Tempo para preparar aulas: a importância de perguntar

O Público de hoje, na comemoração do seu aniversário, teve como director o filósofo José Gil. É próprio do filósofo perguntar, reflectir sobre o que não se sabe, pensar, até, sobre aquilo que não se pode saber. Assim, o programa proposto pelo director circunstancial do Público é de uma importância decisiva, exactamente porque é compreensivelmente raro um jornal não noticiar o invisível ou o incognoscível. Afirma, a propósito, José Gil:

Vivemos num país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São “dados” incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias.

Como professor, e tendo em conta a destruição sistemática das condições de trabalho da classe profissional a que pertenço, apetece-me realçar a pergunta a que ninguém, a começar pelo Ministério, quer responder:

Quantas horas os responsáveis estimam necessárias para os professores prepararem as lições?

Na realidade, esta pergunta ignorada é fundamental e deveria condicionar qualquer decisão política no âmbito de um estatuto profissional. Nos tempos economeses em que vivemos, é, apenas, um assunto a evitar. Sobre o mesmo tema, já escrevi aqui e aqui.