Uma preguiça transcendental

Convocaram-me para ir convencer o Professor Castelo a cumprir o plano. Como habitualmente, a sua posição era irredutível. Tentei explicar-lhes que nunca tinha existido uma verdadeira amizade entre nós, apenas um fascínio juvenil da minha parte, que ele retribuiu com uma cortesia excessiva e não isenta de vaidade. E muitos anos haviam passado sem que voltássemos a ver-nos. Responderam-me que isso pouco importava porque já não restava ninguém que lhe fosse mais próximo.

Resignei-me, então, a voltar ao casarão fracamente iluminado e mal aquecido, onde numerosas vezes tropeçara em pilhas de livros e onde sucessivos gatos, que nunca cheguei a distinguir uns dos outros, bufavam à minha passagem como se chamassem “invasora!”. Mas não encontrei nada disso. A casa estava vazia, à excepção de meia dúzia de móveis essenciais, e de uns quantos caixotes que estavam a ser levados para um camião parado à porta.

É o vigésimo quinto camião que enchemos – esclareceu-me o jovem que me recebeu, de rosto meio escondido atrás de um dossier de capa negra, e que se apresentou como “o inventariador”. – Está praticamente tudo. Só falta o homem. Ou melhor, o cérebro. [Read more…]

Memórias submersas

Rita Matos Gomes
©Grete Stern

©Grete Stern

chegou-me à pouco a lembrança, e tomou-me de assalto.
foi talvez pela hora, final de dia, mas chegou pelo cheiro.
era um momento só meu, e de paz total.
tinha todo um ritual preliminar.
primeiro, era o abrir da janela. os adultos insistiam, era primordial.
a seguir, tirava-se de dentro da gaveta do armarinho a caixa dos fósforos.
previamente tinha de vir um dos primos mais velhos, eles só quem detinha o poder e a altura necessária.
então, riscava-se o fósforo, e numa operação demorada tentava-se convencer o velho esquentador teimoso e senil que tinha que acender. muitos fósforos eram necessários .
eu gostava de ficar com esse papel, na ousadia de ficar raspando o pauzinho na caixa, até que ele explodisse numa alegria de chama.
depois, punha-se a tampa metálica e pesada no fundo da banheira de esmalte, com pés de animal em cima de esfera. [Read more…]

Ano lectivo abriu

E não ia ser uma trapalhada por causa dos alunos que tinham saído dos colégios?

Não à romantização da História, sff

No Delito de Opinião, um comentador lamentava a ausência de uma comemoração relativa aos 600 anos da tomada de Ceuta. E eu pensei duas coisas: olha, isto lembra-me que tenho de mostrar ao Paulo um artigo sobre o D. João II e depois pensei, mais validamente, por que raio é que se havia de “comemorar” a tomada de Ceuta. Procurei, procurei e mesmo assim não consegui achar razão em mim para “comemorar” um acontecimento que teve lugar há 600 anos. Comecei então a perceber que o problema não era tanto a tomada de Ceuta mas o verbo aplicado que provavelmente até foi escolhido aleatoriamente pelo comentador, não tendo o valor qualificativo que eu lhe estou a atribuir: A comemoração. Comemorar.*

É óbvio que a tomada de Ceuta se enquadra num contexto de guerra e conquista medieval e que foi o começo de uma série de iniciativas semelhantes no Norte de África. Tudo isto tem um contexto histórico que merece obviamente ser estudado e discutido. Mas comemorar? Porquê? A comemoração de alguma coisa implica que ela é boa. A tomada de Ceuta para os portugueses do século XXI não tem que ser boa. Nem má. Todo o processo que envolveu a tomada de Ceuta e as guerras de conquista no Norte de África relacionam-se com um contexto que uma pessoa do século XXI não percebe, não compreende, não se identifica. Não partilhamos das mesmas ideias, não vemos o mundo e as vivências sociais, políticas e religiosas da mesma forma. E ainda bem que assim é, porque estamos a falar de História.

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O socialismo

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1974: foi assim antes de Setembro, de Março e dos SUV. E em Abril de 1975 o povo votou sobretudo no PS, que era onde se dizia que estava o socialismo.

Um destes dias

“Um destes dias”, foi a data marcada para voltarmos a tomar café.

Assim nos despedimos em Coimbra, à mesa do “Santa Cruz”.

Mas, não aconteceu.

