Lettres de Paris #68

Y aura-t-il de la neige à Paris?*

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eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

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Lettres de Paris #67

Moi, la gourmande…

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que é como quem diz, eu a comilona, eu a gulosa ou ainda eu a que gosta de comer bem. Não tiro geralmente fotografias a comida e, mesmo que tire eventualmente, não tenho por hábito publicá-las. As razões são várias, mas digamos que tenho um certo pudor em publicar o que como. Não que coma demais habitualmente mas… adiante que não é disso que se trata. Abro hoje uma exceção e publico uma fotografia de comida. Uma fotografia da minha sobremesa de hoje, um café gourmand, que é como quem diz, então, guloso ou destinado aos gulosos e àqueles que gostam de comer.
É quase uma instituição o café gourmand em Paris. Ainda outro dia bebi um extraordinário, ainda que menos abundante que este (e bastante mais caro, diga-se) no Café de la Paix, um dos cafés – acho que posso dizê-lo – mais clássicos de Paris e mais bonitos, com vista direta sobre a Opéra. No fim de semana passado bebi outro no Marché des Enfants Rouges, à laia de almoço, mais modesto do que o de hoje e do que o do Café de la Paix, mas saboroso – guloso – ainda assim. Para quem não saiba, adoro comer, de verdade. Gosto praticamente de tudo (bom, menos de polvo, de chocos, de lulas, de ostras, de tamboril, de caracois e dos seus primos franceses, os terríficos escargots…) e tanto faz serem doces ou salgados, marcha tudo, por assim dizer, com apetite e alegria. Mas, apesar disto, tenho um fraquinho por doces. E muita dificuldade em resistir-lhes.

Lettres de Paris #66

C’est Paris

Há uns dias, num café perto do Marché des Enfants Rouges, falei com a minha prima Lena acerca do livro de Julien Green (‘Paris’, Tinta da China, 1ª edição de 2008). Reli o livro, que comprei em 2012, no avião. E falámos dele a propósito da flânerie, palavra que literalmente poderia ser traduzida como ‘vadiagem’, mas que está longe de ser apenas isso. Flâner é basicamente passear pelas ruas e praças e observar e absorver. Com tempo. Ociosamente até. Gosto de pensar em mim como flâneuse, embora na maior parte das vezes que viajo não tenha o tempo necessário para o ser verdadeiramente.
Diz Julien Green no texto ‘uma cidade secreta’ que «Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural (…) porque há muitas parises e a do estrangeiro só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses». E eu sou estrangeira, irremediavelmente, para ter tempo para conhecer o que é possível (mesmo a um parisiense) de uma cidade tão diversa – já o reconheci numa carta anterior – como esta. Mas a verdade é que passear em toda a parte, subir a sítios altos e descer de sítios altos, sentar-me nos cafés, fumar nas esplanadas e observar ociosa, mas atentamente o que vai acontecendo à minha volta é uma das coisas que mais gosto de fazer, em Paris como noutro sítio qualquer. Assim mesmo, sempre estrangeira, estou certa que não conheço nenhum lugar bem, tal como, estou igualmente certa, não conheço nenhuma pessoa bem – nem a mim mesma. As cidades, escrevi também isto num postal de Bucareste, há muito tempo, precisam de tempo, como as pessoas. E as cidades tão múltiplas como Paris precisarão ainda de mais tempo. E, assim, mesmo nunca será suficiente. Ao contrário do que diz Green, no mesmo texto que mencionei, nem mesmo com tempo poderemos afirmar conhecer bem uma cidade (ou uma pessoa). Isto é bom e mau, como quase tudo, sendo que entre estes dois extremos existe toda uma série de possibilidades. Bom porque seremos sempre surpreendidos. Mau porque seremos sempre surpreendidos. Não é contraditório. Absolutamente.

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Lettres de Paris #65

«Sei tudo o que você faz em Paris….»

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podia ser uma frase mais ou menos assustadora, se a tirassemos do contexto. Mas a frase tem um contexto, como é evidente, e esse contexto como sempre, como em tudo – e não é por ser socióloga que o digo – é muito importante. Já o contei no Facebook para alegria – aparentemente, a avaliar pelo número de ‘likes’ – dos meus amigos, mas conto de novo o contexto desta frase. Antes disso, devo dizer que dedico esta carta à G., a pessoa que a proferiu. Se me estiver a ler, G., como creio que me lê com frequência – o contexto, portanto – saiba que esta carta lhe é dedicada.
Estava eu hoje a fumar um cigarro à janela do meu estúdio, no 1º andar, virado para a estreita Rue Suger, já passava da hora do almoço, mas ainda assim, estava de calças de pijama, t-shirt e um casaco de carapuço, velho, de andar-por-casa, que o André me emprestou, tinha o carapuço posto, além do mais, por causa do frio e da rouquidão que tenho e do surto de gripe que assola a França (vi na BMFTV)… estava eu, nestes preparos, a fumar um cigarro debruçada na grande janela, quando vejo passar duas pessoas, uma senhora e uma adolescente. Continuei a fumar, de carapuço enfiado na cabeça e calças de pijama vermelhas aos quadrados, enquanto as duas olhavam insistentemente para mim, de cabeça no ar. Passaram debaixo da janela e continuaram a olhar. Achei que devia ser por causa dos meus preparos e, sobretudo, por causa do carapuço na cabeça, que me daria um ar de dread-intelectual, devido aos óculos de massa… em qualquer caso, estranho, supus eu. A senhora volta um bocadinho para trás e do passeio do outro lado da estreita rua diz-me ‘Bonjour!’. Respondi-lhe de volta ‘Bonjour’ e instintivamente tirei o carapuço, convencida que ela me iria pedir uma direção qualquer. Aconteceu já algumas vezes, enquanto fumo à janela pedirem-me direções, cigarros ou simplesmente – se é tarde – como agora – algum bêbado cumprimentar-me.

