Lettres de Bruxelles #2

La Tour de Babel et ‘l’événement jumelage’

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Hoje não tive tempo para tirar fotografias. Além de não ter dormido praticamente nada, estava a pé às 7 e um quarto da manhã em Bruxelas, 6 e um quarto da manhã em Portugal. A um dia feriado, enfatize-se, de onde se conclui que não há – pelo menos hoje não houve, de certeza – justiça no mundo. Foi isto que eu pensei exatamente, ainda a dormir, quando tomei banho e me vesti e comi o pequeno almoço no The Augustin, na Avenue de Stalingrad. Paguei o hotel e pedi ao senhor da receção que me chamasse um táxi para ir para a Place Madou, nº 1. Fez cara de caso e disse que um táxi, antes das nove horas, em Bruxelas, podia ser um problema. Foi a minha vez de fazer cara de caso, ou melhor, de surpresa. Um problema, porque? Explicou-me que o táxi podia levar vários (e longos) minutos a responder e depois a chegar e, ainda depois, a levar-me ao meu destino. Devo ter feito um ar ligeiramente desesperado, porque o senhor ligou para três companhias de táxis até que uma lhe disse que um táxi estaria ali em 15 minutos.
 
Sosseguei. O táxi apareceu ainda nem 10 minutos haviam passado. O motorista conduzia como um louco, sem necessidade, pensava eu, já que não estava atrasada. Como ainda ia meia a dormir, lá aguentei os improprérios que ele dirigia aos outros condutores e os solavancos. Em pouco tempo estavámos em frente à Torre Madou, no número 1 da praça com o mesmo nome, um dos edifícios da Comissão Europeia, em Bruxelas. Entrei no edifício e fiquei pasmada. Uma fila gigantesca de pessoas para passar o controle. Obviamente não me havia ocorrido tal coisa. Passar no controle. Ainda que faça sentido que assim seja, a situação dentro do edifício estava absolutamente caótica. Lá me meti na fila, que havia eu de fazer. Ouvi falar português e travei conhecimento com um compatriota muitíssimo simpático, cuja mulher há-de ter sido minha aluna, na Universidade de Aveiro, nos idos de 1990 e troca o passo. Descobrimos conhecimentos comuns, falámos disto e daquilo e a fila não andava nem desandava. Estavamos nisto e ouço alguém dizer ‘Madame Figuêredo’, ‘Madame Figuêredo’… ‘C’est moi’, disse eu, diante da menina que por mim chamava. Embrenhada na conversa com o compatriota simpático não me apercebi que desde que tinha chegado tinham já passado uns bons 15 a 20 minutos e estava na hora, não da minha conversa, mas de dar início à primeira sessão em que eu nem sequer devia estar, mas aparentemente alguém tinha decidido que todos os oradores deviam estar sentados na mesa, desde o início.
 

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Lettres de Bruxelles #1

Nationalité: indeterminée

A menina da recepção do hotel estendeu-me um papel que eu devia assinar e completar com o meu endereço de email. Assim fiz e quando ia devolver-lhe o papel reparei que na nacionalidade estava escrito ‘indeterminada’. Risquei aquilo e escrevi ‘portugaise’, mas depois fiquei a saborear, por um instante, a minha ausência de nacionalidade momentânea e perguntei à menina porque tinha ela escrito aquilo. Ela respondeu que não sabia, de facto, a minha nacionalidade e depois que eu falava tão bem francês que era difícil perceber de onde eu era. Agradeci-lhe o elogio, mesmo se não é verdade que fale assim tão bem francês, já sabemos. E acrescentei que tinha gostado daquilo da nacionalidade indeterminada, que era a primeira vez que me acontecia e que me soube bem, mesmo se por breves momentos, não ter nacionalidade. Claro que pensei de mim para mim que soube bem porque foi por momentos e porque, claro está, eu tenho uma nacionalidade, por muito que pudesse ter outra qualquer. Mas o facto de eu ter sentido a necessidade de escrever ‘portugaise’ em vez de deixar estar ‘indeterminée’ revela mais sobre o que me sinto, afinal, do que aquilo que gosto de pensar ou expressar que sinto.

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