Queixume

Haverá conversa mais desoladora do que aquela em que alguém a quem muito estimamos, mas com quem a relação é pautada ainda por um cortês distanciamento, nos pergunta, em tom distraído, o mesmo que nos havia perguntado dias antes e a que havíamos respondido com ingénuo entusiasmo?

“Ah, sim, já me tinha dito”, responderá, por fim, quando lhe repetimos, sem conseguir disfarçar o desencanto, os factos que havíamos já descrito. E mordendo o canto do lábio, como fazem as crianças que já têm vergonha de amuar, nos afastaremos com grande dignidade e o coração ressentido.

É que as relações raramente são equilibradas no que respeita ao que cada um está disposto a dar de si. E uma troca de palavras fulgurante, capaz de fazer perder o sono e abrir possibilidades até aí inimagináveis, pode não ter sido, para o nosso interlocutor, mais do que uma longa, banalíssima, porventura entediante, troca de insignificâncias.

De um sorriso cordial faremos uma prova de afecto; de um banal aceno de cabeça uma comunhão. E quando a ilusão cai por terra, constatamos que é destas construções no ar que vivem os sonhadores.  Que a construção venha abaixo é, porém, um drama que depressa se remediará. Em breve outra se erguerá no mesmo espaço.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Um espanto! Sempre te “desenhei” assim, só através da tua escrita, mesmo antes de te conhecer. Sabes Carla, quem é culto e inteligente é tambem muito exigente consigo própria e com os outros. E viver de sonhos não magoa (diz-te o sonhador- mor…)

  2. Carla Romualdo says:

    pois, takes one to know one

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