Lettres de Bruxelles #1

Nationalité: indeterminée

A menina da recepção do hotel estendeu-me um papel que eu devia assinar e completar com o meu endereço de email. Assim fiz e quando ia devolver-lhe o papel reparei que na nacionalidade estava escrito ‘indeterminada’. Risquei aquilo e escrevi ‘portugaise’, mas depois fiquei a saborear, por um instante, a minha ausência de nacionalidade momentânea e perguntei à menina porque tinha ela escrito aquilo. Ela respondeu que não sabia, de facto, a minha nacionalidade e depois que eu falava tão bem francês que era difícil perceber de onde eu era. Agradeci-lhe o elogio, mesmo se não é verdade que fale assim tão bem francês, já sabemos. E acrescentei que tinha gostado daquilo da nacionalidade indeterminada, que era a primeira vez que me acontecia e que me soube bem, mesmo se por breves momentos, não ter nacionalidade. Claro que pensei de mim para mim que soube bem porque foi por momentos e porque, claro está, eu tenho uma nacionalidade, por muito que pudesse ter outra qualquer. Mas o facto de eu ter sentido a necessidade de escrever ‘portugaise’ em vez de deixar estar ‘indeterminée’ revela mais sobre o que me sinto, afinal, do que aquilo que gosto de pensar ou expressar que sinto.

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Antes deste episódio, apanhei o Thalys na Gare du Nord em Paris, faltavam 5 minutos para o meio dia. O senhor que distribui jornais, na Place Saint-Michel disse-me ‘Bonjour Madame et bon voyage’, devido à mala que eu trazia, seguramente. Agradeci-lhe, com certeza, e desejei-lhe um bom dia. Desci para apanhar o Rer B, vá-se lá saber porquê, porque podia ter mais diretamente apanhado a linha 4 do metro, mas desci na Place Saint-Michel e constatei intrigada que havia fita-cola em todas as portas de passagem para o cais. Andei de um lado para o outro mais a mala e nada… não havia ranhura a descoberto em lado nenhum onde pudesse meter o raio do bilhete. Perguntei a um senhor que estava ali para entrar no cais e ele respondeu-me: ‘mais, madame, aujourd’hui on ne paie pas… il y a un pic de pollution et tous les transports publiques sont gratuits’… Ah, très bien… et allez hop a passar a barreira e a apanhar o comboio. O Thalys saiu à hora, é confortável e rápido. Cheguei à Gare du Midi, ou Gare de Bruxelas sul à hora prevista. Saí da estação, cheia de tiras gigantes do Tintin, e pus-me a tentar perceber para onde devia ir. Tinha visto no google maps que dali até ao hotel, na Avenue de Stalingrad eram apenas 14 minutos a pé. Nada de especial e eu queria ir a pé. E fui, perguntando uma ou duas vezes a pessoas se ia na direção certa. Ia, claro, era sempre a direito. O hotel – The Augustin – é simpático e a cama onde vou dormir – muito pouco – é confortável e grande. Pousei as coisas, tive uma nacionalidade indeterminada por uns momentos e voltei a sair do hotel.

 

Fui aos lugares onde já estive de outras vezes, a última há sete anos, bolas, como o tempo passa e nós nem damos conta. Mas andei um bocado, não muito, que o Manneken Pis, a Grand Place, as Galerias Reais Saint-Hubert, o Marché aux Herbes, a Catedral, ou seja, aquilo que realisticamente eu poderia ver com sossego numa tarde, estão a curtas distâncias do hotel. Assim, fui primeiro ver o menino que faz chichi, basicamente, ali na esquinada Rue des Grands Carmes com a Rue de L’Etuve. A pequena estátua estava vestida de bombeiro, hoje, entre as 9h e as 18h. Parece que se veste com roupas que certas instituições lhe oferecem. Uma italiana, atrás de mim, lamentou-se que a pequena estátua não era o que ela esperava, mais a mais vestida de bombeiro! Mais de resto, não me pareceu que as muitas outras pessoas que ali estavam de várias nacionalidades se tenham importado com a farpela do Manneken Pis. Depois de ter fotografado o menino a partir de vários ângulos, andei por ali pelas ruas um bocadinho a ver se via algum sítio onde se pudesse comer uma coisa rápida. Comi ‘frites’ para alegria do meu colesterol num quiosque com esplanada da Rue Infante Isabelle a olhar para a Rue du Marché aux Herbes, do outro lado.