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Lettres de Paris #61 a #64

Ma maison me manque

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ou não sei o que é. Depois da visita da Sílvia e do Guilherme, das celebrações dos 50 anos de ambas e de três dias com eles, fiquei hoje a modos que ’em baixo’. Ou não sei o que é. Não é que esteja farta de Paris. Ninguém no seu perfeito juízo poderá, objetivamente, ficar farto de Paris (bom… sou capaz de pensar em duas ou três situações em que isso pudesse acontecer), é evidente. Mas começo, talvez, a sentir falta da minha casa, do meu gabinete, das minhas coisas, das rotinas diárias. Essas coisas. Ou não sei o que é. A verdade é que ultimamente, desde há 4 ou 5 dias, o tempo tem estado muito cinzento e chuvoso. Não aquela chuva desempoeirada, que cai com abundância. Mas uma chuvinha chata, poucochinha mas continuada, que enche tudo de uma espécie de viscosidade que aborrece. Isso e a poluição. Tenho tosse há dois ou três dias e chateia-me tossir. Também me doi o polegar da mão esquerda. E isso também me chateia. Enfim, estou lamurienta, queixinhas e ’em baixo’ e portanto deduzo que tenho saudades de casa, sendo casa tudo o que a mesma significa, como é evidente.
 
Na verdade estou quase a ir-me embora e por isso devia estar mens queixinhas e aproveitar as duas últimas semanas(ou quase isso) por aqui. Vou aproveitar, penso, mas logo a seguir já não me apetece aproveitar. Só me apetece estar em casa. Hoje não há nada a fazer. Escrevo outra carta que são muitas, cartas por atacado, também por isso. Porque nem me apetece escrever, apesar de haver coisas a contar, sobretudo dos últimos dias em que celebrei com a minha irmã-praticamente-gêmea os nossos 100 anos de existência. Não creio que ter feito 50 anos me tenha afetado particularmente (bom, esta dor no polegar se calhar é uma artrose, e as artroses são coisas que se agravam com a idade… portanto, talvez os 50 anos me tenham afetado, afinal, logo assim, para começar). Nunca me importei de fazer anos. Será sempre bom sinal e toda a gente sabe que fazer anos é melhor que não os fazer. Ninguém pode ficar parado nos 20 anos e, sinceramente, tirando a questão dos ossos, eu também não quereria ter 20 anos agora. Nem 30, nem 40, nem 10, nem 5. Quero ter estes 50 anos que tenho. Com o que a vida me deu (menos as dores nos ossos). E quero a minha casa. Pronto.
 

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Lettres de Paris #59 et #60

Nous ferons 100 ans à Paris…

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A Sílvia há-de ser a pessoa com quem festejei mais aniversários na vida. Desde há mais de 20 anos que, com raras exceções, passamos o aniversário juntas. A razão é simples: nascemos no mesmo ano, na mesma maternidade, com um dia de diferença apenas. Portanto, podemos dizer que nos conhecemos desde o dia em que nasci eu, que fui quem das duas nasceu mais tarde.
Este ano fazemos 100 anos, a dividir de forma igual pelas duas. Quando for meia-noite de 7 para 8 de janeiro entraremos ambas nos cinquenta. 100 anos a dividir por duuas é uma idade e pêras e muita coisa aconteceu desde que nos cruzámos, ela bem disposta como sempre e eu chorona, como quase sempre, mas por causa dela menos, na Maternidade Alfredo da Costa.
Por isso somos irmãs-praticamente-gêmeas. E por isso, com raras exceções, desde há mais de 20 anos festejamos os nossos aniversários juntas. Há 3 anos, quando fizemos 94 anos por junto, estávamos ambas em Paris. A situação era a contrária. Ela estava na Maison Suger e fui eu que vim visitá-la e festejar com ela o aniversário. Hoje ela está quase a chegar para o início das celebrações. Ela e a segunda pessoa com que creio ter festejado mais aniversários na vida – o meu sobrinho-emprestado-único-e-preferido, o miudinho que conheço desde que nasceu e que é um dos meus amores da vida. O meu Guilherme.

Lettres de Paris #58

«Ma patrie est une valise/ ma valise, ma patrie»

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estava escrito numa das dez cadeiras-confidentes, nos jardins do Palais Royal. No primeiro dia do ano, estava frio em Paris mas assim mesmo eu e o André lá fomos para a rua. Fomos a pé até ao Hotel de Ville, onde eu já estive tantas vezes de noite e de dia. Cruzámos a Pont Saint-Michel e fomos andando pelo Boulevard du Palais, depois pela Pont au Change que tem uma das melhores vistas sobre Paris, se é que se pode avaliar as vistas de Paris, a partir de todas as pontes, de todos os terraços, de todos os lugares. A seguir virámos à direita no Boulevard des Gevres e chegámos ao Parvis de l’Hotel de Ville. Andámos no pequeno carrossel, como se fossemos duas crianças que muitas vezes creio que, apesar da idade, ainda somos. É preciso alguma arte e algum esforço para carregar a infância dentro pela vida fora. Mas sempre vos digo que é uma arte e um esforço que valem a pena. Sobretudo se se trata de olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Sobretudo se se trata de andar nos carrosseis que encontramos vida fora.
 

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Lettres de Paris #52 a #57

‘Vas où tu veux, meurs où tu  dois’

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Não escrevo cartas desde antes do Natal. Foi uma relativamente longa ausência. Porque precisava de um intervalo, primeiro e porque não me apeteceu escrever muito, depois. Pelo meio também fiquei temporariamente sem computador. Poderia ter escrito cartas a partir do telemóvel, é um facto, mas aquilo é muito pequeno e eu tenho quase 50 anos e já vejo mal ao perto, é o que é.
Faço 50 anos daqui a dias. 18258 dias, diz-me uma calculadora de tempo de vida qualquer que encontrei no google. 18258 dias é muito tempo, ou pouco, conforme nos sintamos. Eu tenho dias que me sinto com poucos anos e dias e outros em que sinto o peso destes milhares de dias e milhões e milhões de segundos. Depende. De qualquer maneira tenho consciência de que já vivi mais dias do que aqueles que poderei esperar viver daqui em diante. Isso é um bocadinho assustador, devo confessar. Isso e o provavelmente vir a precisar das chamadas ‘lentes progressivas’. Pode haver coisa mais de terceira idade que isso? Pode, claro. As dores nos ossos e nos músculos e, sobretudo, a falta de paciência para imensas coisas que, a bem dizer, nunca tive, mas que tenho cada vez menos.

