Para acabar de vez com os factos

Have you ever noticed that when you present people with facts that are contrary to their deepest held beliefs they always change their minds? Me neither.

Michael Shermer

En cel termine mut uns estoires de Flandres par mer, u ot mult grant plenté de bone gent armee. De cele estoire si fu chevetaines Johans de Neele, chastellains de Bruges, et Tyerris, qui fu fils le conte Phelippe de Flandres, et Nicholes de Mailli.

Geoffroi de Villehardouin (date de composition : déb. 13e s., entre 1199 et 1213)

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Efectivamente. Como escreveu Watkins:

Another “intertextual” link suggests that the phrase σφάζε τε μήλα, βροτών is not just a nonce creation of Bacchylides. The verb σφάζω (*sphag-i̭ō) is confined to Greek; it has no cognates.

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Russians

America it’s them bad Russians.
Them Russians them Russians and them Chinamen. And them Russians.
The Russia wants to eat us alive. The Russia’s power mad. She wants to take our cars from out our garages.

— Allen Ginsberg, America

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Pois é.

Nem tudo depende da perspectiva e da concepção. Há outros aspectos a considerar.

intercetam eptam

Efectivamente, segundo o Houaiss (*), ‘interceptar‘ é um verbo [Read more…]

Nem tudo o que parece é

Take a little walk to the edge of town

Hoje, lembrei-me de Ginsberg

Hoje, lembrei-me de Ginsberg:

«Are you being sinister or is this some form of practical joke?»

Não me venham dizer que Miguel Relvas não sabe o que é uma universidade.

Marcelo Rebelo de Sousa

Jim Jarmusch: Down by Law

Um filme de Jim Jarmusch com Tom Waits (sim, ele é um grande actor), John Lurie (outro músico) e Roberto Benigni (numa das suas melhores interpretações). Chega, ou é preciso explicar?

Tem coelho assado, para apreciadores.

Ficha IMDB. Em inglês, legendado em castelhano.

 

Já cá canta

O novo álbum de Tom Waits, Bad to Me (obrigado S.). Primeira constatação: deste gajo vale a pena esperar 7 anos por um disco de estúdio. Se fosse menos tempo, ganhávamos todos. Tão munta bom como sempre. À primeira audição Hell Broke Luce parece ser ainda melhor do que as outras. Dia 24 chega às lojas.

You’re the head on the spear
You’re the nail on the cross
You’re the fly in my beer
You’re the key that got lost
You’re the letter from Jesus on the bathroom wall
You’re mother superior in only a bra
You’re the same kind of bad as me

Maravilhosamente mau como o Tom Waits só um novo single do Tom Waits

2011 é ano de novo álbum de Tom Waits, um bom ano, portanto. Para abrir o apetite já temos um single. E fiquem também com a letra:

You’re the head on the spear
You’re the nail on the cross
You’re the fly in my beer
You’re the key that got lost
You’re the letter from Jesus on the bathroom wall
You’re mother superior in only a bra
You’re the same kind of bad as me
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Música para o Papa # 2

"You can never hold back spring": Tom Waits

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Podem os homens viver sem as mulheres?

 Recentemente ouvi um desabafo que não me saiu mais da cabeça.  Um homem contava, aparentemente sem drama nem cinismo, que, após um divórcio mais ou menos civilizado, havia desistido das mulheres. Ou melhor, desistira de relacionamentos com alguma profundidade.

 

Admitia encontros esporádicos, sem compromisso, desde que estivessem claras e fossem aceites por ambas as partes as condições em que os encontros decorreriam. Em síntese, seriam encontros sexuais com a garantia de que nunca se tornariam em algo mais do que isso. Se elas estivessem dispostas, claro. E aproveitou o embalo para fazer um elogio do celibato, garantindo que agora se sentia mais livre, mais autónomo, capaz de decidir sem amarras e sem cedências à vontade alheia.

 

Lembrei-me de uma velha canção do Tom Waits, “Better off without a wife”, um elogio à amizade entre homens e às vantagens de poder dormir até ao meio dia, sair quando se entende, ir de pescaria ou ficar a uivar à lua sem nunca ter de prestar contas a nenhuma mulher. Tudo isto com a ironia de Waits, ou não tivesse ele acabado por casar não muito depois de ter gravado essa canção. 

