Um par mortífero

Já aqui contei que a minha cadela Rita adoptou um gato vadio, o Chico. Nos outros lugares, menos virtuais, onde também o contei, a reacção foi sempre de ternura embevecida. Punham-se as cabecinhas de lado quando ouviam a história, aquele sinal inegável de que os ouvintes responderiam com adjectivos como fofo, lindo, queriducho, e outros termos detestáveis. A história começou a correr e eu fiquei conhecida em certos meios como “a dona da cadela que vive com um gato”. Houve até um vizinho que veio ter comigo na rua para perguntar-me se era eu que escrevia no Aventar porque tinha lido o post e reconhecido a cadela e o gato que ele via do seu quintal. A Rita e o Chico devolviam a uma pequena amostra de seres humanos a fé quase perdida na possibilidade de um mundo de paz e harmonia.

Embalada com o sucesso da história, não me coibi de ir partilhando detalhes mais actualizados. E aí, para meu espanto, o entusiasmo esmoreceu de forma súbita. É que a cadela começou a ensinar o gato a caçar. Ele tinha o talento inato mas faltava-lhe a aprendizagem dos procedimentos. Começaram pelas ratazanas. Ao que o Chico tinha de rapidez e agilidade, a Rita respondeu com astúcia e experiência. Percebi logo que estavam ali dois assassinos em série. Orgulhoso, o Chico foi deixando um rasto de roedores chacinados por todo o lado, a sua forma de retribuir o carinho a quem lhe dá de comer. A Rita também ficou orgulhosa dele, mas disfarçou mostrando uma entediada indiferença quando ele empurrava as ratazanas mortas para junto da cama dela, uma das mais tocantes manifestações de afecto a que se pode assistir neste mundo. [Read more…]