Lettres de Paris #51

Le Père Noel n’exist pas…

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e sendo assim não sei quem terá vindo aqui deixar tanta tralha. Se ele existe, sempre lhe digo que tem uma grande lata. Vir deixar aqui as prendas que, ainda por cima, são para outras pessoas. E agora eu que as carregue daqui para fora, se é que quero que as pessoas a quem se destinam as recebam a tempo do Natal. Se não existe e não foi ele, então não sei quem terá sido, mas de qualquer maneira vou ter que as carregar comigo. Encarregar-me delas. Não há outra solução.
 
Já gostei mais do natal, com ou sem pai natal. Já gostei mais de comprar prendas e de as entregar, é verdade. Mas hoje, ao olhar para estes embrulhos que o pai natal que não existe aqui deixou fiquei contente, mesmo se nenhum deles é para mim. Não sei se as pessoas que os vão receber – e são poucas, que já se sabe que as coisas não estão de feição para grandes gastos, coitado do pai natal ainda para mais às compras em Paris onde, eu bem vejo nas montras das lojas, é tudo tão caro! -vão também ficar contentes. Mas o malandro, ou quem foi que aqui deixou os embrulhos e acendeu as velas para dar um ar mais festivo à coisa, esqueceu-se de duas ou três pessoas. E agora lá vou eu ter de me encarregar pessoalmente do assunto, às portas do natal. Sinceramente.

Lettres de Paris #50

On peut pas céder au peur

dizia um comentador francês, a viver em Berlim, há pouco na BFMTV, o único canal, dos 20 e tal que tenho aqui, todos franceses. Vejo habitualmente este canal porque é uma espécie de TSF, estão sempre a dar notícias. Liguei a televisão já passava das nove da noite. estava a passar a ferro e a aborrecer-me, como de costume, com tal tarefa e decidi ligar a televisão. Comecei a ouvir qualquer coisa sobre atentados mas pensei que era sobre os atentados em França dos últimos anos. Depois percebi que tinha sido hoje, há poucas horas, em Berlim e prestei mais atenção. Reconheci a igreja que tinha achado tão bonita e comovente – já se sabe que eu gosto de igrejas – da única vez que estive em Berlim, há 8 anos, numa viagem que ficou marcada pela perda da minha mala pela TAP e pelo facto de ter tido de comprar roupa nova porque a mala andou extraviada 5 dias. Lembrei-me que tinha ido mandar fazer a bainha de dois pares de calças ali a um centro comercial, perto da Kaiser-Wilhelm-Gedächniskirche, uma igreja luterana que nunca foi reconstruída completamente, exatamente para preservar a memória da destruição de que o ser humano é capaz.
As fotos de hoje são dessa igreja, em Berlim, mesmo que a carta seja escrita de Paris. Dessa igreja que achei comovente exatamente por estar parcialmente destruída. Que achei comovente por causa das suas figuras muito simples, de pedra. E que hoje voltei a achar comovente, de outra maneira, ou talvez da mesma, quando a vi nas imagens da BFMTV. Muitas imagens da destruição que o camião provocou no mercado de natal em frente à igreja, na Breitscheidplatz. Das ambulâncias. Muitos comentadores que falavam do ataque aos símbolos. A igreja, o mercado de natal, a época do ano justamente. Mas os símbolos não morreram, nem ficaram feridos, apenas as pessoas, tristemente. Muitos comentários a articular o presumível (foi sempre assim que se lhe referiram, e bem, creio eu) com o que se passa na Síria, por exemplo. Com os refugiados e o alegado recrutamento que os jihadistas fazem entre eles.

Lettres de Paris #49

L’amour gagne toujours

estava escrito ontem (hoje também deve lá estar e deverá continuar por muito tempo, presumo) numa parede da Rue Guy Môquet. Paris é uma cidade romântica ao que dizem, é natural que assim como ‘l’amour court les rues’, como escrevi numa carta anterior, se pense por aqui que ‘l’amour gagne toujours’. Mas ganha sempre sobre o quê, afinal? O que há a ganhar ou a perder, senão, neste caso, um pouco de romantismo. E falo de romantismo naquela acepção lamechas, ‘boy meets girl’ e por aí a fora. Sendo certo que, nesta acepção, o amor não ganha nunca. Porque não há nada a ganhar primeiro, outra vez e depois, porque o amor acaba, como é evidente e próprio das coisas, acabar. Mais tarde ou mais cedo, há-de acontecer. Antes tarde que cedo, é preciso que se acrescente. Na outra acepção mais abrangente do amor, também é verdade que ele não ganha sempre porque, mais tarde ou mais cedo, também, morreremos.
 
Não estou muito bem disposta como se notará. Estou mesmo rabugenta, como os que me conhecem melhor, repararão certamente. Adormeci às 5 da manhã, sonhei que a sanita começava a deitar cada vez mais água até acordar com a cama a boiar no quarto e com a Maison Suger alagada de água sanitária, mal cheirosa. Acordei com pessoas a baterem-me à porta ainda não eram 10 horas. Era o senhor da manutenção. O tal que ontem devia ter vindo, mas não veio porque morava longe. Estava o diretor da Maison e a secretária e entrou tudo pelo estúdio adentro, mais exatamente pela casa de banho adentro. Monsieur le directeur propôs-me mudar para um estúdio gigante, aqui no mesmo patamar. Fui ver o estúdio e só de pensar que tinha de lavar a louça toda outra vez antes de a usar se me revoltou o meu estomago ainda sem pequeno almoço. Disse-lhe que sim, bom, se não houver outra solução, claro. Não podia ficar num sítio onde não se pode usar a sanita, bem entendido. Resta dizer que tirando isso, o resto da casa de banho estava perfeitamente funcional.
 

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Lettres de Paris #48

Une journée de merde

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pardon my french. O dia não começou mal. Levantei-me tarde, dormi bastante e acho que não muito mal. Mas acabou de uma forma muito desagradável e continua a ser desagradável. Até quando não sei, sendo certo que haverá coisas piores, mas há transtornos um bocado mauzinhos, sobretudo quando se paga uma pequena fortuna para se estar num sítio onde tudo parece estar caquético. Saí de casa por volta das 3 da tarde, deixei tudo impecável e bem. Entrei em casa quase às onze da noite e mal abri a porta ouvi água a correr. A casa de banho estava toda inundada, a sanita cheia de água de aspecto duvisdoso e eu fiquei perfeitamente azamboada com aquilo. Liguei para o o número ‘da noite’ aqui na Maison Suger. Nada. Desci outra vez ao átri de entrada e o homem lá apareceu. Contei-lhe. Veio ver. Fechou a água do autoclismo e preparava-se para ir à vida dele, quando eu lhe disse que nem pensar, que ligasse ao diretor ou a quem fosse.
 