 

Para os homens da geração do meu pai, e salvo meritórias excepções, viver sem mulher comportava problemas logísticos de tal ordem que não seria exactamente uma opção. Quem cozinharia, quem trataria da casa, quem se ocuparia dos filhos? Quando, ao fim de décadas, se encontravam sozinhos, por divórcio ou viuvez, deparavam-se com um caos difícil de superar, constatavam a sua inépcia para resolver aquilo que sempre lhes parecera fácil, ou no qual simplesmente nem haviam reparado.

 

Actualmente podemos acreditar, com algum optimismo, que as mulheres já não são vistas unicamente como donas de casa ou mães, as relações entre homens e mulheres já não têm como um dos alicerces essa complementação de papéis: homem ganha-pão, mulher mãe/dona-de-casa, e já se pode ponderar se os relacionamentos, com as exigências que pressupõem, valem a pena. Os jogos de sedução iniciais, as cedências, os almoços com a família dela, os aniversários para recordar, os raspanetes pelas tarefas por cumprir, as exigências permanentes do romantismo, tudo isso desaparece num ápice e fica apenas a agenda telefónica.

 

Haverá quem diga que o que fica, nessas condições, é a solidão, o vazio pela ausência de laços afectivos sólidos com outro ser humano, mas também isso corresponde a um modelo de vida de que nem todos partilham. Este homem de que vos falava no início não se manifestava contra as mulheres, não proferiu nenhuma crítica, nenhum queixume. Tendo experimentado as alegrias e as amarguras do relacionamento conjugal, chegou à conclusão de que estava melhor sem ele.

 

Dizia Waits nessa canção: “sou egoísta no que respeita à minha privacidade, mas enquanto puder estar comigo damo-nos tão bem que eu nem acredito”.

Desculpem tanto tempo às voltas com este tema, mas confesso que, tal como imagino que deva acontecer com outras mulheres, a ideia de que eles possam e queiram viver sem nós parece-me estranhíssima.

 

Mas, tal como aceito que possa existir um clube de fãs do Fernando Rocha, ou vida fora do planeta Terra, também tenho de abrir espaço nas minhas crenças pessoais para essa possibilidade fantástica. A de que haja, entre o género masculino, quem esteja convencido de que não precisa das mulheres.

 

Previsão meteorológica

Tenho uma amiga que vive em ânsias de saber a previsão meteorológica. É que as condições do tempo influenciam muitíssimo o seu estado de espírito e, se aquilo que se pode esperar é uma longa sucessão de dias cinzentos, então ela prefere sabê-lo o quanto antes e alugar cinco comédias no videoclube.

Se, pelo contrário, os dias serão soalheiros e a temperatura convidar ao passeio, ela quer estar prevenida, deixar o trabalho organizado para poder agendar uma escapadela ao campo, ou algo semelhante. Quem a conhece sabe que os dias cinzentos equivalem a vê-la depressiva e desconfiada da humanidade.

E que estes dias de primavera enganadora, carregados de cinzento, tolhidos de frio são, para ela, um sacrifício muito penoso. Não sendo tão sensível como ela, há dias em que eu também experimento as agruras que um Inverno demasiado prolongado pode trazer. À sensação geral de desconforto que induzem o frio e a humidade, juntam-se as pequenas misérias do dia-a-dia, um pulha que nos entra pela porta, um cão abandonado numa varanda, um desencontro com alguém a quem ansiávamos ver, a nossa equipa que perde um grande jogo em casa, esta chuva que não pára de cair…

Todos temos os nossos truques, que às vezes têm algo da fórmula mágica dos magos das histórias de encantar. O meu truque para os dias assim é evocar uma canção que sempre me tranquiliza porque acredito no que ela diz. E o que ela diz é uma verdade tão simples quanto irrefutável: não se pode reter a primavera. Não se pode demorá-la ou recusá-la ou aviltá-la. Tímida ou impositiva, ela fará a sua entrada e com ela novos dias e novas esperanças. O meu mago chama-se Tom Waits.