Dia Mundial da Rádio


Hoje é o dia dos dias menos cinzentos. Viva a Rádio.

Educação? Perguntem à M80!

m80As escolas – e, portanto, todos aqueles que aí trabalham – são rochedos que vão resistindo como podem às muitas intempéries a que estão sujeitos. Políticos, professores universitários de muitas áreas, empresários, teóricos, cronistas, jornalistas, analistas, todos pensam saber mais sobre Educação do que aqueles que trabalham nas escolas. O costume: num convívio de dez pessoas em que uma seja professor, os outros nove têm sempre explicações a dar e medidas infalíveis para propor, ficando o professor desvalorizado por ser parte interessada. Até Cavaco, com o génio que se lhe reconhece, resolveu, há poucos anos, os problemas nos concursos de professores. [Read more…]

Ouvintes gajos

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© John Frost and daughter listening to radio in their home.

Marco Faria

Hoje, ouvi na rádio três vezes a palavra “gajo”. Em rigor, numa das situações foi proferido o plural – “gajos” – o que acentua ainda mais a minha preocupação. É verdade que a estação em causa dirige-se a um público muito jovem, estilo Porta 65 Jovem. Não quero divulgar o nome da emissora, mas vou dar uma pista enigmática: começa com um “V” e termina em “fone” (podendo sublinhar que na parte inicial está o termo de uma bebida muito apreciada pelos eslavos, vod(k)a). Como todas, é .FM, porque em AM só a Renascença, a Antena 1 e os “Mujahidin” escondidos no Monte Atlas no norte de África.
O calão é sim sinal, e eu não vou de forma alguma armar-me em moralista dos bons costumes e ler os códigos do tempo.
No dia-a-dia, todos recorremos às mesmas expressões. Com excepções. Em Cascais, por exemplo, não se diz “gaja”, mas, deixem-me pensar cinco segundos… pindérica. “Ó sua pindérica, não te vi no Tamariz. O teu namorado estava lá com a Cacá”.
Pindérica é mais poético que “lady”, menos valorizado que outras variantes de tocar piano e falar francês. Por sua vez, no Porto, no mercado do Bolhão, qualquer conversa resvala para: “- Ó jeitosa, eu sei que ontem foste à Badalhoca comer uma sandes de presunto?” “- Estás por acaso a chamar-me nomes? Sabes, vi uma saia de folhos igual à tua na feira de Custóias?” [Read more…]

Adeus Purple One

Prince

As rádios portuguesas da moda colocaram a playlist em pause e, neste momento, choram em uníssono a morte de Prince. Tem tanto de comovente como de irónico, assistir a esta homenagem a um grande artista que há tantos anos virou as costas à indústria por parte de rádios transformadas em reprodutoras da vontade dessa mesma indústria. Rádios onde Prince precisou de morrer para voltar a tocar. Business as usual.

May you rest in peace Purple One 🙁

Passos Coelho está de parabéns!

Conseguiu aguentar um debate inteiro sem trazer o seu congénere Sócrates para a discussão. Tivesse ele feito o que lhe mandaram os assessores no primeiro e não teria sido tão patético.

Ódios de estimação: Alexandre Soares dos Santos

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Um Dia Normal em Paredes de Coura

dia_normal_paredes_couraTem a mercearia, o jornal, tem o rádio e tem música também.

5ª estação [A loja de santos]

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Arrancou no passado dia 1 de Abril a nova Rádio Solar – um novo projecto radiofónico de Fernando Guimarães, com emissor que cobre o Algarve e uma primeira presença na web em webradios.pt. Uma rádio no Mundo, com muita música, informação editada por Rui Anacleto e alguns primeiros cronistas. Às quintas vai para o ar a crónica que assino: 5ª. Estação. A de quinta-feira passada não está famosa em matéria sonora (gravo em condições um pouco precárias – o que há-de ser melhorado logo que possível), mas aqui fica.