Saiu. Passado um bocado regressou, que o não tinham atendido de um sítio, e que o colega que faz os arranjos na casa não podia vir, porque morava longe. Eu perguntei-lhe se ele achava que isto eram condições, que chamasse um canalizador. Que não estava autorizado. Bonito. Saiu outra vez e passado um bocado ouço alguém na porta ao lado. A vizinha – que descobri depois que é brasileira – exatamente com o mesmo problema. O faz tudo da Maison tinha ido de manhã arranjar-lhe a sanita e agora estava tudo inundado também. O senhor que fica aqui à noite saiu outra vez para ligar a não sei quem. Voltei a dizer que chamasse um canalizador. Que não. Regressou com uns tubos a casa da vizinha. Passou quase uma hora e eu sem saber de nada. Fui lá. Tudo na mesma. O problema é na casa ao lado e não aqui, mas a verdade é que isso me interessa pouco, visto que não posso usar a sanita. Digo-lhe isto. Ele diz que já vem cá. Passa mais um grande bocado e nada. Vou lá outra vez. Afinal parece que chamou alguém, um homem, que aparece dali a um bocado. Ficam os dois na casa ao lado e de vez em quando vêem ver o que se passa deste lado. A sanita acaba por se esvaziar e o chão por secar, mas cheira mal. Tenho vontade de ir à casa de banho e tenho de ir à cave, descer até ao átrio e depois descer umas escadas estreitas até lá. Rica solução.
 

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Lettres de Paris #47

Nom, prénom

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Uma coisa que me escapa e que me faz enganar imensas vezes é que os franceses usam ‘Nom’ para o apelido (sobrenome, surname, etc…) e ‘Prénom’ para o nome próprio. Quando me perguntam em algum sítio pelo ‘Nom’, é certo que respondo Elisabete. Não raras vezes me têm dito: ‘ça c’est votre prénom’, como se eu tivesse algum problema mental, ou assim. Também é certo que quando me perguntam o ‘Prénom’ – se antes não tiver ocorrido a conversa anterior – eu fico dois segundos a pensar, antes de dizer Figueiredo. Claro que olham para mim ainda com mais cara de caso, porque evidentemente são incapazes de pronunciar o meu apelido e, porque, também evidentemente, me tinham perguntado o nome.
 
Portanto é uma trapalhada, com muita frequência entre o meu ‘nom’ e o meu ‘prénom’, em que quase sempre os franceses acabam a corrigir-me, claro. Quase toda a gente me trata por ‘madame’ coisa que também tenho dificuldade em assimilar que é a mim que se estão a referir. ‘Madame, moi?’. Bem, há bocado um bêbado passou aqui debaixo da janela e estando eu a fumar um cigarro debruçada na dita, com a escuridão e a bebedeira, referiu-se a mim, como ‘jeune dame’. O que é, convenhamos, menos mau que madame. Madame ‘Figuêredô’ mais ou menos isto. E portanto eu ando sempre num virote, sempre a certificar-me que sou eu, a madame, sempre a certificar-me que o meu ‘nom’ é Figueiredo’ e o meu ‘prénom’ Elisabete.

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Lettres de Paris #46

Et maintenant pour quelque chose de complètement différent…

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… comi verdadeiro frango assado português acompanhado por uma mini super bock, um cafézinho delta e um pastel de nata. Onde? Em Paris, bien sûr, Rue de l’École Polytechnique, perpendicular à Rue Valette e a que nunca tinha dado atenção. Bem sei que pareço uma verdadeira emigrante ultimamente com o tema da comida. Disse-me outro dia a Mónica que estes desejos são o primeiro sinal que nos estamos a tornar em emigrantes. Pois que seja. Quase 2 meses em Paris, com ligeiras interrupções, dão nisto. Falei-vos do desaire do poulet rôti há dois ou três dias. Le pire poulet rôti au monde. Na verdade fiquei mal disposta desde que o comi. Já devia ser frango velho, ou melhor, frango envelhecido no frigorífico ou no forno do lamentável restaurante da Rue Saint-Séverin. Mas eu não sou pessoa de desistir assim facilmente, sobretudo se o assunto envolve comida. Também sou de dar segundas oportunidades aos meus desejos, vá. E terceiras e mesmo quartas.
 
De modo que, quando me lamentei ao André da minha pouca sorte com o poulet rôti, o rapaz (aka #pingaamor) pôs-se em marcha. Bom, não veio até Paris com um frango assado na mala (coisa que, convenhamos seria ‘the ultimate romantic move’, especialmente se ao frango se juntassem umas batatinhas fritas e uma salada temperadinha ‘façon portugaise’ e umas duas ou três minis, pronto), mas pôs-se em marcha sobre o google (coisa que, obviamente eu mesma poderia ter feito) e anunciou-me triunfante passado um bocado que, mesmo na rua ao lado do Ladyss, havia uma churrasqueira portuguesa, justamente chamada ‘a nossa churrasqueira’. Não lhe dei grande crédito, confesso. Mas hoje, depois de um dia que começou bastante cedo (devido a um seminário na EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, por um lado e, por outro, devido ao barulho que fizeram logo de manhãzinha os homens das obras do prédio aqui da frente) e de estar 10 horas quase a trabalhar, ou enfim, qualquer coisa de muito parecido, quando saí do Ladyss às oito da noite, vi a Rue de l’École Polytechnique ali mesmo à minha direita e, considerando tudo mais o facto de nunca ter ido para aqueles lados, lá entrei na rua, bastante pequena, que desemboca numa praça muito bonita – a Place Larue – onde, justamente, fica a École Polytechnique.
 

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Lettres de Paris #45

Au claire de la lune

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‘mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu (…)’
 
Não foi a primeira canção que aprendi nas aulas de francês, no então chamado 1º ano do ciclo preparatório. Mas deve ter sido das primeiras. Já agora, a primeira, que ainda sei de cor note-se, como se fosse a mesma miúda de 10 anos e longas tranças e meia pespineta que se sentava nos bancos da escola preparatória para aprender – entre outras coisas igualmente espantosas – francês, foi ‘Un, deux, trois, je vais dans les bois
quatre, cinq, six, cueillir des cerises
sept, huit, neuf, dans mon panier neuf
dix, onze, douze, elles sont toutes rouges!’
 