Depois fui devagarinho até à Grand Place, admirando as lojas de chocolates, verdadeiras obras de arte aquelas montras, e as lojas de rendas da Flandres (presumo eu), ainda mais obras de arte, evidentemente. Posso ter vindo já algumas vezes a Bruxelas e à Grand Place, mas de todas as vezes, acreditem, é como se fosse a primeira. Fico sempre embasbacada a olhar para aquilo. Com a cabeça esticada para admirar bem a torre do Hotel de Ville e a do Musée de la Ville de Bruxelles. E as estátuas em todos os edifícios em volta da praça. Hoje tinha um motivo de embasbacamento adicional: a enorme árvore de natal, no centro da praça, oferecida, pelo que percebi, pela Eslováquia. Era mesmo natal na Grand Place hoje à tarde. Há também um presépio gigante, como há múltiplos presépios de várias origens na Catedral de St. Michel e St. Gudule, a que, como já disse, também voltei e onde acendi velas, para não variar neste meu hábito e onde apreciei os vitrais e o órgão de tubos, além dos presépios (de que não grande apreciadora, mesmo que venham – como estes – de várias partes do mundo).
Antes de ir à Catedral e depois de sair da Grand Place, atravessei as Galerias Reais Saint-Hubert. Estão na mesma como delas me lembrava, mas enfeitadas também para o Natal. Tal como estão na mesma, praticamente, as lojas, muito particularmente a loja que mais ansiava por ver ali – a Neuhaus. Entrei e escolhi alguns pequneos chocolates. Para mim, pois claro, que até eu ir a Portugal ainda se estragavam e seria um enorme desperdício, está bem de ver. Pode haver muitos fabricantes de chocolates mas, para mim, quem me dá bonbons de caramelo salgado da Neuhaus, dá-me tudo. Também aceito de outros sabores, naturalmente, só para que conste. De maneira que lá fui eu com o meu pequeno pacote de chocolatinhos até à Catedral. Quando saí de lá, estava muito escuro e havia uma bonita lua, mas principalmente, a torre do Hotel de Ville estava cheia de cores e movimento. Decidi voltar à Grand Place e se me embasbaco geralmente durante o dia, mais me embasbaquei à noite, com a praça praticamente às escuras, só com as luzes ténues nos edifícios e as da árvore de natal que piscavam pontualmente. Estava muita gente na praça e a torre já não estava colorida. Pensei que talvez voltasse a ficar tal como a tinha visto desde a Catedral e deixei-me estar por ali. Comi dois chocolatinhos. É natal na Grand Place, vá.
Passado um bocado toda a praça se ilumina e muda de cor e pisca e dança e há música e é uma animação. O resto continua tudo às escuras e há só aquele espectáculo fabuloso e centenas de pessoas embasbacadas e de cabeça no ar a admirar aquilo. Sou uma delas, naturalmente, já o disse. Não gosto particularmente de Bruxelas, apesar do Musée Magritte, da Catedral, da Rue du Marché aux Herbes e da Grand Place. É cinzenta e acanhada e hoje pareceu-me até bastante suja. Mas não há como não gostar um bocadinho de uma cidade que tem uma praça como esta e que a enfeita deste modo para o natal. Por isso, sim, pronto, gosto de Bruxelas, não muito, um bocadinho e metade desse gosto é toda por causa desta praça.
Regresso ao hotel, refazendo mais ou menos o mesmo caminho. Passo pelo Manneken Pis e já lhe despiram o fatinho de bombeiro. Está a estátua nuazinha e há muito menos turistas em volta dela. Está quentinho no quarto. Recebo uns telefonemas, vejo os emails. Saio depois para jantar. Não queria ir muito longe porque tinha a ideia – completamente gorada – de me deitar cedo. Vou até ali à frente à Place Rouppe e vejo um restaurante com um ar muito simpático , o Houtsiplou. Entro e acho-o ainda mais simpático, sobretudo quando vejo o grande mural no 1º andar, de Catherine Fradier, cheio de mensagens políticas sobre a Béilgica e a Europa. O facto de ter visto logo moules et frites na ementa de ardósia também ajudou, claro. Peço então moules et frites e uma leffe. Os mexilhões como-os do modo mais simples, só cozidos num caldo de legumes e sal e limão. Estão absolutamente divinos. Não como sobremesa. Bebo um café. No quarto ainda tenho os bonbons de caramelo salgado à minha espera. Não sei onde perdi o tempo entre chegar ao hotel e agora mesmo. Sei que vou dormir muito pouco e amanhã tenho de acordar às sete da manhã. É feriado na terra de onde sou nacional, é verdade. Mas aqui não é. É muito bem feita para mim, claro, ninguém me manda ficar contente por ter uma nacionalidade indeterminada, mesmo se momentaneamente.

Comments


  1. Boa viagem !!!

  2. Ana A. says:

    Gosto muito da descritividade das suas “lettres”! 🙂

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