Um homem rádio

Nos inícios da década de 80 a RDP tinha uma prateleira onde depositava os profissionais que não permitia no fazer do jornalismo do dia-a-dia, gente de esquerda (começara em 76 o fabrico de uma comunicação social domesticada, voz dos donos disto tudo), dando a alguns ainda assim umas migalhas. Saboreei uma delas religiosamente todos os domingos ao almoço, chamava-se Ver, Ouvir e Contar, era a Rádio em estado puro e refinado, a reportagem com o sabor dos passos nas aldeias abandonadas da Serra, o cheiro dos homens e mulheres que catavam o lixo onde o depositavam, era gente a entrar-nos pela casa dentro, era a Rádio, uma meia-hora semanal de deleite, amargura, a vida.

Realizava esse milagre Emídio Rangel, os melhores pedaços tinham o cunho do repórter magia Fernando Alves.

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Houve uma profissão que quis ter, e dela desisti porque prostituição não me rimava, e mais sacanices menos detalhe terminou como hipótese no dia em que um patrão me ordenou as regras da agenda da casa. Não fui homem da rádio, ambicionando perder a partícula de ligação, paciência.

Mesmo assim e isto dito de outra forma: obrigado Emídio Rangel.

Vítor Rua: o que ser músico significa

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Imagem daqui

A TSF tem uma rubrica chamada «A Playlist de…» (e a palavra playlist estraga logo tudo). Toda a sorte de mais e menos famosos entregaram já nas mãos da TSF as suas preferências musicais, confidenciando na rádio as histórias e razões ligadas às escolhas que compõem a dita … playlist, assim chamam na TSF à música da vida das pessoas. A ideia – pôr no ar música escolhida por quem a ouve e gosta dela, pelas razões particulares que nos ligam às coisas – é em si boa. É o tipo de programa que fica sempre bem numa rádio que quer ser o espelho da sociedade a que as suas emissões se destinam. É também um dever de pluralidade e de memória, em favor da música de diferentes gerações. A música que cada um ouve é uma parte de si. Para aqueles que não se importam de a partilhar, uma rubrica assim vem a calhar – e sortudos os que possam ouvir com agrado, e se possível empatia, essa música de razões subjectivas que a rádio transmite.

Mas a música que cada um ouve é também uma caixa de mistério, uma escolha que em princípio não responde a nenhuma razão mercantil, e que habitualmente não passa na rádio. Isso é bom, uma lufada de ar fresco na névoa pesada e repetitiva da música para grande consumo com que constantemente nos moem o juízo (mas não foi sempre assim). Claro que melhor ainda seria a rádio deixar-se justamente de playlists, que não servem nem a música nem os verdadeiros músicos (que também os há falsos, em grande número até), mas os interesses intermediários e parasitas da criação musical e das indústrias que gravitam em torno dela. Sucede que a dado passo também as rádios sucumbiram aos imperativos dos mercadores de discos, concertos e cervejas, e estragaram tudo (mas a XFM existiu mesmo, e não é possível esquecê-la).

Vem tudo isto que já vai longo a propósito da entrevista que Fernando Guimarães, homem da rádio e também do Aventar, fez a Vítor Rua, uma pessoa que aposto que jamais aceitaria participar numa rubrica chamada «A playlist de…». [Read more…]

TSF ocupada

Um grupo de cerca de 50 pessoas ocupa as instalações, e a emissão em directo da TSF, “em defesa do direito à palavra“.

RTP

A comunicação social em crise aproveita tudo o que mexe para se safar – no jornal I  fala-se da RTP Porto e de como esta é um problema, segundo eles, o maior dos problemas.

Há coisas que não são para explicar – a RTP tem que existir a Norte e não apenas no formato delegação. E tem que existir porque sim. A dimensão noticiosa de um país civilizado exige a presença do serviço público de informação (televisão e rádio, neste caso) de proximidade.