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Lettres de Paris #44

Le pire poulet rôti au monde

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faz-se em Paris, no OComptoir, escrito assim mesmo, que fica na Rue Saint-Severin. Portanto, se vierem a Paris e vos apetecer de repente comer frango assado procurem outro sítio. Não sei porquê hoje apeteceu-me comer frango assado e lembrei-me que tinha passado num sítio onde o faziam. Até pensei trazer um para casa e comê-lo com uma saladinha. Por isso, quando saí do Ladyss, num dia sem grande história, dirigi-me para a Rue San Severin em busca do frango assado. Que não vendiam para fora. Resolvi então comer ali mesmo. O restaurante é um desses sítios que não se compreende bem o que é, ou seja, de que tipo é. Anunciava, no entanto, cozinha francesa. Sentei-me longe do piano e da rapariga que até nem cantava mal os ‘greatest hits’ da canção francesa. Aquilo devia ter-me dado algum sinal, mas lamentavelmente não deu. Lá pedi o frango assado e uma cerveja, apesar de tudo antecipando o bem que me iria saber o dito frango.
 
Quando o frango chegou fiquei logo preocupada. Mal assado e com umas batatas igualmente assadas que, visivelmente se tinham visto ‘negras’ para ali chegar. Era tudo. Nem uma saladinha, nem um arrozinho. Provei o frango e nem vos seis dizer como era horrível. Juro que havia partes que sabiam a mofo, ou a alguma coisa que parecia mofo e que não sei definir. Comi as batatas e um bocadinho de pão. Pensei refilar mas considerei que não valia a pena. Para me trazerem outro ainda pior? Nem bebi café nem nada e pus-me andar, depois de pagar uma quantia exagerada por umas batatas e pão afinal. Vinha furiosa pela Rue Saint-Severin fora, a pensar porque raio me haveria de ter apetecido frango assado e porque raio tinha eu trocado os únicos quatro restaurantes de Paris de que gosto genuinamente (bem, há um quinto, mas fica um bocadinho longe daqui, no Marais) por um totalmente novo. Não duvido que haja outros restaurantes bons em Paris, claro, sobretudo caros, sem dúvida. Mas aqui no bairro, gosto destes quatro e nunca fui mal servida em nenhum deles.
 

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Lettres de Paris #43

L’amour court les rues

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Hoje não fui para o Ladyss. Tinha trabalhos para ler e em casa achei que estava mais sossegada. Fui, no entanto, beber um café ao Saint-André e caminhar um bocadinho, pequenino, aqui no quartier. Gosto da Place Saint-André des Arts, aqui ao fundo da estreitíssima Rue Suger. Sempre gostei. Não sei porquê, mas acho que concentra a essência de Paris. A estação do metro, os cafés com as suas esplanadas em anfiteatro, a tabacaria, a loja de ‘souvenirs’, as livrarias e o modo como se alarga à medida que vamos chegando à Place Saint-Michel, com a sua fonte imponente e mais cafés, livrarias, lojas e o Sena logo ali, ao atravessar a rua e a Notre Dame vista da Pont Saint-Michel.
De maneira que me pus a apreciar a pequena praça onde Paris se concentra, a partir da esplanada do Le Saint André. Nem a Julie, nem o empregado que fala português (e mais 6 línguas, disse-me ele outro dia), embora seja albanês (também me o disse outro dia) estavam hoje no café, mas o empregado que lá estava deu-me na mesma os bons dias. Depois do café e da contemplação da praça, decidi ir passear o tal bocadinho, pequenino, e meti pela Rue Saint-André des Arts, de que também gosto, com as suas creperies boulangeries, cafés, restaurantes, lojas de bric-a-brac, uma livraria da Actes-Sud, boutiques de roupa, ervanárias, e – descobri hoje – uma deliciosa ruazinha, cheia de cafés e galerias e restaurantes e encanto – o Cours du Commerce Saint-André. Tirei poucas fotografias porque só tinha a máquina fotográfica pequenina comigo. Numa dessas fotografias, que tirei na ruazinha que vai desembocar no Boulevard Saint-Germain, reparei só há bocado quando passei as fotos para o computador, via-se um escrito vertical numa parede: l’amour court les rues. Quando tirei a fotografia não reparei no escrito. O amor corre as ruas ou corre nas ruas ou pelas ruas.

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Lettres de Paris #42

Swagger

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“What hempen home-spuns have we swaggering here, so near the cradle of the fairy queen?”** pergunta Puck, em a Midsummer Night’s Dream, de Shakespeare. Atribui-se a Shakespeare a introdução de mais de 20 palavras completamente novas no léxico inglês, e, no caso de algumas delas, no léxico global. Swagger é exatamente uma dessas palavras. Descreve alguém que tem atitude, que caminha e fala e age com confiança e acredita que é importante, em suma, um bocadinho fanfarrão, até. Num certo sentido devíamos ser todos swaggers, creio eu, que, dependendo dos contextos, também faço um bocadinho de swaggering, como quase todos nós, suponho.
Vem isto a propósito do filme que fui ver hoje à tarde, no Mk2 – coté Saint-Michel. Um documentário chamado exatamente Swagger*, de Olivier Babinet, que nos mostra o que se passa na cabeça de 11 crianças e adolescentes que vivem nos bairros pobres e suburbanos de Paris onde, apesar de se avistar a Torre Eiffel, Paris chega apenas dificilmente. Uma das adolescentes diz que nunca viu um francês de gema, mas acrescenta ‘que é isso, um francês de gema?’, cheia de swagging, claro. Outra confessa ter uma amiga mesmo francesa, mas depois reflete melhor e conclui que afinal não, ‘elle est portugaise’. Não aparecem jovens de origem portuguesa no filme, mas há algumas menções, como esta e a de outro adolescente que conta estar apaixonado de ‘une belle fille, elle a les yeux verts, elle est portugaise’. Supõe-se que estas ‘portugaises’ frequentem o mesmo liceu que estes 11 rapazes e raparigas – o Claude Debussy, em Aulnay-sous-Bois .