São as acções que não tomamos, que deixam os maiores vazios.

O preço de se tomar as pessoas, as coisas, o tempo, como garantidos.

Restam os dias que ficaram, entre os dias que passaram, registados na memória onde se arquiva e se consulta as boas partilhas.

De tudo quanto poderia escrever, hoje só sou capaz disto.

O resto é memória e vazio, que prefiro guardar para mim.

Um abraço, JJC.

O Marcel das minhas vindimas

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(c) Gérard Landau (INA)

Aquele velhote chamado Marcel que tinha ido ajudar o sobrinho (Francis) e a mulher dele (Madeleine!) na vindima. Esse velhote pândego e brejeiro a tratar-me por Marguerite, “Marguerite des Champs”, para dizer a flor que eu era e que ele teria colhido se fosse ainda então rapaz novo. Esse velhote do Languedoc a falar na língua cantada e antiga daquele lugar da Occitânia onde me fixei brevemente para ser Marguerite – Marguerite des Champs de nome completo, “Des Champs-Élysées”, quando Marcel evocava Paris para dizer o que nos separava para além da diferença de idades.

Marcel como Proust mas sem livros, mas sem a consciência aguda da literatura, mas sem precisar de ser salvo pela leitura, mas sem poder reparar na eternidade de grande mistério do que se passa entre a voz que lê e a existência do corpo que a transporta, mas sem perturbações poéticas ao atravessar a paisagem da vinha – a vinha só vinha, o mistral só vento, apesar de todos os que enlouquecia. [Read more…]

Escola: conteúdos e memória

A Educação mudou muito nos últimos anos e não foi para melhor – poderia citar os 30 mil professores que NUNO CRATO despediu nos últimos três anos, mas desta vez vou falar de Educação pelo lado dos alunos e das suas aprendizagens.

O que é um bom aluno?

A resposta mais comum andará em torno destas respostas: um aluno que tira boas notas, um aluno que aprende bem, um aluno que tem sucesso, que

Ora, tenho vindo a pensar nisto porque enquanto profissional me sinto cada vez mais condicionado a dirigir a minha prática pedagógica para um caminho que está errado – os exames (ou os testes).

Na Escola de hoje tudo parece ser mensurável e para medir nada mais fácil do que quantificar tudo o que mexe como se a escola fosse uma linha de montagem. Não é e não pode ser.

Com a febre do accountability às Escolas são pedidos resultados que se medem pelas notas que os alunos têm nos testes, isto é, nos exames. Ora, qualquer pessoa que tenha passado pela Escola sabe que há uma diferença MUITO significativa entre ser um bom aluno e ter boas notas nos testes (exames).  E trago apenas dois argumentos para abrir uma discussão a que quero voltar mais vezes: [Read more…]

Inveja

Maria Helena Loureiro

10003458_10202973417162965_3996828043849702933_nA Brasileira ficou, de repente, quase vazia. Uma mulher, sozinha numa mesa a meio do café, lia o Diário de Coimbra e, volta e meia, fazia comentários em voz alta. Achei que era altura de me ir embora, tendo em conta que tinha sido precisamente o Diário de Coimbra que me tinha posto com vontade de arejar. Indecisa, enfiei o nariz no livro que ando a reler à espera que a outra se calasse. E consegui deixar de a ouvir ou, pelo menos, só a ouvia lá muito ao longe que os livros, é verdade, operam milagres.
Tão distraída estava, que mal reparei numa mulher jovem que entrou com uma bébé ao colo, toda embrulhada nuns panos traçados, em overdose de rosa, muito coladinha ao peito da mãe.
Na televisão, muito baixinho, sucediam-se canções conhecidas. Foi então que a mulher começou a cantarolar ao ouvido da pequenita ao mesmo tempo que a fazia dançar e rodopiar no colo e desfazer naqueles sorrisos hesitantes e espantados das bébés, ainda muito concentradas em manter a cabeça em equilíbrio mais ou menos estável.
I believe I can fly [Read more…]

Rita Hayworth em Moçambique em 1950 (ou o nascimento de um fotógrafo)

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© Jean-Charles Pinheira

Em 1950, quando Jean-Charles Pinheira (n. 1932) trabalhava na alfândega do Lumbo, em Nampula, o príncipe Aly Khan visitou a região na companhia da sua mulher, Rita Hayworth, tendo o casal ficado hospedado no Grande Hotel do Lumbo. Foi nesse momento que Jean-Charles Pinheira meteu na cabeça que haveria de fotografar Rita Hayworth sem os óculos com que habitualmente se escudava. Pediu emprestada uma Kodak 6X9, e sentou-se numa cadeira junto à suite de Rita Hayworth à espera da hora H. [Read more…]