O jornalismo está longe de ser uma ciência exacta e por isso as vivências dos jornalistas, a sua existência enquanto pessoas junto da população é fundamental para perceber o pulsar do país e, com base nisso, construir informação de valor acrescentado. Reduzir a RTP a Lisboa ou, pior, reduzir a RTP à SIC e à TVI é um mau caminho que prejudica o país.

Quero que parte dos meus impostos continue a ser utilizado na RTP, no serviço público de informação e, claro, na sua produção no Porto e nas restantes delegações a norte.

A solução para o país não passa por fechar a paisagem e levar tudo para Lisboa.

—-

Actualização via face: Encontrei este texto da Jornalista Magda Rocha que não resisto a publicar: [Read more…]

Sem notícias

Mais uma ideia maluca, à Céu Mota. E se, de um dia para o outro, optar por não ouvir, ler ou querer saber o que se passa no meu país e no mundo? Não comprar o jornal, mudar de emissora de rádio quando viajo de carro, não ver as notícias na TV, etc.?

Nas férias não é difícil, mas prolongar essa escolha para o resto do ano?

Será alienação? Indiferença? Como será viver sem tanta informação?

Por todos os lados ela nos chega. Tanta, que ficamos imobilizados… sem saber para onde nos virar, sem conseguir filtrar e assimilar. Ficamos loucos. Não agimos.

Provavelmente, escreveria menos no Aventar…

Não há como experimentar!

O Aventar está presente:

Programa “Discursos cruzados” que  vai para o ar às Terças, pelas 21.30 na rádio Digital FM (http://www.digitalfm.pt/webtv/) conta com a participação do nosso José Mário Teixeira. Eu vou ouvir!

Notícia das notícias em gráficos

O jornal Público divulga hoje o relatório da ERC sobre os gastos em publicidade por parte do Estado central – isto é, sem contar com autarquias, instituições de ensino, tribunais, Presidência e Assembleia da República. [Adenda a 20.Out.: a edição impressa acrescenta mais alguns detalhes. Sumário no fim deste texto.]

É portanto apenas uma parte do total desta desta despesa e desde logo espanta pelo seu valor: 408 milhões de euros! Caro leitor, fique sabendo que só para a propaganda do Estado central contribuiu no ano passado com mais de 40 euros. Contribuiu, aliás, bem mais do que este valor, pois o número de contribuintes efectivos é muito inferior a 10 milhões. Dada a falta de números oficiais, estima-se em 3.5 milhões o número de contribuintes efectivos. Neste caso, a sua generosa contribuição em 2009 para os cartazes do solar, das Novas Oportunidades, dos programas patrocinados na TSF, anúncios de página inteira em jornais e mais uma catrefada de "investimentos" (!) foi superior a 100 euros.

Mas vejamos esses números saídos hoje no Público, aqui apresentados em 5 gráficos, para depois  os lermos.

1. Gastos totais

 Gastos em PUB pelo Estado central

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Fim do RCP é triste mas não surpreende

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O fim do Rádio Clube Português é triste mas não é surpreendente. Surpreendente foi um grupo com a experiência da Media Capital ter decidido sequer avançar com um projecto deste género. E, já agora, ter aguentado durante tanto tempo, apenas com ligeiras alterações.

Querer vingar em Portugal uma rádio de palavra, muito ao estilo espanhol, parece uma demonstração de ignorância sobre o mercado nacional. As rádios de palavra funcionam em Espanha mas não em Portugal. Por cá, o mais aproximado é a TSF mas, ainda assim, bem longe do espírito daquilo que se faz no país vizinho e que o RCP tentou fazer na sua origem. A reformulação efectuada há coisa de dois anos não resultou. Foi apenas uma tentativa de adequar os olhos à barriga.

Uma rádio deste género implica um investimento elevado. Sobretudo em meios humanos e em despesas de comunicações. E o retorno publicitário, convenhamos, é uma miséria. Agora, 36 pessoas vão para o desemprego. Depois do fim do 24horas, é mais um órgão de comunicação social a não resistir. Não só à crise mas também à gigantesca evolução do sector. Não deve ficar por aqui.

