Postal de Wageningen #3

Os aeroportos são os sítios mais estranhos do mundo

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disseste-me muitas vezes que não voavas. deslocares-te era uma maçada, até há relativamente pouco tempo. sei que nos últimos tempos mudaste um bocadinho nisso. ainda assim, não voavas. uma vez pensei em ir à islândia e falei-te vagamente nisso. disseste que era um sítio onde gostarias de ir. desafiei-te. que não elisa. que disparate. não se leva areia para a praia. disseste. e o assunto ficou por ali. ainda não fui à islândia e olha talvez nunca lá vá.

não sei porquê, lembrei-me disto no aeroporto de schiphol. O avião estava atrasado. temos que ocupar o tempo. lembrei-me disto. não se leva areia para a praia. disseste. mas eu já não era areia. e nunca passei de um grão.

é estranho pensar em areia e praia e na islândia no aeroporto de schiphol. os aeroportos são, quase sempre, os lugares mais estranhos do mundo. sempre preferi estações de comboios. acho que tu, tenho a certeza que tu, que não voavas, também.

os aeroportos são lugares estranhos, simultaneamente cheios de gente tão diferente, carregando as suas próprias dores e malas, tão cheios de humanas coisas e tão artificiais.

gosto de olhar para as pessoas nos aeroportos (como em quase toda a parte) e encho-me de humanidade, apesar de tudo. grãos de areia. na verdade. não reparei se algum voo saía à mesma hora para a islândia. mas pensei grãos de areia. pensei até que agora mesmo carrego grãos de areia para uma praia aparentemente nova. há qualquer coisa de estranho num gajo começar a apaixonar-se quando um amigo tão grande começa e acaba de morrer. tão estranho como os aeroportos. se calhar não passa também de um artifício. há merdas destas.

estou agora na minha varanda a fumar, a mesma onde fumámos tantas vezes juntos, e a pensar nos grãos de areia que ando a transportar. às vezes magoam-me. nunca tive jeito para isto, como sabes. há estrelas no céu aqui na varanda. a porra do céu está cheia do brilho das estrelas mortas. não se leva areia para a praia. e sabes? não se deviam levar mais estrelas para este céu.

Postal de Wageningen #2

não quero que te preocupes

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uma vez disseste-me que se tivesses uma memória como a minha suicidavas-te. parei o copo de cerveja, mesmo antes dos lábios. era aveiro. era noite. o verão despedia-se e nós conheciamos-nos pouco a pouco, a um ritmo intermitente que combinava a minha impulsividade com o teu mau feitio. entre outras coisas, incluindo os tais desencontros de horários. éramos ambos, por razões diferentes, uma trapalhada ambulante. tínhamos bagagens muito pesadas que arrastávamos para todo o lado e só raramente largavámos das mãos e dos olhos. disseste aquilo muito seguro do que acabavas de dizer, mas como se não te lembrasses do peso do que acabavas de dizer. eu não disse nada, o copo suspenso antes da boca mas pensei que parvo. dizer-me esta merda a mim e sacudi a cabeça e bebi finalmente.

mas foi evidente que tinhas razão. uma memória enorme, a minha e pesada como o raio, que não me larga as mãos e os olhos. uma memória brutal. no entanto, ainda não me matei e tenho, sinceramente como sempre tive, dúvidas que alguma vez me suicide. dava trabalho e, na verdade, agora que morreste, restam poucas pessoas de quem goste o suficiente para lhes deixar as malas. suponho que me entendas. passaram muitas estações e acabámos por nos conhecer tanto quanto podem as pessoas conhecer-se. já sei, é sempre quase nada.

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Postal de Wageningen #1

as coisas ficaram sem ordem, pensei eu por cima das nuvens

escrevi-te um livro inteiro dentro do avião. os olhos fechados. e tu a falares para dentro de ti mesmo, como sempre fazias para minha irritação. escrevi um livro inteiro sobre ti. acho que fomos tudo o que duas pessoas podem ser uma com a outra. menos inimigos. isso nunca. continuo a achar que és um tipo estranho como na primeira vez em que te vi no café da praça onde desemboca a rua onde moravas. gostava de poder ser capaz de escrever realmente esse livro que escrevi hoje dentro da minha cabeça, por cima das nuvens, sem ordem nenhuma. gostava de estar outra vez contigo, em silêncio, no sofá da minha sala, cada um deitado para uma ponta. em silêncio. até que dizias qualquer coisa devagar. e eu nada dizia. depois dizia eu outra coisa qualquer. e é verdade que passámos muito tempo assim. os silêncios largos. [Read more…]