Companhia Portuguesa de Pesca (Olho de Boi, Almada, 2014)

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© Célia Amado (2014)

Vítor Rua: o que ser músico significa

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Imagem daqui

A TSF tem uma rubrica chamada «A Playlist de…» (e a palavra playlist estraga logo tudo). Toda a sorte de mais e menos famosos entregaram já nas mãos da TSF as suas preferências musicais, confidenciando na rádio as histórias e razões ligadas às escolhas que compõem a dita … playlist, assim chamam na TSF à música da vida das pessoas. A ideia – pôr no ar música escolhida por quem a ouve e gosta dela, pelas razões particulares que nos ligam às coisas – é em si boa. É o tipo de programa que fica sempre bem numa rádio que quer ser o espelho da sociedade a que as suas emissões se destinam. É também um dever de pluralidade e de memória, em favor da música de diferentes gerações. A música que cada um ouve é uma parte de si. Para aqueles que não se importam de a partilhar, uma rubrica assim vem a calhar – e sortudos os que possam ouvir com agrado, e se possível empatia, essa música de razões subjectivas que a rádio transmite.

Mas a música que cada um ouve é também uma caixa de mistério, uma escolha que em princípio não responde a nenhuma razão mercantil, e que habitualmente não passa na rádio. Isso é bom, uma lufada de ar fresco na névoa pesada e repetitiva da música para grande consumo com que constantemente nos moem o juízo (mas não foi sempre assim). Claro que melhor ainda seria a rádio deixar-se justamente de playlists, que não servem nem a música nem os verdadeiros músicos (que também os há falsos, em grande número até), mas os interesses intermediários e parasitas da criação musical e das indústrias que gravitam em torno dela. Sucede que a dado passo também as rádios sucumbiram aos imperativos dos mercadores de discos, concertos e cervejas, e estragaram tudo (mas a XFM existiu mesmo, e não é possível esquecê-la).

Vem tudo isto que já vai longo a propósito da entrevista que Fernando Guimarães, homem da rádio e também do Aventar, fez a Vítor Rua, uma pessoa que aposto que jamais aceitaria participar numa rubrica chamada «A playlist de…». [Read more…]

«Os Dias Cantados» e «A Cena do Ódio»

brilham na rádio pública lembrando os mais distraídos que é na rádio que estão alguns dos melhores textos: sobre a música que o 25 de Abril libertou e sobre os piores sentimentos que inspiraram as melhores canções.

A memória em José Socrates

Quando discutimos o que fez um puto de 9 anos numa tarde de verão, sábado à tarde, em 1966, é possível estarmos a delirar ou a discutir política, embora fosse mais sensato aprender psicologia da memória; estamos em Portugal, temos uma imaginação fértil e abundante.

O que faz aqui sentido é pensarmos a nossa memória. Tratando-se de Sócrates o que ficou dentro dela, transbordante,  está nesse vídeo, ou neste. A partir daqui, porque a memória também a construímos, é perfeitamente plausível que décadas depois alguém tropece na sua memória sobre um dia qualquer na infância, e lhe apontemos o dedo: mentiroso.

E já agora, constato que o Best of de Passos Coelho, aqui publicado exactamente um ano após o de Sócrates, já o ultrapassou em visualizações. Esse, daqui a uns anos, quando abrir a boca para dizer bom dia já todos nos estamos a rir e a apontar dois dedos: mentiroso.

Uma ponte contra o esquecimento

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© Nuno Saldanha

Há uns quinze anos ou coisa que o valha, a propósito das pontes sobre o Tejo (a Vasco da Gama acabara de ser inaugurada), escrevi um texto defendendo que os nomes das grandes obras de Estado não deveriam mudar de nome com a mudança dos regimes. Fui muito atacada, e o editor fez questão de se livrar de toda e qualquer responsabilidade relativamente ao que escrevi, publicando uma caixa de texto dizendo isso mesmo. Defendia eu que não se deveria ter renomeado a ponte anteriormente designada por Ponte Salazar, não para celebrar a obra do ditador, Deus me livre, mas para que a memória de quem foi e do que fez ao povo português durante perto de 50 anos não fosse assim apagada, por renomeação decretada por impulso revolucionário, e pudesse dessa forma sobreviver ao esquecimento.

