Previsão meteorológica

Tenho uma amiga que vive em ânsias de saber a previsão meteorológica. É que as condições do tempo influenciam muitíssimo o seu estado de espírito e, se aquilo que se pode esperar é uma longa sucessão de dias cinzentos, então ela prefere sabê-lo o quanto antes e alugar cinco comédias no videoclube.

Se, pelo contrário, os dias serão soalheiros e a temperatura convidar ao passeio, ela quer estar prevenida, deixar o trabalho organizado para poder agendar uma escapadela ao campo, ou algo semelhante. Quem a conhece sabe que os dias cinzentos equivalem a vê-la depressiva e desconfiada da humanidade.

E que estes dias de primavera enganadora, carregados de cinzento, tolhidos de frio são, para ela, um sacrifício muito penoso. Não sendo tão sensível como ela, há dias em que eu também experimento as agruras que um Inverno demasiado prolongado pode trazer. À sensação geral de desconforto que induzem o frio e a humidade, juntam-se as pequenas misérias do dia-a-dia, um pulha que nos entra pela porta, um cão abandonado numa varanda, um desencontro com alguém a quem ansiávamos ver, a nossa equipa que perde um grande jogo em casa, esta chuva que não pára de cair…

Todos temos os nossos truques, que às vezes têm algo da fórmula mágica dos magos das histórias de encantar. O meu truque para os dias assim é evocar uma canção que sempre me tranquiliza porque acredito no que ela diz. E o que ela diz é uma verdade tão simples quanto irrefutável: não se pode reter a primavera. Não se pode demorá-la ou recusá-la ou aviltá-la. Tímida ou impositiva, ela fará a sua entrada e com ela novos dias e novas esperanças. O meu mago chama-se Tom Waits.