Um homem com ideias e uma menina para atender o telefone

Consiste uma das minhas inúmeras manias  no facto de o duche matinal ter de ser acompanhado pelas notícias da rádio. Se não consigo encontrar o rádio (levo-o para todos os lados da casa), ou se as pilhas estão descarregadas, não posso tomar banho até resolver o problema. Para mim, tomar banho depende tanto da existência de água e sabonete como de um transístor ao pé do chuveiro.

Isto traz os seus amargos de boca, claro está, porque tendo a começar o dia com uma voz a anunciar-me que o PSI20 está em queda e que a bolsa de Lisboa abriu no vermelho, conceitos demasiado abstractos para mim, confesso. Ou que há complicações de trânsito na Avenida AEP, por onde raramente passo, ou no IC24, por onde não passo nunca. [Read more…]

Já alguém viu outro alguém correr atrás do prejuízo?

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A coisa nasceu há já uns bons anos. Na rádio. Primeiro surgiu devagar, depois, como os coelhos, foi-se reproduzindo de forma rápida e imparável. Generalizou-se por muitos dos relatadores e comentadores futebolísticos das rádios, das nacionais às locais, passou a ocupar espaço no léxico dos narradores e comentadores de futebol das televisões e até chegou aos jornais, num contágio fulminante.

A frase é simples e até pode soar bem: “correr atrás do prejuízo”. Sim, todos sabemos o que pretende dizer. Mas, já agora, um esclarecimento: alguém no seu perfeito juízo corre atrás do prejuízo?

Já calculava que a resposta fosse não. Então e se deixassem de usar a frasezinha parva, hem?

Vidas Alternativas 206 – Sinopse do programa de rádio

O programa semanal de rádio Vidas Alternativas 206 abre com uma discussão entre Monarquia e  República a propósito de uma petição que Nuno da Camara Pereira, Presidente do PPM, Partido Popular Monárquico, lançou na net para alterar um artigo da Constituição, para permitir a utilização do  referendo para a legitimar ou não.
Depois de Nuno da Câmara Pereira, fomos ouvir Luís Mateus, militante republicano, que expôs as suas razões contra essa petição.
Fechamos ouvindo o sociólogo António Pedro Dôres, debruçando-se  sobre os casos, sempre escandalosos e reincidentes, da falta de respeito pelos direitos humanos dos presos nas prisões portuguesas.
Abertos às vossas criticas e comentários, sugerimo-vos que se inscrevam na nossa newsletter em www.vidasalternativas.eu.
Antonio Serzedelo-editor

Morreu o Homem da Rádio

Este António Sérgio que não volta a fazer rádio foi tão importante para a minha geração como o outro António Sérgio, que escrevia livros, o foi para a sua.

Sei que isto para muitos será uma heresia.  Mas  quem o seguiu, desde os tempos da Rotação na RR, gravando programas inteiros nas velhas k7’s, única forma de ouvir a música que só ele passava em Portugal, e quem entenda que a música para nós ocupou o espaço dos ensaios, a comparação pode ser parva mas faz sentido.

António Sérgio abriu uma estrada de Lisboa a Londres e a Nova York que não existia, uma estrada com ligação directa às ruas de má fama, desviada de outros caminhos com passadeiras, os das todo poderosas editoras que moldavam o consumo da música moderna à maneira do negócio e da tacanhez., repetindo infindáveis Baby I Love You.  Trazia canções que nos falavam de jovens urbanos chateados com o mundo, e era isso que nós também queríamos ter o direito a ser. Há uma revolução escondida nessas esquinas, obrigado por nos teres trazido decibéis dela.

Resta-me a consolação de saber que quando chegar ao inferno ele já lá estará a passar música. Pobre Diabo, a sua vida nunca vai ser a mesma.

 

 

 

 

E quem não vê caras pode ver corações?