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Lettres de Paris #41

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De 7 à 77 ans…

Lembro-me bem de ser pequena e durante a maior parte da minha infância e juventude, do meu pai nos trazer quase todas as semanas a Revista Tintim, a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos. Eu e a minha irmã devorávamos aquilo e ficávamos à espera da próxima. Creio que essas revistas já não existem lá em casa. Deveria tê-las guardado, muito provavelmente, mas não nos ocorre guardar muitas coisas quando somos muito novos, porque quando somos novos o tempo não acaba nunca, nem as revistas do Tintin. Quando cheguei à Gare du Midi em Bruxelas há uns dias, encontrei numa das saídas da estação dois paineis enormes com cenas do Tintin. Em algumas ruas voltei a encontrá-lo, assim como em algumas montras de lojas daquela cidade. Uma instituição, o Tintin, para quem o tempo não acaba nunca.

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Lettres de Paris #40

Collecting money for…

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travel around the world. Sigo o exemplo deste rapaz que encontrei na Grand Place, em Bruxelas, antes de ontem. Amanhã vou passear pelas ruas de Paris com um cartaz destes ao pescoço. Mas em vez de pedir dinheiro (money, portanto, e não mooney como ele escreveu) para um iphone 7, pedirei dinheiro para viajar à volta do mundo.
 
E além desta ideia que roubei a este moço, hoje não tenho grande coisa a dizer. Dormi que nem uma pedra. Acordei tarde. Fui trabalhar. Fui pelas ruas do costume, mas não atravessei a estrada para cumprimentar de perto Monsieur Montaigne. Acenei-lhe do outro lado da rua, espero que tenha visto. No regresso passei por ele e voltei a cumprimentá-lo, desta vez tocando o seu pé dourado, embora sem pedir nenhum desejo, nem sequer o dinheiro para a volta ao mundo.
 

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Lettres de Bruxelles #2

La Tour de Babel et ‘l’événement jumelage’

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Hoje não tive tempo para tirar fotografias. Além de não ter dormido praticamente nada, estava a pé às 7 e um quarto da manhã em Bruxelas, 6 e um quarto da manhã em Portugal. A um dia feriado, enfatize-se, de onde se conclui que não há – pelo menos hoje não houve, de certeza – justiça no mundo. Foi isto que eu pensei exatamente, ainda a dormir, quando tomei banho e me vesti e comi o pequeno almoço no The Augustin, na Avenue de Stalingrad. Paguei o hotel e pedi ao senhor da receção que me chamasse um táxi para ir para a Place Madou, nº 1. Fez cara de caso e disse que um táxi, antes das nove horas, em Bruxelas, podia ser um problema. Foi a minha vez de fazer cara de caso, ou melhor, de surpresa. Um problema, porque? Explicou-me que o táxi podia levar vários (e longos) minutos a responder e depois a chegar e, ainda depois, a levar-me ao meu destino. Devo ter feito um ar ligeiramente desesperado, porque o senhor ligou para três companhias de táxis até que uma lhe disse que um táxi estaria ali em 15 minutos.
 
Sosseguei. O táxi apareceu ainda nem 10 minutos haviam passado. O motorista conduzia como um louco, sem necessidade, pensava eu, já que não estava atrasada. Como ainda ia meia a dormir, lá aguentei os improprérios que ele dirigia aos outros condutores e os solavancos. Em pouco tempo estavámos em frente à Torre Madou, no número 1 da praça com o mesmo nome, um dos edifícios da Comissão Europeia, em Bruxelas. Entrei no edifício e fiquei pasmada. Uma fila gigantesca de pessoas para passar o controle. Obviamente não me havia ocorrido tal coisa. Passar no controle. Ainda que faça sentido que assim seja, a situação dentro do edifício estava absolutamente caótica. Lá me meti na fila, que havia eu de fazer. Ouvi falar português e travei conhecimento com um compatriota muitíssimo simpático, cuja mulher há-de ter sido minha aluna, na Universidade de Aveiro, nos idos de 1990 e troca o passo. Descobrimos conhecimentos comuns, falámos disto e daquilo e a fila não andava nem desandava. Estavamos nisto e ouço alguém dizer ‘Madame Figuêredo’, ‘Madame Figuêredo’… ‘C’est moi’, disse eu, diante da menina que por mim chamava. Embrenhada na conversa com o compatriota simpático não me apercebi que desde que tinha chegado tinham já passado uns bons 15 a 20 minutos e estava na hora, não da minha conversa, mas de dar início à primeira sessão em que eu nem sequer devia estar, mas aparentemente alguém tinha decidido que todos os oradores deviam estar sentados na mesa, desde o início.
 

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Lettres de Bruxelles #1

Nationalité: indeterminée

A menina da recepção do hotel estendeu-me um papel que eu devia assinar e completar com o meu endereço de email. Assim fiz e quando ia devolver-lhe o papel reparei que na nacionalidade estava escrito ‘indeterminada’. Risquei aquilo e escrevi ‘portugaise’, mas depois fiquei a saborear, por um instante, a minha ausência de nacionalidade momentânea e perguntei à menina porque tinha ela escrito aquilo. Ela respondeu que não sabia, de facto, a minha nacionalidade e depois que eu falava tão bem francês que era difícil perceber de onde eu era. Agradeci-lhe o elogio, mesmo se não é verdade que fale assim tão bem francês, já sabemos. E acrescentei que tinha gostado daquilo da nacionalidade indeterminada, que era a primeira vez que me acontecia e que me soube bem, mesmo se por breves momentos, não ter nacionalidade. Claro que pensei de mim para mim que soube bem porque foi por momentos e porque, claro está, eu tenho uma nacionalidade, por muito que pudesse ter outra qualquer. Mas o facto de eu ter sentido a necessidade de escrever ‘portugaise’ em vez de deixar estar ‘indeterminée’ revela mais sobre o que me sinto, afinal, do que aquilo que gosto de pensar ou expressar que sinto.

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Lettres de Paris #39

Les gens heureux lisent et boivent du café

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foi o título de um livro, na montra da Compagnie, que me despertou a atenção quando passei por lá a caminho do Ladyss. As pessoas felizes lêem e bebem café. Juntar-lhe-ia um cigarro e o título do livro que, pesquisei depois, foi escrito por Agnès Martin-Lugand, que não conheço (apesar do livro estar traduzido em português e editado pela Guerra & Paz) faria todo o sentido para mim. Pelas críticas que li, quando pesquisei, acho que também não vou querer lê-lo. Fico-me pelo título na montra da Compagnie que me fez parar hoje a caminho do trabalho.
 