Continuo a pensar que estava certa, embora hoje não me passasse pela cabeça assinar semelhante texto, porque tenho sobre a memória histórica dos portugueses uma outra ideia, que deriva do que aprendi sobre a sociedade portuguesa. [Read more…]

“ Quem fez mal à República?”

E à Escola pública, a maior realização da República? Alberto Nogueira Pinto, na passagem do 5 de Outubro, dia da Instauração da República (foi numa quarta-feira, em 1910).
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Teorema

“Lista das 400 maiores instituições mundiais em 2013 vai ser divulgada no início de Outubro. Em 2012, as universidades lusas perderam posições”
“Não somos nós a descer no ranking. As outras é que estão a subir mais que nós”, resumiu, na altura, o vice-reitor da Universidade do Porto (UP), António Marques.

Pois… Agora percebe-se porque é que se desce: porque os outros sobem.
Ó Jorge Jesus! Aqui está um bom apontamento para memória futura.

A casa de Aristides de Sousa Mendes

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foto daqui

Antes de mais, saúdo a decisão da Secretaria de Estado da Cultura. O não restauro da casa do cônsul de Bordéus que salvou mais de trinta mil pessoas, contra a vontade de Salazar, era um atestado de indiferença e desprezo pelos actos de um dos raros portugueses que, sozinho, se dispôs a pagar um elevado preço para fazer o que julgava estar certo.

Durante anos, quase nada se soube sobre Aristides de Sousa Mendes. Pouco a pouco, (especialmente após o lançamento da Lista de Schindler) fomos sabendo de como possibilitou a fuga de milhares de pessoas do pesadelo nazi, de como morreu na miséria, de como ele e a sua família foram penalizados e ostracizados pelos seus actos.

Há muito tempo que se falava na necessidade da recuperação da Casa do Passal sem que sucessivos governos, autoridades regionais ou mecenas privados mexessem uma palha para honrar esta página exemplar.

Foi necessário que descendentes dos fugitivos, radicados nos EUA, começassem pouco a pouco a organizar-se para que o cenário mudasse. Com as pesquisas facilitadas pela internet, a Sousa Mendes Foundation localizou cerca de três mil sobreviventes e seus descendentes, passando a palavra e recuperando a memória do cônsul português de Bordéus. Foi ainda necessário que um jovem arquitecto americano, igualmente descendente da “diáspora Sousa Mendes” decidisse montar frente às ruínas da Casa do Passal um “museu temporário” cuja iluminação contrastasse com o buraco negro da casa, para que a campainha soasse em Portugal e a decisão fosse anunciada. [Read more…]

As broncas previsíveis da Parque Escolar

logo parque escolar
«Os alunos da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, poderão não voltar a ter aulas de Educação Física este ano lectivo», explicava-se ontem no Público. «Empreitada de 21 milhões de euros deixa escola a braços com inundações», adiantava-se naquele jornal. E no entanto muitos foram os que advertiram para o que estava a acontecer, quando estava a acontecer. Na António Arroio, as aulas decorreram durante longos meses (vários anos lectivos) em salas improvisadas nuns contentores que a Parque Escolar alinhou nas imediações do edifício da escola.

Há três anos, fiz uma reportagem sobre a vida política nas escolas. Um dos temas a que não pude fugir foi justamente o das obras da Parque Escolar, um consórcio de privados a quem José Sócrates encomendou a requalificação de mais de três centenas de escolas portuguesas – precisassem elas ou não de obras -, oferecendo-lhes também um lugar na gestão dessas escolas (!). [Read more…]

A opção europeia – uma questão de fé

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11 de Abril de 1985 (Arquivo RTP)
Fonte: Centre d’études européennes

S. Bento, Lisboa, Abril de 1985. No Parlamento fumava-se, e a então deputada comunista Zita Seabra comia, enquanto Carlos Carvalhas, à sua frente nesse plano televisivo, discursava interpelando um ministro do PS (quem seria?) que chamara aos estudos então realizados pelo PCP sobre as vantagens e desvantagens da adesão de Portugal à União Económica Europeia “uma cortina de fumo cujas opções se radicavam em razões ideológicas” – o velho argumento que é pau para toda a obra quando o objectivo é tergiversar. Respondendo a esse ministro, Carlos Carvalhas lembrava que “a Europa não [era] a CEE – a CEE [era] a Europa dos monopólios e não a dos trabalhadores [hoje chamamos-lhes cidadãos] – e nem sequer um clube, e muito menos um clube caritativo”, pois seria nalgum ponto necessário começar a contribuir – pagando como os outros. [Read more…]