Por volta dos meus 14 ou 15 anos, vivi um curto período de campeã de concursos radiofónicos. Com o beneplácito e a colaboração da minha mãe, que deve ter achado que melhor isso do que meter-me nas drogas, fartava-me de ligar para tudo quanto era concurso de rádio e em poucos meses amealhei dezenas de prémios, nenhum deles de grande valor monetário, mas todos muito bem-vindos. É justo dizer que nenhuma dessas vitórias teria sido possível sem a introdução em nossa casa de um telefone de teclas, supra-sumo da evolução tecnológica nesse início da década de 1990, e sem as enciclopédias que o meu pai comprara nas Selecções do Reader’s Digest, e nas quais eu encontrava num ápice resposta a questões como “quem inventou o nónio?” ou “que rio banha Praga?”. E assim, em poucos meses, a minha mãe – que se juntava a mim aos fins-de-semana – e eu ganhámos óculos de sol, bilhetes para espectáculos, vinis, CDs, tortas de noz e bolos-rei, e muitas outras coisas de que já não me lembro. Por essa altura eu não tinha locutores favoritos (viria a ter, anos depois, o Aurélio Gomes), mas a minha mãe apreciava em particular o galã radiofónico de uma estação do Porto, que falava com voz de cama, e a quem ligavam algumas senhoras que, entre sussurros melosos, confidenciavam que estavam a ligar da banheira, num banho de imersão com pétalas de rosa, e coisas semelhantes. Um dia ganhámos um concurso promovido pelo dito senhor, e tocou-me ir levantar o prémio. O meu pai, que nessa tarde estava livre, acompanhou-me e a minha mãe, que tinha de trabalhar, roeu-se de inveja mas fez de conta que tanto lhe fazia.

Fomos recebidos por um matulão de cento e tantos quilos, vestido com uns calções de explorador, com umas unhacas a sair das sandálias, e que para meu espanto tinha a mesma voz do locutor sexy. A primeira coisa que me ocorreu é que se trataria de uma partida, um estranho ventriloquismo que faziam para troçar com os ouvintes ingénuos. Não era, claro. Era mesmo ele. Se as senhoritas da banheira o pudessem ver, meteriam a cabeça na água e deixar-se-iam afogar. Felizmente o meu pai, deliciado com a descoberta, estabeleceu a conversa diplomática que havia que estabelecer, já que eu fiquei muda, assombrada pela voz que saía daquela cabeça à qual era claro que não podia pertencer. Nesse dia desisti dos concursos de rádio. E prometi que nunca mais quereria conhecer qualquer pessoa a quem eu tivesse imaginado antes, intuindo já por essa altura que esse encontro estaria condenado ao desencanto. Claro que viria a quebrar essa promessa anos depois, mas isso é outra história. Vem isto a propósito de eu ter visto aqui há dias, no Facebook, a fotografia do nosso Adalberto Mar, enfant terrible do Aventar, perpetuamente do contra, ágil a deitar abaixo qualquer uma das nossas paixões musicais, literárias, cinematográficas, desportivas, arquitectónicas, digam vocês (isto em português não soa tão bem quanto “you name it”, verdade?) e que tem um ar tão cândido e de boa pessoa que eu até pensei que devia haver engano. Onde estão o bigode mefistofélico, os cabelos revoltos de endemoninhado, o olhar incendiado pela indignação, a turbulência que o faz GRITAR-NOS com o Caps Lock ligado? Como é possível que a foto que nos surge seja a de um simpático moço em passeio pelas ruas de Aveiro? Isto de partilhar um projecto com alguém a quem não se conhece o rosto ou sequer a voz espicaça a imaginação e faz-nos hesitar entre o desejo e o receio de chegar mais perto. Claro que os outros também são aquilo que pensámos deles, o que avaliámos de acordo com experiências passadas e às quais eles muitas vezes são alheios, o que imaginámos e interpretamos, o que intuímos e inferimos, e julgamos com ou sem justiça. Mas essa também é a graça de nos relacionarmos com aqueles cujo rosto não conhecemos, não é?