Brutalidade primitiva no país dos brandos costumes

Na senda de outras tradições dignas de homens das cavernas, como a tortura do porco em Braga ou o frequente massacre de touros por cobardes com lantejoulas protegidos por um grupo de forcados, descobri hoje mais um belo exemplo de crueldade gratuita que consiste em prender um gato num pote de barro, colocar o pote no alto de um poste revestido por uma espécie de palha (que extraordinariamente não foi ingerida pela organização) e por fim chegar fogo ao poste, ficando os apreciadores de tortura animal a observar a subida do fogo até que o pote caia e o animal morra ou fique seriamente ferido.

Que existam pessoas que tiram prazer do sofrimento dos animais já todos sabemos. Estes habitantes de Mourão, concelho de Vila Flor, parecem apreciar o espectáculo e pactuar com a selvajaria. Mas faz-me sempre alguma confusão que estes actos de tortura troglodita sejam levados a cabo no âmbito de cerimónias religiosas, dedicadas a um santo de uma religião cujos ensinamentos incluem não maltratar animais. Serão todos hipócritas, estúpidos ou não-praticantes? Talvez sejam só pessoas que gostam de violência. No país dos brandos costumes, enquanto outros animais nos torturam de formas mais sofisticadas, adeptos da brutalidade primitiva descarregam em animais indefesos e escondem-se atrás da desculpa esfarrapada e idiota da tradição. Caso não partilhem com estes indivíduos o gosto pela tortura, podem assinar esta petição.

Um par mortífero

Já aqui contei que a minha cadela Rita adoptou um gato vadio, o Chico. Nos outros lugares, menos virtuais, onde também o contei, a reacção foi sempre de ternura embevecida. Punham-se as cabecinhas de lado quando ouviam a história, aquele sinal inegável de que os ouvintes responderiam com adjectivos como fofo, lindo, queriducho, e outros termos detestáveis. A história começou a correr e eu fiquei conhecida em certos meios como “a dona da cadela que vive com um gato”. Houve até um vizinho que veio ter comigo na rua para perguntar-me se era eu que escrevia no Aventar porque tinha lido o post e reconhecido a cadela e o gato que ele via do seu quintal. A Rita e o Chico devolviam a uma pequena amostra de seres humanos a fé quase perdida na possibilidade de um mundo de paz e harmonia.

Embalada com o sucesso da história, não me coibi de ir partilhando detalhes mais actualizados. E aí, para meu espanto, o entusiasmo esmoreceu de forma súbita. É que a cadela começou a ensinar o gato a caçar. Ele tinha o talento inato mas faltava-lhe a aprendizagem dos procedimentos. Começaram pelas ratazanas. Ao que o Chico tinha de rapidez e agilidade, a Rita respondeu com astúcia e experiência. Percebi logo que estavam ali dois assassinos em série. Orgulhoso, o Chico foi deixando um rasto de roedores chacinados por todo o lado, a sua forma de retribuir o carinho a quem lhe dá de comer. A Rita também ficou orgulhosa dele, mas disfarçou mostrando uma entediada indiferença quando ele empurrava as ratazanas mortas para junto da cama dela, uma das mais tocantes manifestações de afecto a que se pode assistir neste mundo. [Read more…]

O gato e o papel

alfredo
Numa hora mansa da tarde, o meu gato Alfredo – que os meus amigos homónimos não levem a mal, mas o nome decorre de o bichano miar com arte e sentimento – dormia, com aquela beatitude que só os gatos conseguem, esparramado sobre a passadeira que se estende até à entrada da casa, iluminado pela luz que se filtrava pelo vidro da porta. De repente, a paz é interrompida por uns ruídos quase imperceptíveis – para nós, não para um gato – vindos do lado de fora da entrada. Alfredo ergue a cabeça e fica alerta. E eis que um colorido panfleto surge, como que disparado, por baixo da porta, fazendo um voo raso de mais de meio metro. Em menos que leva dizer “sape gato lambareiro” o corpanzil de um indignado gato caiu sobre o papel e desfê-lo em tiras. Entretanto eu tinha acudido, não fosse algum documento importante, tentando salvar alguma coisa. Peguei nos pedaços que restavam – perante o olhar de censura do meu gato – e consegui ver nos destroços fragmentos dos malogrados rostos e troncos de Paulo Rangel e Nuno Melo e o que restava de algumas das suas patranhas propagandísticas. Alfredo tivera razão. Pedi-lhe desculpa e constatei, orgulhoso, que tinha um gato com convicções justas.

A um Felino

Estás idoso, muito idoso. Os teus 17 anos de vida, equivalentes à juventude nos humanos, pesam-te já muito nas pernas. É verdade, os teus desvarios da mocidade, as tuas noites passadas na rua, todas as loucuras que cometeste, reflectem-se agora em alguns problemas de locomoção.
Estás connosco desde o regresso da lua de mel.
Casei sabendo que irias partilhar a minha vida. Não te conhecia, esperei pelo momento de regressar para te conhecer.
Não gosto de escolher animais. Normalmente, e tem sido assim durante quase toda a minha vida, os animais é que me escolhem. Trazidos por não sei que instinto, não sei que odor, são eles que param a meio do seu caminho, desviam a sua rota e me seguem. Ou me entram pela porta dentro. Ou chamam à minha passagem. Ou simplesmente se sentam no meu colo, onde quer que eu esteja. [Read more…]