Postcards from Greece #50 & #51 (Lagkadás)

It is all Greek to me

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é o que penso hoje, durante uma parte da manhã. Que para mim é tudo grego, literalmente, porque não percebo nada do que diz o meu segundo entrevistado. É uma sensação estranha esta, fazer perguntas numa língua e responderem-nos noutra, absolutamente diferente e incompreensível para mim. É difícil a conversa fluir, desta maneira como é evidente, mais a mais porque as respostas do entrevistado são depois traduzidas pela R, não em inglês, mas em francês. Ou seja, eu coloco as questões em inglês, a R. traduz quase todas para grego (porque ele percebe um bocadinho de inglês e algumas não é preciso traduzir) e a R. traduz as respostas depois para francês, porque apesar de entender bem o inglês não se sente tão à vontade para falar. Portanto, aqui estou em Lagkadás, uma pequena cidade a noroeste de Salónica, completamente perdida na tradução. Antes tínhamos feito outra entrevista em Salónica, em que praticamente se dispensou a tradução, porque a senhora falava inglês razoavelmente. Mas agora, agora é mesmo tudo grego para mim.

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Postcards from Greece #48 & #49 (Edessa)

A Cidade das Águas

 

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É assim que é conhecida esta pequena cidade a nordeste de Salónica, distante desta 95 quilómetros e, de autocarro ou comboio, aproximadamente uma hora e meia. Edessa é a capital da região de Pella, naturalmente localizada na Macedónia central. É uma cidade extremamente sossegada, com aproximadamente 18 mil habitantes e onde se concentra uma boa parte dos serviços administrativos da região. Atualmente Edessa vive essencialmente do turismo mas foi, até meados do século XX, um importante centro industrial, com muitas fábricas de têxteis, aproveitando a abundância de água.
Antiga capital da Macedónia central, Edessa foi uma cidade sempre disputada, devido à sua localização geográfica, por Búlgaros, Sérvios, Bizantinos e Otomanos. Tal como toda a Macedónia, a cidade esteve sob ocupação Otomana mais de 400 anos, tendo sido anexada pela Grécia em outubro de 1912 durante a primeira guerra dos Balcãs. Edessa era, na época, como é ainda hoje (explica-me o D. durante as viagens de carro de sábado entre as aldeias dos arredores) uma cidade multicultural. A cidade esteve sob ocupação alemã durante a segunda guerra mundial. Foram, aliás, os alemães que construíram grande parte do que é hoje o Museu da Água e os jardins perto das cataratas de Edessa, para fins turísticos. Conta-me o D. que no final da guerra, os ocupantes queriam destruir as construções, mas tiveram a oposição, bem sucedida dos habitantes da cidade. E os canais e canaizinhos que abundam pela cidade, os jardins e as infraestruturas associadas à grande queda de água (Karanos, com 70 metros de altura) e às cataratas mais pequenas que a rodeiam, alimentadas todas pelo rio Edessaios, ali permanecem, sendo hoje uma das maiores atrações da cidade e da região de Pella.

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Postcards from Greece #46 & #47 (Edessa, Aridaia, Nótia, Foústani, Perikleia, Archaggelos)

As cerejeiras de Archaggelos, dentro de uma nuvem e a verdadeira Macedónia

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Ontem ao princípio da tarde viajei com a S., uma muito jovem estudante de Agronomia, entre Salónica e Edessa. A viagem é curta (uma hora e meia) e a rapariga é uma excelente companhia, apesar de ter apenas 18 anos. Responsável, prestável e extraordinariamente simpática. A S. é filha do D., um antigo estudante de doutoramento da AUTH, com quem a M. me põe em contacto para encontrar pessoas que tenham regressado às aldeias desta parte da Grécia nos últimos anos. Como seguramente quase nenhuma destas pessoas falará inglês muito bem e o meu grego é inexistente, a S. ofereceu-se gentil e entusiasticamente para me ajudar a traduzir a conversa. Sinto-me um pouco estranha porque as entrevistas anteriores foram feitas em inglês e agora as pessoas falam e eu não percebo nada do que me dizem. Se não fosse a jovem estudante estaria completamente perdida. É de facto estranho. Embora tenha feito entrevistas noutras línguas na minha vida, incluindo, como disse ali atrás, aqui mesmo na Grécia, foi sempre em línguas que conhecia razoavelmente. Assim, vi-me naturalmente grega. Ou ter-me-ia visto se não fosse, uma vez mais, a jovem e entusiasmada S.

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Postcards from Greece #44 & #45 (Thessaloniki)

«Como me tornei sociólogo» ou «My first job»

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É o título, respetivamente, em Português (do livro ‘Histórias de Verão, Contos de Inverno’, editado pela Asa) e em Inglês (do livro ‘The Man who wouldn’t get up & Other stories’, editado pela Vintage) de um conto de David Lodge, de quem nada leio há imenso tempo, embora tenha lido quase tudo (exceto os ensaios sobre estudos literários e a sua autobiografia saída mais recentemente). O conto é sobre um sociólogo marxista que recorda o seu primeiro emprego, ainda estudante, como vendedor de jornais na estação de Waterloo e a competição pela venda de mais jornais com dois colegas da classe trabalhadora. O aumento da venda de jornais, por causa da competição entre os três, apenas fez com que o patrão aumentasse os seus lucros, sem que os vendedores tivessem tido qualquer compensação. Quando o verão acaba, o estudante deixa o seu trabalho como vendedor de jornais, deixando aos colegas a tarefa interminável de aumentar as vendas. Nessa altura, ele reconhece, como se tivesse tido uma revelação: «eu vi como o capitalismo explora os trabalhadores» e decide tornar-se sociólogo e professor universitário, tomando a decisão com base no facto de a universidade ser um contexto menos afetado «pela ética protestante e pelo espírito do capitalismo», para usar o título de um livro que todos os estudantes de sociologia do mundo lêem, de Max Weber. Mal sabia o estudante ficcional de que algumas décadas mais tarde já não é bem assim… mas adiante.
 

