,   defendida como tese e publicada em 1948 como livro, Les Structures Éleméntaies da la Parenté, Mouton & Ca, Paris, Der Hagen, defende o universo das regras parentais, especialmente exogamia e endogamia. Escreveu tanto, que é impossível analisar a sua obra num curto espaço de linhas. Menciono apenas a «guerra» intelectual com o meu Mestre de Cambridge, Jack Goody. Não havia livro que Jack publicasse sobre a escrita e a leitura ou sobre o pensamento, que M. Lévi-Strauss não refutasse com a sua principal criação: a Teoria Estruturalista ou Teoria Linguística, que considera a fala como um conjunto estruturado, onde as analogias definem os termos. Goody defendia que era a escrita a dar esta virtualidade. Leach, introdutor  de Lévi-Strauss na Antropologia Britânica, meu antigo professor, dividia, na linha de M. Le Professeur, os antropólogos entre substantivistas – como Goody e vários de nós, pelo delito de trabalho de campo – e racionalistas, os que retiram ideias do pensamento humano, como o próprio Lévi-Strauss. O parentesco, para ele, não eram relações consanguíneas, mas antes ideias para classificar relações, baseadas num totem e nas classificações dos tipos de matrimónio. No seu texto de 1952, Race et Histoire, escrito a pedido da UNESCO, Lévi-Strauss classifica os povos entre aqueles que têm a História como base da sua memória, e aqueles em que a cultura reiterada e não escrita é a base da orientação do comportamento social. Acrescento ainda que brincou com o seu professor Émile Durkheim, nomeadamente sobre o livro As estruturas elementares da vida religiosa, seu tutor em estudos de Antropologia (Lévi-Strauss tinha estudado Direito e Filosofia anteriormente) e de quem mais tarde tomaria conta, quando, por terror às SS alemãs, gerou uma psicopatia que o manteve vivo até os 90 anos. Lévi-Strauss publicou todos os livros da autoria de Durkheim

Pelos anos 70 do século XX aposentou-se, e começou a corrida para o suceder na Cátedra de Antropologia, a primeira criada na Europa e por causa dele. Mas M. le Professur não hesitou e entregou directamente o poder a Françoise Heritier. Muitos ficaram magoados, entre eles o meu grande amigo e colega Maurice Godelier, que actualmente e após ter sido duas vezes Ministro da Ciência e Director do CNRS com François Miterrand, luta ontra uma doença que mata, como me tem referido.

Este é o Lévi-Strauss que eu conheci: humilde e calmo. Costumava dizer que não gostava de louvores, nem de barulhos, nem de festejos. Eis porque o seu funeral será privado.

 

Assim era quem tanto ensinou aos meus discípulos ingleses e portugueses e a tantos de nós, que hoje choramos por ele. Fica o consolo de morar na eternidade feita por todos nós, e materialmente na sua obra.

 A sua ideia preferida era: O antropólogo é o astrónomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador.” Antropologia Estrutural, 1967.

 

Comments

  1. Brian Fontane says:

    Talvez fosse melhor rever o texto que escreveu sobre Claude Lévi-Strauss. A língua portuguesa é mal tratada e o seu pensamente mostra-se incompreensível em alguns trechos. Num professor universitário, como julgo que é, são coisas que ficam mal.


  2. O Aventar, assume os riscos de os textos do Porf. Ra.ul Itarru, serem escritos na língua portuguesa que não é a sua língua-mãe. É tão evidente a opção pelo elevado nível intelectual dos seus textos, que pessoalmente considero infeliz o seu comentário.Luis Moreira

  3. Brian Fontane says:

    Em vez de o Aventar assumir os riscos dos textos do Prof. Raúl Itarru, talvez lhe prestasse melhor serviço se os corrigisse.  Tem todo o direito a ter a sua opinião, mas também tem que aceitar que eu pense de forma diferente. Para mim uma língua tem que ser respeitada, e se eu não consigo transmitir correctamente o meu pensamento, então o melhor é estar quieto. Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão? Quanto ao nível intelectual do texto compreenderá certamente que se trata de um assunto discutível, mas esteja descansado que eu não pretendo entrar nessa polémica. Procure ser um pouco mais crítico e ter um poder de encaixe mais elevado. Não esteja sempre à espera do politicamente correcto. Olhe que quem anda à chuva…


  4. Espero que compreenda que esse assunto foi tratado entre nós, os autores do Aventar. Não trás nada de novo. Quanto ao andar à chuva não sei o que quer dizer.E aqui no Aventar pode dizer sempre o que quizer desde que não ofenda ninguem!