Há 27 anos

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Bruxelas, 1 de Janeiro de 1986.
As bandeiras nacionais portuguesa e espanhola são içadas na sede do Parlamento Europeu
(© EFE)

Os ibéricos, esses malandros

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(c) Parlamento Europeu
Mário Soares, Rui Machete, Jaime Gama e Ernâni Lopes assinam o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia

12 de Junho de 1985: após oito anos de negociações, Portugal assinava o tratado de adesão que o colocaria em 1986 no clube dos consumidores europeus e grandes exportadores mundiais, então 320 milhões de indivíduos. A Europa dos ricos alargava as suas fronteiras aos pobres e recebia de uma assentada três milhões suplementares de desempregados. Jacques Delors celebrava o esforço comum empreendido em favor de «um mesmo ideal [que serviria] para reforçar as nossas economias, confortar as nossas democracias e partilhar as nossas culturas.» E foi assim, a imaginar que estávamos num clube filantrópico de amigos beneméritos, que deixámos a corrupção de sempre (a do sistema de poderes de tráficos e influências que prossegue minando de injustiça e imoralidade a vida dos cidadãos) tomar conta do Estado democrático. [Read more…]

Às minhas solteironas

Esta semana partiu-se de vez a velha saboneteira de porcelana, já muitas vezes remendada com supercola, que andei a empacotar e a desempacotar nas mudanças de casa dos últimos 15 anos. Era um traste inútil que eu não queria deitar fora, como não quero deitar fora todos os outros trastes inúteis que me fazem lembrar gente que já não está. A saboneteira foi um presente de emancipação de uma das minhas velhotas, a Luísa, talvez a minha preferida, e era um pretexto para manter perto de mim as minhas velhas solteironas. [Read more…]

Hoje dá na net: Especial Zeca Afonso na RTP Memória

Programa emitido a 23 de fevereiro de 1987, logo após a morte de José Afonso. Não sobrava muito no arquivo. A RTP nunca gostou do Zeca, que também não era muito de estúdios, e no pós-PREC houve uma limpeza de memória aos anos de 1974-75. Mas foi um bom esforço de Luís Andrade, Brito Macedo e Carlos Pinto Coelho,que coordenaram e de  António Faria e Luís Filipe Costa que realizaram.

Vidas por um fio

(adão cruz)

Que bem estava assim de papo para o ar quando minha mãe entrou no quarto e me disse:

– Meu filho, está lá fora o Virgolino caçoilo e pede encarecidamente que vás ver o seu filho que está a morrer.

Eu havia chegado nesse momento a Vale de Cambra para um fim-de-semana, vindo do quartel militar da Amadora onde aguardava o meu embarque para a Guiné. Estava cansado porque os trezentos quilómetros da altura não eram os de hoje. [Read more…]

O raio da memória

Hoje deu-me para recordar uma estória velhinha. Imaginem que no tempo em que televisão queria dizer apenas e só RTP surgiu num jornal diário uma crítica a um programa escrita por um crítico que por hábito ferrava no canal único, sem o talento do Mário Castrim que fazia o mesmo mas todos os dias nos ensinava a  ler e escrever.

Depois veio o incidente: como muitas vezes era hábito nesses tempos televisivos, o tal programa não fora emitido. Estava na programação, mas por qualquer razão à última da hora foi atropelado e adiado para outra calenda.

Gozo geral no país, já que da RTP não perdoaram.

E porque me terei eu hoje lembrado disto hoje? Se calhar porque no Avante um tal de Correia da Fonseca, crítico de televisão, manda umas bocas patetas à recém-libertada Suu Kyi, na Birmânia do império chinês.

Deve ser aquela coisa da associação de ideias. Desonestidade, alarvidade, Correia da Fonseca. Isto anda tudo ligado.

Eu não te espero!

(adao cruz)

Eu não te espero! Yo no te espero! Jo no t’espero! Eu nom te espero!

