Vítor Rua: o que ser músico significa

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Imagem daqui

A TSF tem uma rubrica chamada «A Playlist de…» (e a palavra playlist estraga logo tudo). Toda a sorte de mais e menos famosos entregaram já nas mãos da TSF as suas preferências musicais, confidenciando na rádio as histórias e razões ligadas às escolhas que compõem a dita … playlist, assim chamam na TSF à música da vida das pessoas. A ideia – pôr no ar música escolhida por quem a ouve e gosta dela, pelas razões particulares que nos ligam às coisas – é em si boa. É o tipo de programa que fica sempre bem numa rádio que quer ser o espelho da sociedade a que as suas emissões se destinam. É também um dever de pluralidade e de memória, em favor da música de diferentes gerações. A música que cada um ouve é uma parte de si. Para aqueles que não se importam de a partilhar, uma rubrica assim vem a calhar – e sortudos os que possam ouvir com agrado, e se possível empatia, essa música de razões subjectivas que a rádio transmite.

Mas a música que cada um ouve é também uma caixa de mistério, uma escolha que em princípio não responde a nenhuma razão mercantil, e que habitualmente não passa na rádio. Isso é bom, uma lufada de ar fresco na névoa pesada e repetitiva da música para grande consumo com que constantemente nos moem o juízo (mas não foi sempre assim). Claro que melhor ainda seria a rádio deixar-se justamente de playlists, que não servem nem a música nem os verdadeiros músicos (que também os há falsos, em grande número até), mas os interesses intermediários e parasitas da criação musical e das indústrias que gravitam em torno dela. Sucede que a dado passo também as rádios sucumbiram aos imperativos dos mercadores de discos, concertos e cervejas, e estragaram tudo (mas a XFM existiu mesmo, e não é possível esquecê-la).

Vem tudo isto que já vai longo a propósito da entrevista que Fernando Guimarães, homem da rádio e também do Aventar, fez a Vítor Rua, uma pessoa que aposto que jamais aceitaria participar numa rubrica chamada «A playlist de…». [Read more…]

Sem panos quentes [Textos sobre música portuguesa I]

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Os UHF ficarão para sempre indelevelmente ligados ao movimento do chamado «novo rock português», que inaugurou um novo tempo para essa música feita por portugueses, libertando-os tanto das heranças do rock bem-comportadinho nascido ainda durante o antigo regime dos nacionais cançonetismos, como da então prevalecente «música de intervenção» – género ancorado noutras sonoridades e que dominou esses anos pós-25 de Abril. Cantando em Língua portuguesa, os UHF anteciparam-se na verdade ao chamado “pai do rock português”, o cantor Rui Veloso, cujo famigerado álbum Ar de Rock seria lançado apenas em 1980 (e tendo para muitos demasiado ar e pouco rock). Então considerado rock da pesada, o que os UHF fizeram inaugurou em Portugal um outro som para palavras rockadas em Português, apropriando-se dos códigos do universo do rock dos anos 70, esse grito de revolta que desde há muito fazia mexer outras sociedades noutras partes do Mundo.  Com o novo rock de Portugal surgiram, para além dos primeiríssimos UHF, também os Xutos&Pontapés, os GNR, os Heróis do Mar, os Trabalhadores do Comércio, os Táxi, ou os Salada de Frutas.

Recordo-me ainda novinha a ouvir os UHF também ainda novinhos a cantar Jorge morreu (1979) e Rua do Carmo (1980) – o primeiro tema denunciando a morte de contornos sórdidos de um amigo desaparecido na turba das drogas duras (que na época ceifou muitos mais de pelo menos duas gerações de jovens portugueses), e o segundo evocando poeticamente aquela que é uma das mais importantes ruas comerciantes da Baixa lisboeta – uma rua feita para o consumo, lugar de passagem obrigatória para as incontáveis «mulheres bonitas presas às montras» e indiferentes aos «aleijados em hora de ponta». Era novo, fazer um tema de rock sobre uma rua de uma cidade. Fazê-lo simultaneamente com poesia e denúncia social tornava essa novidade ainda mais valiosa – uma pedrada no charco, outra coisa. Lembro-me também de Cavalos de Corrida (1980), [Read more…]