  5. maria monteiro says:

    tinha lido a homenagem que o DN de hoje fez ao pai da antropologia moderna… este post aumentou o meu conhecimento do professor e homem que foi Lévi-Strauss Grata maria


  6. Cara Maria, agradeço imenso o seu comentário. Escrever sobre o meu Antigo Mestre e Amigo em apenas uma página, é difícil, mas pelo seu comentário vejo que consegui. Muito obrigado pela sua simpatia de enviar esse pequeno texto, que é um milhão de palavras em sentimentos. Vejo que conhece a Obra do Mestre Agradece e cumprimenta [Error: Irreparable invalid markup (‘<p […] <a>’) in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]Cara Maria, agradeço imenso o seu comentário. Escrever sobre o meu Antigo Mestre e Amigo em apenas uma página, é difícil, mas pelo seu comentário vejo que consegui. Muito obrigado pela sua simpatia de enviar esse pequeno texto, que é um milhão de palavras em sentimentos. Vejo que conhece a Obra do Mestre Agradece e cumprimenta <P class=incorrect name="incorrect" <a>Raúl</A> Iturra </P> lautaro@netcabo.pt </A>


  7. Brian Fontane, agradeço o seu comentário. É natural que dois assuntos aconteçam: o primeiro, a minha escrita, uma de sete que uso. Não é da responsabilidade dos meus colegas corregir os meus textos. Aliás, é o primeiro que recebo sobre o meu estilo, em dia de tristeza quando o Mestre já não está. O segundo, a escrita do Mestre em uma página é difícil de ponderar. Nos psiacanalisámos as formas de pensar de grupos que pertencem a outras culturas e pensam de forma diferente. O dever de melhorar é meu e não dos senhores do Aventar. Não conheço os seus estudos nem pergunto, mas uma pequena leitura a Tristes Trópicos de C L-S, Edições 70, 1979, ou em francês que deve saber, Plon 1955, penso ser um bom exercicio. Extremelly grateful for your comments. I shall pay attention to them Thanks Raúl Iturra


  8. Cara Maria Monteiro, se tenho ajudado a entender ao ser humano que era o nosso Mestre, fico satisfeito, da forma que comentei antes. Obrigado pela sua consideração pela minha escrita: não pior forma que ajudar a aprender, que dizer mal, o que Maria Monteiro soube respeitar. Agradeço, especialmente o seu entendimento de Claude Lévi-Strauss Agradece e cumprimenta Raúl Iturra


  9. Caro Luís, agradeço o seu comentário para o senhor Brian Fontaine: foi gentil e muito senhor, sem arrogância. Soube defender a minha escrita sem bater em ninguém. Obrigado! Explicar Lévi-Strauss em meia página, é obra de titãs! Fico mais animado!Grande abraço

  10. Brian Fontane says:

    Muito obrigado pela sua sugestão. No entanto, posso assegurar-lhe que já li várias obras de Lévi-Strauss , inclusive aquela que me recomenda.  

  11. Brian Fontane says:

    Folgo em saber que me reconhece o direito de expressar a minha opinião. Gostaria ainda, e para terminar este “conflito”, que me respondesse à questão que aqui deixo ficar. Desde quando é que a critica  do estilo e do conteúdo de um texto constitui uma ofensa a alguém?


  12. Caro Brian Fontane, Obrigado pelo seu comentário. No entanto, deve reparar que os dois enviados são circunstânciais, sustantivos, não há conteúdo racional. Parece que deseja debater comigo porque sim! Em tempo de loto, estes factos fazem-nos mal. Ou em todo minuto. Eu estava a levar a sério o seu comentário, mas como pode pensar que uma pessoa, Membro do Senado da minha Univeridade de Cambridge, na qual obtive até o mais alto grau e ensinei durante anos sob a batuto do meu amigo Jack Goody(Sir), ia pensar que o direito a opinar era um delito? For doodness sake! Not even my student Edward Windsor ever had the arrogance of making comments  if he was not asked! And other colleagues, their cousins, succh as Constantine of Greece, Margareth of Denmark, would open their lips without reading first. I’m in mourning. I begg you not to write to me again, at least for the coming wek. Yours as ever Professor Raúl Iturra

  13. Brian Fontane says:

    Os seus comentários, efectivamente, estão repletos de conteúdo racional. Este último, então, evidencia um raciocínio cintilante e preclaro. Escrever mais alguma coisa sobre ele mostra-se completamente desnecessário. O Professor utiliza uns argumentos verdadeiramente irrefutáveis. Só foi pena não ter conseguido distinguir o comentário que lhe dirigi a si do que dirigi ao Sr. Luís Moreira. Enfim, coisas que acontecem aos melhores. Aproveito ainda para o congratular pelos brilhantes alunos que formou em Portugal. O seu trabalho como actuais ou antigos membros do governo português revela-se (ou revelou-se) a todos os títulos inquestionável e verdadeiramente indispensável. Pelos frutos se conhece a árvore. Parabéns! Por último, só me resta felicitar as Universidades que no seu alto critério entenderam dignificar-se contratando-o. Erasmo de Roterdão estava mesmo certo quando afirmou que a estultícia era uma das coisas que mais graçava pelo mundo.


  14. Caro Brian Fontaine, Com o devido respeito que devemos ter todos uns pelos outros, se calhar este assunto morria por aqui. Não será boa ideia? Cumprimentos.


