Se puder, vá mesmo!

Foto de Paulete Matos

É conhecida a enorme dificuldade da sociedade civil portuguesa em articular-se de forma organizada. Interpretações das causas há várias; ocorre-me a recomendação da Carla para a análise em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”, lembro-me da de José Gil, em “Portugal, hoje – o medo de existir”. Elementos úteis para perceber esta carência de cidadania; e outros haverá. Tenho para mim que uma das causas é a aversão intrínseca dos portugueses à organização; organizar-se é abdicar de um pedacinho de individualismo por mor de uma causa cívica – uma cedência inadmissível para grande parte dos portugueses (sendo-lhes mais fácil tratando-se de uma causa caritativa). Poderia sugerir várias outras razões que contribuem para essa letargia cívica, mas vou directa ao assunto que aqui me traz:

Incitei aqui à participação numa manifestação por uma justa causa – e foi tão justa que foi noticiada a nível internacional. Incitei à participação nesta, porque era esta que se ía realizar nesse dia, como já incitei à participação noutras. Pois não faltaram comentadores a perguntar: então e contra a “irresponsabilidade que permite que morram mais de cem pessoas em incêndios?“; então e contra a corrupção? Isto para já não falar no carimbo de “manifestações idiotas”. [Read more…]

O regresso do medo

euronews

Ontem à noite, na RTP 2, o 25 de Abril foi notícia na Euronews numa reportagem onde uma parte, a entrevista a José Gil, teve por sub-título “The Lost Carnation Revolution” (A revolução dos cravos perdida). Escapou-me o sentido desta adjectivação e hoje fui rever a reportagem no site da Euronews. Além de nela não ter encontrado matéria que justificasse esta titulação, não encontrei o próprio título inclusivamente. Nem na edição portuguesa, nem na edição em inglês. Porquê a revolução perdida? E porque razão a reportagem é diferente, só aparecendo este título na emissão da RTP 2?

Salva-se a entrevista a José Gil, que afirma que “a política de austeridade está a fazer com que, cada vez mais, se tenha medo.” E é isso. Não é o regresso do medo da acção do Estado directamente sobre o indivíduo, como acontecia com a PIDE, mas das consequências da acção do Estado nos meios de subsistência desse mesmo indivíduo. Tal como há várias formas de se esfolar um coelho, para seguir a semiótica introduzida por Passos Coelho, também há muita forma de perder a liberdade. Sem pão não há democracia, que se dilui no medo de se perder o emprego, entreabrindo a porta para a aceitação de limitações e condições que antes seriam impensáveis.

A seguir, a entrevista em causa. [Read more…]

O fim do sonho

Uma entrevista imprescindível do filósofo José Gil à TSF/DN.

A morte dos portugueses

«Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida.(…) O poder destrói o presente individual e colectivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho (…) O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças – em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si. (…)

Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.» José Gil na revista Visão

Já cá faltava

“E não haverá aí uma culpa colectiva?” perguntou Mário Crespo a José Gil. Crespo bem tentou levar a água ao seu moinho caduco mas Gil não vergou. Para ver mais logo na SIC-N online.

Perguntar como o filósofo

 

(foto: postais.net)

O Público fez 22 anos no passado dia 5 e foi-nos oferecido! O diretor por um dia desta edição foi o filósofo José Gil. E, como filósofo que é, fez perguntas que nunca mais acabavam!
De repente lembrei-me de António Aleixo…o poeta alentejano, “semi-analfabeto” de “apurado sentido filosófico”. Vem ele a propósito de que todo o português, uns mais que outros, é um pouco filósofo e, ultimamente, tem esta faculdade mais afinadinha.
José Gil lançou cerca de 50 perguntas abordando nove àreas. Aquelas que também são as minhas, as nossas, as do comum dos mortais (eis algumas):

qual o índice de felicidade dos portugueses?

quantas pessoas encaram o desemprego como uma oportunidade?

quantos políticos se preocupam com a pobreza?

quantas horas os responsáveis estimam necessárias para os professores prepararem as lições?

Que consciência têm os responsáveis pelas políticas educativas da especificidade da profissão do docente?

que peso tem a relação aluno-professor na definição das políticas educativas? [Read more…]

Quanto tempo demora a preparar uma aula? Autonomia, já!

José Gil, Director do Público por um dia, escreveu que:

“se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria — e já não têm. Têm cada vez menos férias, cada vez menos tempo para ser pessoas. Uma das questões que coloco é se os responsáveis políticos se dão conta da especificidade da profissão de docente. A relação professor-aluno é extremamente intensa, delicada, forte, vital e específica. Vital para criar qualificação no trabalho e consciência democrática.
É preciso fazer ressaltar esse factor que não está a ser pensado. A avaliação das competências tem de ter em conta um elemento inavaliável, inquantificável em que se funda a criatividade da educação.”

E esta é a questão central da Escola nos nossos dias – que condições têm os professores para desenvolver o seu trabalho com qualidade? [Read more…]

Tempo para preparar aulas: a importância de perguntar

O Público de hoje, na comemoração do seu aniversário, teve como director o filósofo José Gil. É próprio do filósofo perguntar, reflectir sobre o que não se sabe, pensar, até, sobre aquilo que não se pode saber. Assim, o programa proposto pelo director circunstancial do Público é de uma importância decisiva, exactamente porque é compreensivelmente raro um jornal não noticiar o invisível ou o incognoscível. Afirma, a propósito, José Gil:

Vivemos num país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São “dados” incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias.

Como professor, e tendo em conta a destruição sistemática das condições de trabalho da classe profissional a que pertenço, apetece-me realçar a pergunta a que ninguém, a começar pelo Ministério, quer responder:

Quantas horas os responsáveis estimam necessárias para os professores prepararem as lições?

Na realidade, esta pergunta ignorada é fundamental e deveria condicionar qualquer decisão política no âmbito de um estatuto profissional. Nos tempos economeses em que vivemos, é, apenas, um assunto a evitar. Sobre o mesmo tema, já escrevi aqui e aqui.