Tenho bebido mais café e, sim, fumado mais cigarros, do que tenho lido, por estes dias. Gasto os dias não sei bem em quê (enfim, aparte as horas em que estou no Ladyss ou a passear) e acabo por ler pouco, ultimamente. Longe dos tempos em que lia compulsivamente tudo o que apanhava, muita porcaria incluída neste tudo. Agora leio menos, não só aqui em Paris, como em casa, na minha vida normal. Faço isso, mas ao mesmo tempo lamento não ler mais. São já raras as vezes em que atravesso a noite até de manhã agarrada a um livro, como fazia há uns anos – não assim tantos – muitas vezes. A culpa não é dos livros, evidentemente. Há milhões de livros por ler que me fariam – se os lesse – ficar agarrada a eles noite fora. O trabalho, desde logo. Uma pessoa vem para Paris cheia de planos de melhor gestão do tempo e acaba por ter menos tempo do que tem em casa. Paris tem muitas distrações e estar longe de casa, da minha rotina também me distrai, é a verdade. Desconcentra-me até, se querem saber. Depois convidam-me para coisas (de trabalho) e eu não sei dizer que não. E é assim que me vejo a responder a solicitações intermináveis. Quando pensamos que uma tinha acabado, aparece logo mais uma, ou mais duas, ou as que forem, em catadupa.
 

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Lettres de Paris #38

Vivre à Paris c’est très bon, oui, surtout si vous n’y vivez pas…

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Paris tem 20 arrondissements e muitos mais quartiers. Cada bairro tem as suas características e há para todos os gostos. Os mais comerciais como Terne, Rue Clerc, Poteau, os mais turísticos como – claro – o da Torre Eiffel, Saint-Michel, Montmartre… os mais animados como o Quartier Latin ou République, os mais ajardinados – Luxemburgo, Monceau e os mais ‘fashion’ como o Marais ou o Canal Saint Martin. Seja como for, como disse, há bairros para todos os gostos. Uma coisa têm todos em comum, no entanto (ou quase todos): o preço das casas, quer seja para comprar ou alugar. Outro dia fiquei embasbacada diante de uma montra de uma imobiliária em Montmartre onde um anúncio dizia que um ‘estúdio’ com 10 metros quadrados custava, por mês, 440 euros. 10 metros quadrados tudo, o estúdio, a casa de banho e a cozinha. Pergunto-me como seria viver em 10 metros quadrados, tipo o tamanho da minha casa de banho grande e, sinceramente, ou sou eu que tenho uma casa de banho mesmo grande ou não sei.
 
Nos primeiros dias que aqui cheguei, desta vez, via também os preços de casas para comprar, por curiosidade, obviamente, que não tenho dinheiro para isso nem sou o Engº Sócrates, bem entendido. A verdade é que as casas mais baratas que vi, com 50 ou 60 metros quadrados, deve dizer-se, custavam mais de 1 milhão de euros. Eu repito: mais de um milhão de euros. E havia muitas que custavam perto de 2 milhões com umas áreas um pouquinho maiores, tipo 80 ou 100 metros quadrados! Por falar em Sócrates…. afinal os 2,25 milhões de euros que se diz que valia a casa onde vivia em Paris, no quartier Passy no 16º arrondissement, não são assim tantos como isso atendendo a que se diz também que o apartamento teria 225 metros quadrados e o 16éme é um dos bairros mais chiques de Paris. Só compreendi isto depois de ver aqui os preços das casas, claro está.
 

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Lettres de Paris #37

Au Portugal la vie est plus facile

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disse-me um senhor francês, ao jantar, no Le Saint-André. Apesar da gripe das aves que tem afetado milhares de patos no sul de França, comi ‘magret de canard’. Gosto de pato, que querem? Não são uns milhares de patos mortos que me vão afastar de um dos meus pratos preferidos da cozinha francesa. O outro são as vieiras que, lamentavelmente só comi ainda uma vez, no Le Centre du Monde, já há umas boas semanas. No Le Saint-André não há vieiras, infelizmente, de modo que quando lá vou como pato frequentemente. O empregado simpático que fala comigo em português do Brasil e parece que me quer arranjar amigos disse ao casal sentado na mesa em frente da minha, estava eu a levar uma batatinha assada à boca, que eu era portuguesa. A seguir anunciou-me que os senhores viviam ‘à Lisbonne’. Sorrimos uns para os outros. O homem era francês, a mulher irlandesa e vivem em Lisboa na maior parte do ano. Trocámos palavras de circunstância ao princípio. Confesso que estava mais interessada no pato e nas batatinhas assadas que na conversa dos habitantes de Lisboa, mas assim mesmo lá fui falando com os senhores, quase sempre em francês. Gostam muito de viver em Portugal, conhecem Aveiro, ‘trop petite’, e adoram – que surpresa – Lisboa, onde vivem há já bastantes anos.

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Lettres de Paris #36

‘De ma naissance a ma mort, j’ai trouvé le temps beau’

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Na lápide da sepultura de Regina e Abel Taïbi, na divisão 18 do grande Cemitério de Montparnasse, está escrita esta frase. Não sei quem foram os ali sepultados, ao contrário de muitos que ali repousam o que se diz ser o sono eterno, Regina e Abel são totalmente desconhecidos. Mas ao passar, já de regresso à entrada principal do cemitério, pela sua sepultura, não pude deixar de sorrir ao ler a frase. Uma coisa tão simples, achar sempre o tempo belo, desde que se nasce até que se morre. E, no entanto, passamos a vida atormentados por mil coisas sem importância e mais algumas que terão importância, mas não apagarão jamais a beleza que há em toda a parte. A beleza que há em tudo o que há. O tempo belo que vivemos enquanto somos vivos.
A beleza do enorme Cemitério de Montparnasse, com 18,72 hectares, 42 mil sepulturas, 1244 árvores de 40 espécies diferentes é inegável. Mais ainda nesta tarde muito fria, com sol e um céu talvez demasiado azul para se fazerem visitas a cemitérios. Visitei pela primeira vez (e única, até hoje) o Cemitério de Montparnasse há mais ou menos 20 anos, num tempo seguramente belo, em que eramos novos, eu e o N. e ninguém que conhecessemos, incluindo nós mesmos, estava morto. Lembro-me de ter posado, sorridente, atrás da campa de Sartre e Beauvoir, que estão sepultados logo à entrada, na divisão 20. A lápide era diferente, entretanto alguém a terá mudado. Esta é mais alta e branca e hoje estava particularmente bonita com a luz e as sombras que havia. Prestei-lhes a minha homenagem em silêncio e voltei para trás um pouco comovida, não pela sepultura, mas pelas coisas de que me lembrei à sua frente. Passei de novo a entrada e continuei pela Avenue du Boulevard até à divisão 21, onde está sepultada Marguerite Duras. A campa de Duras é justamente o oposto da de Sartre e Beauvoir. Marguerite Duras está sepultada com o seu último amor, Yann Andrea e em cima da pedra rasa estão rosas vermelhas, cactos, conchinhas, um vaso enorme onde estão enterradas centenas de canetas e de lápis. Não me lembrava da campa de Duras, penso. Mas, claro, ela morreu em 1996, depois de eu ter visitado o cemitério, lembro-me logo a seguir. Deixo um pequeno lápis de madeira enterrado no vaso e volto outra vez para trás, pelo mesmo Boulevard, em busca da campa de Durkheim, na 5ª divisão.