  15. O raul, não leve muito a peito mas desculpe dizer-lhe algo que muitos pensam já baixinho, alguns dos seus textos são uma GRANDE SECA, você já «não se usa» e pior leva-se demasiado a sério..sinceramente para si e outros iguais não há mais pachoraa ..pelo menos EU adeus dalby olhe um passeio a beira mar e um despir a roupa so lhe faria bem


  16. Senhor dalby , obrigado pelo seu comentário, calmo, bem educado e aberto, como tenho solicitado a todos. Para a sua surpresa , tenho mais, por e-mail, que o seu e essa baixa de humor de Brian Fontaine , que soube debater comigo até em inglês . Leia por favos, o post sobre Lévi Strauss. Ou os meus textos sobre os autarcas. E outros. No entanto, reconheço que os meus últimos posts têm sido tristes, por causa de luto triplo em poucas semanas. É verdade que não devia partilhar o meu pesadelo em público: o luto é privado. Se lê o tag do meu post de hoje, pode ler:”afastando-me do luto” e escrevo, como analista, os pensamentos de pessoas de outras culturas. Agradeço o seu comentário. Os posts eram para a família…..e devem ser privado. Vamos tornar a escrever desses que gosta, fique descansado. Se já “no me uso”, caramba, fale nas Universidades que ensino ou procure crítica literária no Google . Um bom descanso e, mais uma vez, fique descansado, o meu vai continuar a ser comigo, deve estar certo do assunto


  17. Eu sei, eu sei, que Exeter, Brixham, Torquay, Taunton, Milverton são do melhor mas oh ohhhh O TEMPO É.. YET ALWAYS SO FUCKING BORING AND GREY BABY!! olhe escreva para um aqui em cima..vai -lhe não só fazer concorrência, mas porventura ele vai acabar por lhe fazer um ..DESENHO!..E ASSIM GANHA O SEU DIA! OU ENTÃO AINDA CAI NAS GRAÇAS DO ARREBENTA E LEVA COM UMA TEMPESTADE DE FEL! OU NETÃO CAI NA GRAÇA DO JP E LEVA COM UMA DAQUELAS TIRADAS DE SENTIDO DE HUMOR DELE E AÍ FICA QUE NEM UM MONTHY PYTON!!!!!! (PIEDADE DE SI! QUE TENHO! )always the sun always the sun!!!dalby


  18. Dalby, mete-te com gente tão ordinária como tu. Comigo por exemplo.Não te levo a mal e não magoamos ninguem!


  19. Nem sequer merece comentário….SABES LÁ O QUE É TER RAÇA E O QUE É SER PRDINÁRIO..E DESDE QUANDO ORDINÁRIO NÃO É ESTÉTICA..FAAARRTTTOOO DE CINZENTOS E DE ZZZZZZZZSS E DE SECAS E DE ARROGÂNCIA E DE PROVERBIAIS E DE TUDO O QUE SECA A VIDA DAS PESSOAS POUPA MEEEEEEEEEEEEEEEE POUPA MEEEEEEEE À TU AMORALIDADE AMORAL,,,,,QUERO LÁ SABER MESMO OO QUE É SER GROSSO OU NÃO..ACHAS? ACHAS QUE AINDA ESTARIA NESSA FASE..DE QUALQUER MANEIRA O PROF ITURRA NAO ME FEZ MAL NNENHUM POR ISSO PASSO À FRENTE…E DEIXO TO «TODINHO PARA TI»…Mas uma coisa tens de me fazer..não trocares um discurso dele por uma dessas gajas jovens boas que procuras!! if you know what I mean baby!fino dalby

  20. marina says:

    parabéns pela sua paciência , Prof. ,  com os pobres de espírito . eu não a tinha. Viva Chile , mierda Che!!!


  21. Querida Marina Obrigado pela sua simpática resposta. Mas nada diz sobre a obra de Claude! Quanto a usar  o denominado “apelido” de Chile, deve ser a falta de hábito. Viví poucos anos e éramos extrangeiros, mas, comsigo, até fica bem! No entanto, o que é o interesante na obra de Claude Lévi-Strauss? É Antropóloga o analista? O seu. RI

  22. marina says:

    “Estamos en un mundo al que ya no pertenezco. El que conocí y amé tenía 1.500 millones de habitantes. El mundo actual tiene 6 mil millones de humanos. Ya no es el mío”. Me gusta sobretodo esto , que se diera cuenta que cuanto menos bulto ,  más claridad.  Y la estructura , que ( me falta la palabra para “enfeites ” ) son secundarios. Licenciada en sociología . Estaba segura que era chileno y claro , no puedo oír hablar en Chile , Argentina o Perú sin quedar entusiasmada. Y pasar de  lengua. Menos mal que le cayó bien. En. su escrito lo que más me gustó fue el cariño con que habla de su Maestro. Saludos  normalitos , entonces.