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Postcards from Greece #43 (Thessaloniki)

«Valeu a pena ter vivido o que vivi…»*

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… cantava ontem a Maria da Fé, depois do primeiro brinde ao meu aniversário, no Portogalo**. Achei a circunstância adequada à ocasião, apesar de não gostar por aí além de fado. Ou melhor, eu explico, há fadistas que gosto de ouvir e letras e músicas de gosto bastante. Mas em geral, o fado só me faz sentir alguma coisa especial, quando estou fora de Portugal e o ouço assim de repente. «Valeu a pena ter vivido o que vivi/ valeu a pena ter sofrido o que sofri/ valeu a pena ter amado quem amei/ ter beijado quem beijei… valeu a pena», ora bem, pareceu-me como já disse, adequado à celebração do meu 51º aniversário. Apesar de nunca me ter sentido com uma idade específica (pode ser-se ‘ageless’?) e de sempre ter gostado muito de fazer anos, a verdade é – convenhamos, também não sou propriamente desprovida de bom senso – que já vivi mais do que aquilo que poderei esperar viver, mesmo que tenha uma vida longa. E portanto, depois do meio século, parece uma boa altura para fazer os balanços e balancetes deste fado. E concluo, pois, como no fado, valeu a pena ter vivido o que vivi, sofrido o que sofri, amado quem amei, beijado quem beijei, passado o que passei, sonhado o que sonhei, conhecer quem conheci, ter sentido o que senti, cantado o que cantei e chorado o que chorei, nos meus 51 anos sobre a terra. E acho que não é preciso dizer mais nada, embora ao extenso rol cantado pela Maria da Fé pudessem ser acrescentadas imensas outras coisas que, naturalmente, só fazem com que os meus 18 268 dias tenham valido mais a pena.

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Postcards from Greece #41 & #42 (Galátista)

É também uma manifestação de resistência…

 

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… explica-me a R., a propósito da ‘Kamila’, uma festa traditional que, ao contrário do que eu pensei quando me falaram dela inicialmente, dada a data (6 de janeiro), nada a tem a ver com o natal. Estávamos em Galátista, onde vive a minha outra colega, exatamente para que eu assistisse à Kamila. Ontem esteve mais um dia maravilhoso, cheio de sol, e quando chegámos à aldeia, devia ser meio dia, já o cheiro da carne grelhada, tão típico da Grécia, enchia o ar. Fomos subindo a rua, passámos a pequena igreja e entrámos no largo principal da aldeia. Estava muita gente, mesmo muita, numa confusão de cumprimentos, risos, música e o cheiro mais evidente que nunca da carne a grelhar em assadores à volta do pequeno largo. Encontrámos a M. e a filha e o marido e mais umas quantas pessoas. No meio do largo, três cavalos entravam deslumbrantes, faziam umas piruetas e desapareciam. Depois entraram 3 músicos, dois flautistas e um tocador de bombo e os dançarinos, muitos, homens e mulheres, vestidos de trajes tradicionais. Os homens com as camisas brancas compridas atadas à cintura com uma faixa preta e, por cima, um lenço vistoso. As mulheres com os mesmos lenços vistosos à cabeça ou aos ombros, saias compridas e blusas a condizer, bem maquilhadas e bonitas para a festa, pois então. Todos, homens e mulheres traziam pequenas garrafas de ouzo ou tsipouro e dançavam com elas nas mãos. E bebiam delas, pois claro! O barulho era intenso, como só os sul europeus sabem fazer, em dias de festa, ou em outros, vá, quando se junta muita gente alegre.

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Postcards from Greece #40 (Néoi Epivátes)

‘It’s a different kind of happy…’

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Estive muito tempo sem escrever postais, o Natal e isso e o facto de não ter sempre histórias para contar e, por incrível que pareça a quem me conhece, não ter sempre alguma coisa a dizer. De qualquer maneira o postal número 39 foi há imensos dias e hoje é um dia tão bom para escrever o postal 40 (que, na verdade deveria ser o 59) como qualquer outro. Foi bom reencontrar Salónica onde a deixei, seja como for, ontem, após uma viagem cansativa, como quase todas. A única coisa de que não gosto muito quando viajo é da deslocação de um lugar para o outro. Já o disse de outras vezes, noutros postais de outras viagens, que deveríamos ter acesso ao tele-transporte, a uma lâmpada de Aladino, a um anel especial ou um botão em que carregaríamos quando nos apetecesse mudar de ares ou quando tivéssemos de visitar outras paragens. Perde-se muito tempo entre aviões, comboios, táxis autocarros. E, na maior parte dos casos, é isso mesmo que sentimos: que perdemos tempo.

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