Acordei hoje de manhã com uma grande sensação de paz. No entanto, atravessavam-me a cabeça três traves mestras. Duas delas de madeira sã, firme, sem bicho. Outra de madeira podre, carunchosa.

 A primeira era uma reflexão muito agradável e confiante sobre a leitura da véspera, o maravilhoso livro de António Damásio “O livro da consciência”. Li e reli tudo o que ele escreveu. E comparando com tudo o que ele escreveu, este livro parece-me um passo gigante no sentido da firmeza, da confiança e da projecção do ser humano no caminho do conhecimento e da verdade. Quando ele diz que o “eu” que tornou possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a corrigir as intuições enganadoras a que o eu, por si só, nos pode levar, é um pensamento magistral. Nada há como a razão, a principal riqueza do ser humano. [Read more…]

No dignity

Hoje depois das aulas, depois de umas horas ao computador mudei para o canal História e dei por mim a ver um documentário semelhante a um outro que já tinha visto, sobre os acontecimentos na Praça de Tiananmen há 20 anos atrás. Só depois, ao ler este texto do Sérgio Almeida Correia, é que percebi porquê.

O que aconteceu em Tiananmen faz-me sempre lembrar uma cena do início do século. E no fim de contas estávamos no fim do século Não sei explicar bem porquê sinceramente mas sempre tive a, sem dúvida, rídicula sensação de que há vinte anos o que aconteceu não devia ter acontecido. Há coisas que há vinte anos – como agora – não deviam ter acontecido. E é por isso que me faz impressão. O facto de ser recente, logo quando se pensava que depois de tudo aquilo já não devia acontecer.

As pessoas não gostam de se lembrar de Tiananmen. Provavelmente porque não gostam de ser lembradas que uma das maiores potências mundiais é uma ditadura. E porque no fundo era muito mais fácil se a China fosse um país pobre de extrema direita com um general no poder provavelmente já nos convinha lembrar Tiananmen.

Nesse documentário, uma das dissidentes dizia que enquanto os Direitos Humanos não forem respeitados na China ela vai continuar a lutar e vai continuar a manifestar-se. Porque esse era o seu dever. A China é uma país que não respeita os Direitos Humanos. É uma país onde não há Liberdade de Expressão, onde há vinte anos milhares de estudantes morreram e não porque eram perigosos reacionários. There´s no dignity. Deles e nossa. E isto tem que ser relembrado. Vezes e vezes sem conta.

(Esta fotografia é para mim, uma das melhores fotografias do século. Representa toda a luta de UM só homem por um ideal justo)

Recuperar a memória

Documentário sobre o concerto de homenagem aos republicanos, que juntou em Rivas Vaciamadrid, 800 ex-combatientes, exiliados, orfãos da guerra, presos políticos, etc.

Lembrando os que defenderam a legalidade republicana, e foram vítimas de um dos maiores massacres fascistas do séc. XX. Apontando o dedo aos que continuam a tentar que o esquecimento apague os seus crimes.

O primeiro vídeo traz-nos  a belíssima actuação de Bebe, que abriu esta homenagem.

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…e rasgaram as minhas vestes

Salvador Dalí, Cruxifición ou Corpus Hypercugus, 1954

Todos sabem que não sou um homem de fé, contudo, os acontecimentos da Igreja Romana e dos seus Sacerdotes e estudantes, levou-me a reflectir.

1. A memória social.

A memória não é apenas de cada indivíduo. Essa, é a lembrança que o ser humano tem, pensamentos que acarinha, ou, como já disse John Locke, em 1695, é a consciência formada em cada um de nós com a experiência. O saber pelo qual agimos acaba por estar no meio de todos os seres humanos que partilham a experiência quotidiana da vida. Há os que lembram a história local, há os que sabem os nomes das famílias, há os que lembram as datas de nascimento, há quem saiba as intimidades. Há, enfim, os que orientam a sua vida pela memória que por eles não foi escrita, mas que é usada para orientar o comportamento ou para o interpretar. Há os que, por saberem interpretar, acabam por ser os sábios do grupo social com o qual interagem. Não há grupo social sem interacção, sem convívio com outros seres humanos. Esse convívio é pautado. Não é fácil. Não é acessível. Tem obrigações, distâncias, tabus, interdições. Também permissividades. E preferências. Mas, principalmente, obrigações hierárquicas entre gerações, ou ainda entre pares. Conforme o comportamento, ideia, saber de que tratem as pessoas. [Read more…]

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