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Lettres de Paris #35

Paris is a moveable feast

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escreveu Ernest Hemingway no seu quase diário dos tempos em que viveu nesta cidade. O romance só foi publicado depois da sua morte, em 1964, simultaneamente nos Estados Unidos e em França. Em França, tal como em Portugal, o título escolhido foi Paris est une Fête (Paris é uma Festa, no nosso país, editado pela Livros do Brasil, pelo menos é a edição que tenho há décadas, mas creio que foi recentemente reeditado). Na verdade, a moveable feast não é o mesmo que ser apenas uma festa, quer dizer, é uma festa sim, mas que nos acompanha onde quer que vamos desde que, claro, estejamos em Paris. Disse outro dia que ia comprar o livro na versão original ali na Shakespeare and Company. Ainda não o fiz, porém. Mas lembrei-me disto hoje, já de noite aqui em casa. Tinha, como tenho agora, a janela entreaberta. Apesar do frio que faz na rua, aqui dentro está muitas vezes um calor de ananases. Ouvi barulho de vozes na rua. Estou no primeiro andar e a rua é muito estreita, como também já contei.

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Lettres de Paris #34

On prend le pied de Montaigne

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et la force serait avec nous… é o que se diz do hábito de tocar no pé da estátua, bastante descontraída por sinal, como já vos contei outro dia, de Montaigne na Place Paul-Painlevé, mesmo ao lado da livraria Compagnie e mesmo em frente a uma das entradas da Sorbonne. Já tinha reparado várias vezes no extraordinariamente dourado pé esquerdo de Montaigne, estátua, mas só hoje me lembrei de indagar porquê. Afinal é um ritual semelhante a muitos outros, em várias cidades do mundo (assim de repente lembro-me da estátua de St John of Nepomuk na Charles Bridge em Praga ou o pé esquerdo de um dos santos da Catedral de Santiago de Compostela).
 
Tocar o pé esquerdo da estátua de Montaigne é assim um ritual conhecido pelos muitos estudantes que povoam o Quartier Latin. Aprendi isto hoje, depois de pesquisar no google. Parece que para passar exames, orais, concursos, etc, devem os estudantes ou candidatos acariciar o pé de Montaigne e saudá-lo, quer dizer, saudar a estátua, não o pé, bem entendido. Diz-se que a superstição se estende a todos os tipos de votos. Amanhã experimento. Aliás, poderei experimentar todos os dias que aqui estiver. Já tenho por hábito dizer interiormente ‘Bonjour Monsieur Montaigne’ quando passo pela interessante estátua de Paul Landowski, por isso basta-me a partir de hoje acariciar-lhe o pé e formular um qualquer desejo. Não é que tenha muitos, mas hei-de seguramente descobrir alguns. Depois vos contarei se deu resultado o ritual.

Lettres de Paris #33

‘Antes eram os lugares e a Elisabete, agora é a Elisabete em Paris’

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escreveu-me hoje num email uma pessoa de quem muito gosto e, creio, faz o favor de gostar de mim também. A pessoa (que lerá este postal, também, mais tarde ou mais cedo, por isso peço-lhe já desculpa) acrescentou que talvez fosse inevitável. Confesso que fiquei a pensar naquilo o resto da tarde, depois de ler o email. Ia a pensar naquilo quando saí por uma hora do Ladyss, eram quatro da tarde, para ir ter com a Fabienne à livraria Compagnie, na Rue des Écoles. Achei graça a Fabienne ter sugerido aquela que, até ver, é a minha livraria favorita de Paris. Creio ter já falado nela nestas cartas. Na montra tem livros do Gonçalo M. Tavares, do Valter Hugo Mãe. Também já vi lá coisas do Saramago e do Fernando Pessoa. Estranhamente não vi ainda nenhum livro do António Lobo Antunes. Vi ontem ou antes de ontem, na montra já decorada para o natal um livro chamado Contos Portugueses, mas em francês. Não é por isso que a Compagnie é a minha livraria preferida, bem entendido, mas ajuda um bocadinho, confesso.
 

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Lettres de Paris #32

Les Français sauveront le monde…

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… estava escrito num panfleto metido no para-brisas de um carro estacionado em frente ao Collége de France, quando lá passei a caminho do Ladyss, ontem de manhã. Não ia a reparar em grande coisa, ou melhor, ia a reparar nas coisas do costume quando faço este caminho. Talvez haja já pouco de novo neste caminho em que eu possa reparar ou talvez eu fosse, ontem, pouco disponível para atentar nas coisas. Nas que já vi muitas vezes e nas que via pela primeira vez. Ainda assim, reparei no papel metido entre o para-brisas de um carro que dizia que os franceses salvarão o mundo. Parei e li a curta mensagem e – juro-vos que não é do meu francês – não compreendi muito bem a que se destinava. Hoje, há um bocadinho, já depois de ter ido novamente para o Ladyss e depois de ter jantado e depois de já estar em casa, pesquisei o ‘slogan’ e o autor. As pesquisas rápidas encaminharam-me para um blog, com 3 ou 4 posts apenas, todos no mesmo tom profético. Pesquisei o nome do autor. Parece que é alguém que já é conhecido no Quartier Latin por espalhar panfletos desta natureza. Não se compreende bem o que pretendem, provavelmente nada.

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